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Criptomoedas. O futuro do dinheiro ou uma bolha prestes a rebentar?
Economia 9 min. 20.05.2021

Criptomoedas. O futuro do dinheiro ou uma bolha prestes a rebentar?

Criptomoedas. O futuro do dinheiro ou uma bolha prestes a rebentar?

Foto: AFP
Economia 9 min. 20.05.2021

Criptomoedas. O futuro do dinheiro ou uma bolha prestes a rebentar?

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Cripto moedas como a Bitcoin, a Ethereum e a Dogecoin subiram a níveis que poucos teriam previsto há um ano atrás. O futuro do sistema financeiro avança para o mundo virtual, com vários países a desenvolver as suas próprias moedas digitais. Mas, à medida que crescem preocupações sobre a sustentabilidade da mineração e a volatilidade dos preços, fica a pergunta – estaremos perante uma bolha semelhante à das Dot-com da viragem do século ou há viabilidade no dinheiro digital?

Todos os dias, uma nova tendência financeira surge nos nossos feeds: tweets a serem leiloados por milhões de dólares; o investidor sensação do Reddit conhecido por “DeepFuckingValue” a testemunhar perante o Congresso dos Estados Unidos; ou a venda de uma obra de arte digital por 69 milhões de dólares, que colocou o artista Beeple no top 3 de artistas vivos mais caros de sempre, ao lado de David Hockney e Jeff Koons.

Ao longo do ano passado, e durante os sucessivos confinamentos da pandemia, o interesse em aplicações de investimento no mercado de ações e cripto moedas como Robinhood ou a Coinbase aumentou exponencialmente. Muitos leigos tornaram-se especuladores de ações e de moedas, investindo dinheiro real no mercado com o mesmo entusiasmo e despreocupação de quem aposta em raspadinhas e jogos de futebol.

Quando, no início deste ano, utilizadores do Reddit levaram o valor da quase falida cadeia de lojas de jogos de computador GameStop a alturas inimagináveis, tornava-se claro que o fenómeno tinha potencial para transformar a relação do público com o sistema financeiro - mas o que está a acontecer, exatamente? Será o entusiasmo pelo mundo digital apenas um sintoma dos confinamentos em todo o mundo e de termos passado mais tempo em frente aos ecrãs?

Silvio Micali, MIT
Silvio Micali, MIT

Silvio Micali, professor e investigador no Laboratório de Informática e Inteligência Artificial do MIT e fundador da Algorand, uma tecnologia blockchain para a construção de produtos e serviços para uma economia sem fronteiras, considera que a aproximação do mundo financeiro e tecnológico e a sua consequente democratização vieram para ficar: “O sistema financeiro, no seu conjunto, tem como objetivo obter grandes ganhos de eficiência com a mudança para as moedas digitais e os ativos digitais”.

A verdade é que, embora a tecnologia possa permitir melhores formas de dinheiro, quando e como essas novas formas são efetivamente adotadas depende também de outros fatores. Afinal, demorou séculos até que as instituições construídas por Genghis Khan, que introduziu a primeira moeda em papel em 1227, transformassem a tecnologia que lhes permitia imprimir notas de papel em dinheiro moderno.

“Como tem sido desde há milénios, o dinheiro é uma questão de crença e uma construção tecnológica que nos permite trocar valor uns com os outros, bem como com o nosso eu futuro e as gerações futuras. Hoje, a tecnologia permite-nos expressar as nossas crenças em torno do valor do dinheiro de uma forma mais rica, mais sólida e mais segura do que nunca”, disse ao Contacto o investigador do MIT, vencedor de um prémio Turing pelo seu trabalho em criptografia.

Uma euforia comparável à da bolha das Dot-com do final dos anos 90

Por muito que as mais recentes tendências financeiras pareçam coisa de filme futurista, algo é estranhamente familiar: o frenesim em torno das empresas tecnológicas no final dos anos 90 levou a que se investissem grandes quantidades de capital especulativo, independentemente dos lucros destas empresas - ou da ausência deles - o que fez disparar o preço das suas ações.

