Criptomoedas: Bitcoin, a nova febre do ouro

Criptomoedas: Bitcoin, a nova febre do ouro

Foto: Shutterstock
Economia 8 min.14.02.2018

Criptomoedas: Bitcoin, a nova febre do ouro

Alvaro Antonio Silva Da Cruz
Alvaro Antonio Silva Da Cruz

Ou se ama ou se odeia. Quem investe defende que o dinheiro digital veio para ficar. Mas as criptomoedas contam com a oposição de governos e autoridades reguladoras, que enfrentam uma moeda e uma nova forma de fazer transações que não controlam. Já há empresas a pagar parte dos ordenados em bitcoin e rappers que ficam milionários agora com álbuns vendidos em bitcoin... em 2014. Porém, apesar de parecer rentável, há que ter em conta que se trata de um ativo altamente volátil.

Ou se ama ou se odeia. Quem investe defende que o dinheiro digital veio para ficar. Mas as criptomoedas contam com a oposição de governos e autoridades reguladoras, que enfrentam uma moeda e uma nova forma de fazer transações que não controlam. Já há empresas a pagar parte dos ordenados em bitcoin e rappers que ficam milionários agora com álbuns vendidos em bitcoin... em 2014. Porém, apesar de parecer rentável, há que ter em conta que se trata de um ativo altamente volátil.  

Por Paula Cravina de Sousa

Jean-Marie (nome fictício) decidiu apanhar o comboio da bitcoin em junho do ano passado. Desde aí já comprou, vendeu e voltou a comprar, e garante que o investimento é para manter. E nem a recente queda do valor desta criptomoeda o demove. No entanto – como diz – só investe o dinheiro que pode “perder”. Trata-se de um ativo altamente volátil: senão veja-se, a 16 de dezembro a bitcoin tocou os 19,5 mil dólares; a 12 de fevereiro valia 8,8 mil dólares, tendo chegado mesmo aos 6,8 mil dólares na semana passada. Mas para Jean-Marie não há dúvidas: o investimento é para manter.

A verdade é que o mundo inteiro está a olhar para as criptomoedas. Uns com desconfiança, outros querem mesmo travá-la, outros ainda, como Jean-Marie, acreditam que esta nova forma de dinheiro e de fazer operações vieram para ficar. E o seu valor vai flutuando ao sabor do mercado (ver infografia na página 4).

Sinal de que as criptomoedas estão a ganhar relevância e um caráter mais ’mainstream’ é a oposição que as entidades reguladoras e os bancos centrais estão a fazer. A bitcoin e as restantes criptomoedas (há mais de 1.500) são moedas digitais descentralizadas, isto é, não dependem de um Estado que as crie, nem de bancos centrais ou de bancos comerciais. Funcionam na plataforma blockchain (ver perguntas e respostas na página ao lado). Não são, portanto, reguladas. Nem tão pouco tributadas. Não há impostos que recaiam sobre as mais-valias feitas com estes investimentos. No entato, não é ilegal nem proibido investir em criptomoedas.

As reticências das autoridades reguladoras

Isto está a colocar os bancos centrais à beira de um ataque de nervos. O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, defendeu “que a grande maioria das criptomoedas são basicamente um esquema Ponzi (ou esquema piramidal, em que os investidores iniciais conseguem lucros muito avultados à custa dos que chegam depois)”.

Por outro lado, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, alertou para a incerteza em torno deste tipo de moeda e advertiu que, “se cada vez mais tivermos pontes entre o mundo virtual e o real, e se

depois houver um colapso neste mundo virtual, pode haver uma retirada de liquidez do mundo real”. Ainda do lado do BCE, o membro do conselho executivo e ex-governador do banco central do Luxemburgo, Yves Mersch, referiu, na semana passada, que aquela entidade está mais preocupada com “o efeito social e psicológico que [as criptomoedas] parecem ter: há tanto dinheiro a circular que é como uma febre do ouro; só que não há ouro”.

Também na semana passada, os ministros das Finanças da Alemanha e de França enviaram uma carta aos homólogos dos países do G20, onde pedem que a bitcoin seja travada. Bancos como o Citigroup ou o Lloyd’s Bank proibiram a compra de bitcoin com cartões de crédito (mas continuam a permitir a compra com cartões de débito). O Goldman Sachs – banco citado como tendo participado na crise financeira de 2008 – também já tomou uma posição, avisando que a maioria das criptomoedas não vão sobreviver. O economista que previu a mesma crise, Nouriel Roubini (também conhecido como Dr. Doom), considera que as critpmoedas são “a mãe de todas as bolhas” e que “qualquer valor acima de zero é caro para a bitcoin”.

Anteontem mesmo, a Autoridade Bancária Europeia (EBA), a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) e a Autoridade Europeia dos Seguros e das Pensões Complementares de Reforma (EIOPA) uniram-se e alertaram para o “elevado risco das criptomoedas”.

