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Crise. Dez anos depois da queda do Lehman Brothers

Crise. Dez anos depois da queda do Lehman Brothers

Foto: Shutterstock
Economia 5 min. 15.09.2018

Crise. Dez anos depois da queda do Lehman Brothers

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
Depois de dez anos de crise e de austeridade, as economias começam a recuperar. Contudo, o sistema financeiro não está mais seguro.

Segunda-feira, 15 de setembro de 2008. Este é o dia que passou a marcar o início da crise financeira que alastrou ao mundo inteiro, e que se tornaria na pior recessão desde os anos 30, cujos efeitos são sentidos ainda hoje. Hoje faz dez anos que o Lehman Brothers faliu, uma das maiores instituições de investimento norte-americanas que ruiu devido aos elevados níveis de exposição a empréstimos tóxicos relacionados com o mercado imobiliário. Dez anos depois está o sistema mais seguro? A resposta não é positiva, segundo alguns dos maiores responsáveis mundiais. A atual diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, defende que os avanços conseguidos não foram suficientes e o ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirma que o sistema está agora tão perigoso como em 2008.

Já havia sinais de crise no mercado imobiliário norte-americano, com os bancos altamente expostos a créditos tóxicos, mas foi a insolvência do Lehman que fez soar os alarmes. Foi manchete nos jornais desse dia e o pânico espalhou-se. Foi o caos nas bolsas – o Dow Jones perdeu 5%, a maior quebra desde os ataques de 11 de setembro de 2001. Todos os bancos, empresas, governos, entidades reguladoras, organismos internacionais sentiram, mais cedo ou mais tarde, os efeitos da crise anunciada. Ao todo, foram afetados pela crise 24 países, segundo o FMI.

Austeridade, falência, incumprimento, programa de ajustamento, ’troika’, controlo orçamental, cortes, são palavras que passaram a ser usadas todos os dias. Entre 2008 e 2018, a ’troika’ (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) resgatou cinco países – Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda e Chipre. Só em agosto deste ano, a Grécia saiu do programa de ajustamento.

Os remédios para tentar curar a crise

Na zona euro, o BCE colocou em marha um plano de 200 mil milhões de euros para estimular a economia, o que equivale a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona euro. Foi criado um programa de compra de ativos e as taxas de juros foram reduzidas e passaram para níveis nunca antes vistos.

O FMI mobilizou cerca de 650 mil milhões para injetar na economia. As entidades reguladoras criaram novas regras de avaliação dos bancos: estes passaram a ser submetidos a testes de stress regulares. Na prática, estas provas avaliam a resiliência dos bancos em caso de choques financeiros. É, no entanto, preciso ter em conta que estes testes já eram feitos antes da crise e que se revelaram ineficazes para identificar os sinais. Ora para colmatar estas lacunas, a Autoridade Bancária Europeia tem criado testes de stress com critérios cada vez mais severos. Outra das medidas foi a introdução de regras para que os bancos tivessem mais dinheiro disponível e recorressem menos a empréstimos. A economia está agora a crescer, embora algumas economias da zona euro não tenham ainda recuperado para níveis pré-crise. O emprego está a subir e as taxas de desemprego estão longe dos recordes atingidos. No Luxemburgo, por exemplo, a taxa de desemprego nunca atingiu os máximos registados em alguns países, mas em 2014, o desemprego atingiu os 7,2%, estando agora nos 5,5%. Aquele valor é alto para os padrões do país, mas ainda assim baixo se comparado com os 28% registados na Grécia em 2013. Os Governos começaram já a aliviar os impostos sobre cidadãos e empresas – Luxemburgo e Portugal são dois dos exemplos.

Mas há o outro lado da moeda. Os salários tardam em subir: é mais difícil encontrar empregos com a mesma remuneração praticada nos anos pré-crise. E o BCE só agora começa a reduzir o seu programa de estímulos à economia e o tom de cautela está sempre presente nos dicursos do atual presidente. Mario Draghi anunciou o fim do programa de compra de ativos para dezembro deste ano, mas tem dito que as compras poderão ser prorrogadas caso seja necessário. Além disso, Draghi já garantiu que vai manter as taxas de juro nos atuais níveis pelo menos até ao verão do próximo ano.

E há os desenvolvimentos recentes que causam preocupação. É o caso de Itália que contribuiu para a queda dos mercados financeiros nos últimos dias. O governo italiano tem dito que pretende equilibrar as contas públicas, mas esta garantia tem sido curta, sobretudo depois de o Executivo ter admitido que o défice pode ficar acima do esperado. Como pano de fundo há ainda a guerra comercial e o Brexit.

Remédios pouco eficazes

Colocando os avanços e recuos na balança, alguns dos responsáveis mundiais não estão muito otimistas com o futuro do sistema financeiro. “Como estamos no 10.º aniversário do colapso do Lehman? Percorremos um longo caminho, mas não é suficiente. O sistema está mais seguro, mas não suficientemente seguro. O crescimento recuperou”, mas este não é partilhado, considera a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, no blog do organismo mundial. Lagarde admite que “a crise económica teve custos elevados para os cidadãos comuns, combinado com a raiva de ver os bancos resgatados e os banqueiros a gozar de impunidade, numa altura em que os salários reais estagnavam”. Para a responsável, estes fatores explicam a reação contra a globalização, sobretudo nas economias avançadas, e a deterioração da confiança nos governos e outras instituições.

Christine Lagarde considera que os avanços conseguidos foram positivos, mas “não são suficientes”. “Muitos bancos, sobretudo na Europa, continuam fracos. O capital dos bancos devia aumentar”, aconselha, até porque “ainda não houve progressos suficientes para resolver a falência dos bancos”. Além disso, “muitas das atividades obscuras movem-se em direção ao setor bancário paralelo” e “os governantes estão pressionados pela indústria para voltar atrás nas políticas de regulação para o tempo pré-crise”.

O ex-presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, surge mais pessimista que Lagarde. A situação financeira atual está “tão perigosa” agora como em setembro de 2008, aquando da quebra do banco norte-americano Lehman Brothers. Hoje, “o crescimento da dívida dos países desenvolvidos – em particular privada – abrandou, mas este abrandamento é compensado por uma aceleração da dívida nos mercados emergentes. É isto que torna atualmente todo o sistema financeiro global, pelo menos, tão vulnerável, se não mais, do que em 2008 “, disse o responsável pelo BCE entre 2003 a 2011.


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