O crash que se seguiu viu o índice Nasdaq, que quintuplicou entre 1995 e 2000, cair 76.81% entre 2000 e 2002. No final de 2001, a maioria das empresas Dot-com, tal como Pets.com ou TheGlobe.com, a Oferta Pública de Aquisição (OPA) mais cara de sempre na altura, tinha falido.

Apesar de tudo, a bolha Dot-com gerou tecnologias e indústrias transformadoras. Algumas das empresas cresceram e tornaram-se nos gigantes dos dias de hoje, como a Amazon, a Google ou o EBay.

O mês passado, a OPA da Coinbase, um mercado de câmbios para cripto moedas, foi recebida com enorme alvoroço. Atualmente nos 86 mil milhões de dólares, o valor de mercado da Coinbase excede o montante das transações diárias das bolsas em que as suas ações são negociadas: a Nasdaq com 26 mil milhões de dólares, e a a Bolsa de Nova York (NYSE) 67 mil milhões.

O valor total do mercado de cripto moedas é agora mais de 2 biliões de dólares, contra 260 mil milhões de dólares há um ano. Só a Dogecoin - com um valor de mercado de cerca de 67 mil milhões de dólares - vale mais que 75% das empresas listadas no S&P 500.

Silvio Micali reconhece que existe a possibilidade de estarmos perante uma bolha semelhante a bolha das Dot-com. “O hype vem com a expectativa das enormes mudanças que aí vêm e a dificuldade dos utilizadores e dos participantes no mercado em diferenciar inicialmente entre tecnologias e padrões alternativos. Na altura, como agora, haverá algumas grandes empresas de pé” [quando a bolha rebentar], considera o investigador.

Apesar de tudo, o crescimento exponencial das cripto moedas aponta também a sua vulnerabilidade. Elon Musk, um dos mais conhecidos e entusiastas investidores de cripto moedas, fez baixar o preço da Dogecoin em cerca de 40% depois de apelidar a cripto moeda de “esquema” num programa do Saturday Night Live. A semana passada, numa reviravolta inesperada, anunciou que a Tesla não continuaria a suportar pagamentos com Bitcoin, citando preocupações com o meio ambiente, o que provocou uma queda de 30% no valor da moeda.

Adam Zadikoff, COO da BRD, uma carteira de cripto moedas que conta com mais de 7 milhões de utilizadores, acredita que o que há em comum entre os dias de hoje e a euforia em torno das Dot-com no final do século é o facto de se estar a desenrolar uma mudança fundamental na forma como o mundo funciona.

“Para algumas moedas como o Dogecoin ou outras que apareceram e desapareceram, podemos encontrar alguns paralelos com hype desse tempo, mas, na verdade, o que saiu da bolha das Dot-coms foi uma mudança rápida para o comércio online. Da mesma forma, acredito que nos próximos 5 a 10 anos assistiremos a uma grande mudança para as cripto moedas”, explicou ao Contacto.

Poderão os Estados adotar moedas digitais?

A digitalização do dinheiro está em curso - dos meios de pagamento eletrónicos a verdadeiras moedas digitais. “As moedas criptográficas devem tornar-se e tornar-se-ão a principal moeda no mundo”, diz o investigador do MIT.

“É provável que vejamos a coexistência de tokens nativos de alguns protocolos de blockchain, juntamente com representações baseadas em blockchain de moedas tradicionais fiduciárias”, explica.

A China, por exemplo, tem sido notícia pelo progresso feito com a moeda yuan digital, tendo anunciado o sucesso de um piloto num festival na cidade de Suzhou, perto de Xangai, onde 181.000 consumidores receberam 55 yuans (sete euros) de dinheiro gratuito em carteiras digitais para gastar no recinto.

O yuan digital é uma versão da moeda chinesa normal implantada na blockchain, que é a tecnologia à prova de falsificação que sustenta as moedas digitais como o Bitcoin e a Ethereum. No entanto, esta blockchain é controlada, o que significa que o Banco Popular da China decide quem a pode utilizar.