A procura elevada e as utilizações de bitcoin

As reações negativas sucedem-se. Mas as positivas também. Certo é que se fazem cada vez mais transações com recurso às criptomoedas. Já há quem compre casas com bitcoin ou até perfumes e há mesmo empresas que pagam parte do salário em bitcoin. No Japão já existe essa possibilidade, tal como em Espanha. Há também exemplos de empresas que pagam, não o salário ou parte dele, mas prémios em bitcoin. Há ainda casos mais insólitos. Recentemente, foi noticiado que o rapper norte-americano 50 Cent se tornou um milionário de bitcoin e de uma forma curiosa: em 2014, deixou que os fãs pagassem um dos seus álbuns – ’Animal Ambition’ – naquela moeda. Nunca mais lhes mexeu e, quando se lembrou da decisão, percebeu que conseguira uma fortuna entre sete e 8,5 milhões de euros de dólares na carteira, à conta da criptomoeda mais conhecida.

Segundo Jean-Marie, este movimento das autoridades centrais é uma forma de “ganhar tempo para regulamentar”. “Estamos numa nova era, na qual passamos de um tempo em que todas as moedas são criadas pelos Estados para outra em que a criação de valor não passará nem pelos governos, nem pelos bancos centrais. É isso que as autoridades temem neste momento”, sublinha.

O problema da cibersegurança

Além da regulação, há ainda o problema da cibersegurança. É isso que falta para o especialista neste tema, Paulo Veríssimo. O investigador da Universidade do Luxemburgo defende que “a criptomoeda está para ficar, mas tem de ser regulada e à prova de bala. A regulação é o mais fácil porque é político. Tecnologicamente, há vários grupos de investigação: a ideia é ver quais são os melhores caminhos tecnológicos para tornar a blockchain mais robusta e mais segura”. A equipa deste investigador está também a trabalhar neste dossier: “A nossa fórmula bloqueia todos os ataques conhecidos ao blockchain de maneira geral”, revelou ao Contacto.

Veríssimo assume-se como defensor da privacidade e, por isso, argumenta: “A criptomoeda tem de existir e é aquilo que pode confrontar o dinheiro de plástico em que todas as transações são seguidas. Devemos ir para uma coisa que não seja assim”, considera. “Os bancos têm é de se adaptar”, acrescenta. O professor aponta um dos argumentos utilizados contra a bitcoin que é a associação a redes criminosas. “Dizem-se cobras e lagartos da bitcoin: que só serve é para pagar droga e armas e tráfico disto e daquilo. Mas o dinheiro também”, afirma, defendendo que “não se podem coartar os direitos das pessoas boas porque há pessoas más”. “Se a bitcoin fechar, elas vão para outro lado”, diz.

Os pecados capitais da bitcoin

O custo de produção de bitcoin é ainda muito elevado. A culpa é da própria forma de produzir bitcoin, que consome uma quantidade muito significativa de eletricidade. A título de exemplo, em novembro, a energia consumida pela rede de bitcoin foi superior ao consumo energético da República da Irlanda.

Paulo Veríssimo explica que a bitcoin deriva de uma operação critpográfica muito difícil e que não se pode fazer depressa. “É impossível fazer depressa” e “é como jogar na lotaria”, o que gasta tempo e energia. “Hoje em dia já há pessoas que dizem que isto é anti-ecológico”, sublinha. “Mas, de facto, a bitcoin é criada usando operações que são responsáveis, porque não se podem forjar. E levam tempo e gastam dinheiro. Este é um dos problemas de raiz”, considera. O desafio é tornar a bitcoin mais ecológica e já há empresas a trabalhar nisso, garante o investigador universitário.

O segundo problema da bitcoin tem a ver com o controlo da mesma. Veríssimo cita o criador da moeda digital, Satoshi Nakamoto, que referiu que, enquanto menos de 51% de pessoas não controlarem a bitcoin, esta funcionará de forma descentralizada em que todos temos confiança. Ora, o especialista adianta que “o grande problema é que hoje em dia isso já não se passa: já há dados que permitem concluir que existe um conjunto de ’players’ com uma certa afinidade na China e que potencialmente controlam mais de 51% da bitcoin”. E, quando isso acontece, adverte, “há a receita para o desastre – a bitcoin começou a ter comportamentos bastante especulativos, porque num ano subiu e agora comportou-se como um harmónio”.

Investir ou não investir?

Tendo em conta este panorama, muitos perguntam-se se devem ou não investir. Jean-Marie é rápido na resposta. “Depende da perspetiva adotada: se se pensar que o blockchain tem futuro, hoje é um bom investimento porque os preços desceram muito. Se, pelo contrário, não se acredita na tecnologia, é um mau investimento. Eu pertenço à primeira categoria, daqueles que acreditam que o preço vai subir. É por isso que permaneço como investidor. Ao contrário de muita gente que teve medo e vendeu. Eu vendi para recolher as mais-valias, mas guardei um pouco”, diz. Porém, como também fez questão de frisar, só investe o dinheiro que pode perder.


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