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Criptopirâmide em apuros
Opinião Economia 4 min. 24.05.2022
Criptomoedas

Criptopirâmide em apuros

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Criptopirâmide em apuros

Foto: dpa
Opinião Economia 4 min. 24.05.2022
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Criptopirâmide em apuros

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Vários analistas financeiros que conheço tentam, há meses, alertar o mundo para as parecenças entre o mundo das criptomoedas e um esquema em pirâmide.

Adivinhe: o que têm as "celebridades" Matt Damon, Kim Kardashian, LeBron James, Reese Witherspoon, Tiger Woods, Paris Hilton, Elon Musk, Gwyneth Paltrow e etc. em comum? Resposta: o silêncio.

Todos estes nomes se recusam agora a comentar o banho de sangue financeiro que estão a viver as criptomoedas - as mesmas criptomoedas que estas mesmas celebridades andaram a promover afincadamente, algumas ainda há poucos dias. Para se ter uma ideia, se alguém tivesse sido convencido pela publicidade de Matt Damon para a crypto.com que passou nas tvs americanas em Outubro e tivesse comprado 1.000 euros do produto, hoje teria perdido metade do seu dinheiro em termos nominais (e ainda mais em termos reais).

Não podemos comer, vestir, usar ou aquecer a casa com uma bitcoin. Não dá para pendurar ao pescoço. Não produz nada - não fabrica relógios, não planta couves, nem presta qualquer serviço.

Este nem sequer é o caso mais dramático. Luna, uma criptomoeda supostamente "estável”" foi criada por um sul-coreano de 30 anos, Do Kwon, descrito antes do crash como "um visionário, o Elon Musk do futuro". Em três dias, Luna - que chegou a ser avaliada em 16 mil milhões de euros - perdeu quase 99% do seu valor, arruinando milhares de vidas iludidas pela promessa de "um rendimento garantido de 19% ao ano". Mesmo a mais conhecida (e com maior capitalização) destas novas moedas - bitcoin - também não escapa ao colapso, tendo desvalorizado 40% nos últimos seis meses.

Não foi falta de aviso: vários analistas financeiros que conheço tentam, há meses, alertar o mundo para as parecenças entre o mundo das criptomoedas e um esquema em pirâmide. Mas essas vozes sensatas são abafadas na avalanche mediática que tem interesse em vender este negócio, entre as quais provavelmente alguns dos nossos amigos - e as referidas "celebridades", claro.

Basta uma visita ao sítio do Banco de Portugal (por exemplo) para se encontrar, em português e inglês, um alerta em relação aos esquemas de pirâmide, com uma lista das características com que eles se costumam apresentar aos incautos. A saber: os rendimentos futuros dependem da entrada constante de novos "investidores" no sistema; há uma promessa de retornos anormalmente altos e em curto espaço de tempo, sem esforço do participante; a rentabilização baseia-se em produtos que, no mercado, têm utilidade diminuta e preço inadequado, mas são apresentados como "totalmente inovadores"; os participantes são incentivados ao recrutamento de novos membros; o êxito e a segurança do  "investimento" são divulgados com testemunhos de sucesso e o envolvimento de celebridades; e normalmente não existe muita informação quanto à entidade que gere o esquema. Todas estas características caem como uma luva no exemplo das criptomoedas.

O caso ainda piora se quisermos deixar de negar as evidências e admitirmos que uma criptomoeda é um bem sem qualquer valor intrínseco. Não podemos comer, vestir, usar ou aquecer a casa com uma bitcoin. Não dá para pendurar ao pescoço. Não produz nada - não fabrica relógios, não planta couves, nem presta qualquer serviço; a sociedade não fica melhor pela sua existência (na verdade fica pior, pela quantidade de energia necessária para produzir grande parte das criptomoedas). Por ser tão instável, nem serve para medida de valor. E não é garantida por qualquer tipo de activo, banco central ou Estado soberano.

Quer tudo isto dizer que já podemos falar da morte das bitcoins? Não, ainda vamos ver algumas subidas serôdias do mercado. Os seus fãs (e que têm algo a ganhar com a sua valorização) juram que estas crises até são boas, que separam o trigo do joio, e que as criptomoedas são o futuro do planeta. Mas, tarde ou cedo, os esquemas de pirâmide acabam sempre por desmoronar-se; se tiver mesmo algum dinheiro a queimar-lhe o bolso... não especule. Compre um presente para alguém que o mereça, contribua para ajudar refugiados; opte por tornar este mundo um pouco melhor. 

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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