Da mesma forma, o Reino Unido anunciou estar a estudar a implementação de uma moeda digital do Banco Central, ou CBDC, emitida pelo Banco de Inglaterra, como moeda oficial para uso doméstico e empresarial. A “britcoin”, como lhe chama o Secretario do Tesouro britânico Rishi Sunak, coexistiria com numerário e depósitos bancários, num modelo semelhante ao do yuan digital chinês. Também o Banco Central Europeu já anunciou a decisão de lançar a sua própria moeda digital nos próximos meses e de a lançar efetivamente dentro de quatro anos.

Adam Zadikoff, da BRD, está confiante que as moedas digitais trarão várias vantagens: “é evidente que o dinheiro programável é necessário e desejável no mundo, uma vez que a nossa economia é gerida em e por computadores, mas é suscetível ao mesmo mau uso do dinheiro que sempre foi. As moedas criptográficas podem resolver estes problemas e muitos mais”, afirma.

Mineração de Bitcoin consome 0.6% da energia mundial

A decisão de Elon Musk de suspender a aceitação da Bitcoin para compras de veículos elétricos Tesla, pelo seu grande impacto ambiental, causou pânico entre os adeptos da Bitcoin, que viram o valor de seus investimentos sofrer um golpe quase instantâneo.


Bitcoin afunda 27% do seu valor em 24 horas
A criptomoeda está abaixo dos 33 mil dólares e continua a baixar.

Em cerca de uma hora, o valor de uma bitcoin caiu de mais de 30%, estando atualmente nos 35. 000 euros, uma descida vertiginosa depois do pico de quase 47.000 euros a semana passada, anterior ao anúncio de Musk.

A verdade é que há muito que a comunidade científica expressa preocupações sobre a crescente quantidade de energia necessária para minerar Bitcoin. A Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index (CBECI) calcula que, atualmente, a Bitcoin usa cerca de 149 terawatts-hora (TWh) de eletricidade por ano (a República da Irlanda usou 184 TWh de eletricidade em 2019). A mineração de Bitcoin na China produz 130 milhões de toneladas de carbono por ano, mais do que a totalidade de emissões de países como a Ucrânia ou a Argentina.

As cripto moedas como a Bitcoin são mineradas por computadores que fazem uma milhares de cálculos por segundo para verificar continuamente cada peça da blockchain. Estes cálculos são intencionalmente feitos consumirem muita energia, o que torna o processo de criação de novos tokens mais difícil de falsificar.

“Há muitas ideias diferentes a flutuar e a serem implementadas para ajudar a reduzir a pegada de carbono das cripto moedas. Uma das principais formas está a acontecer com a blockchain da Ethereum, chamada prova de compra, que depende da propriedade da moeda em vez de mineração computacionalmente cara”, explica Zadikoff.

Atualmente, uma única transação de Bitcoin usa a mesma quantidade de energia que uma família americana média consome num mês e é responsável por cerca de um milhão de vezes mais emissões de carbono do que uma transação Visa. É estimado que a mineração de Bitcoin representa agora 0,6% do consumo total de eletricidade do mundo.

“Embora nos devamos esforçar para reduzir a utilização de eletricidade [no processo de mineração das cripto moedas], gostaria de relembrar que utilização de eletricidade e emissões de carbono não são a mesma coisa”, acrescenta, “a fonte da eletricidade é muito importante, pelo que o caminho será continuar a criar mais energia verde em todo o mundo”.

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Ou se ama ou se odeia. Quem investe defende que o dinheiro digital veio para ficar. Mas as criptomoedas contam com a oposição de governos e autoridades reguladoras, que enfrentam uma moeda e uma nova forma de fazer transações que não controlam. Já há empresas a pagar parte dos ordenados em bitcoin e rappers que ficam milionários agora com álbuns vendidos em bitcoin... em 2014. Porém, apesar de parecer rentável, há que ter em conta que se trata de um ativo altamente volátil.