Covid-19. Despedimentos em massa no final da crise?
Covid-19. Despedimentos em massa no final da crise?
A dificuldade em fazer projeções reside em nem sempre existirem dados fiáveis. O STATEC, por exemplo, publica regularmente documentos sobre a situação económica, os preços no consumidor e o mercado de trabalho, a curto e a médio prazo.
No contexto muito particular desta crise sanitária, a 24 de março o governo considerou que existia ainda uma grande "incerteza" quanto à evolução da situação, antecipando simultaneamente um aumento do desemprego e um [óbvio] abrandamento da economia. Em junho, o instituto de estatísticas luxemburguês poderá atualizar as suas previsões.
Na atual incerteza sobre a crise sanitária e económica, Nora Back, presidente da OGBL, e Sylvain Hoffmann, diretor da Câmara dos Assalariados (Chambre des Salariés), falaram à RTL sobre a situação que preocupa o Grão-Ducado.
Desemprego parcial, uma medida salutar
Embora seja impossível quantificar os custos suportados pelo governo, empresas e trabalhadores, ambos concordam que a duração da crise será decisiva. "É evidente que será negativo", atira Sylvain Hoffmann, referindo-se à publicação do Statec. "Mas tudo dependerá da duração do confinamento", reforça.
No entanto, recorda que o Luxemburgo "resistiu bastante bem" à crise financeira de 2008, graças, nomeadamente, ao desemprego parcial, no qual o Estado paga 80% dos salários nas empresas em causa.
Para Nora Back, "o acesso alargado pelo governo é uma importante ajuda para as empresas. Permitir-lhes sobreviver e, por conseguinte, permite aos trabalhadores continuarem a trabalhar e a ter salário. Ao mesmo tempo, obtivemos um congelamento dos despedimentos nas empresas de desemprego parcial que afeta muita gente. Esta é uma primeira vitória", congratula-se.
"Manter 100% do rendimento dos trabalhadores que auferem o salário mínimo social era importante para os que se encontram em situações mais precárias", acrescenta, e explica: "Obviamente que se vai verificar uma perda do poder de compra, mas o desemprego parcial é uma boa medida tanto para o trabalhador como para o empregador."
O Luxemburgo vai resistir melhor à crise do que outros países
A grande maioria dos especialistas em finanças concordaram que 2020 seria um ano de abrandamento económico, opinião que ganhou ainda mais força com a crise do coronavírus. No entanto, o Luxemburgo apresenta alguns trunfos importantes face à atual conjuntura: as finanças são saudáveis, a dívida externa é baixa e o país contraiu empréstimos de vários milhões de euros para apoiar e relançar a economia. "Somos um país financeiramente forte e estável e podemos pedir dinheiro emprestado. É importante que o governo esteja a fazer tudo o que pode para sair da crise", enfatiza Nora Back.
Mas será suficiente?
Por outro lado, há as empresas que já se encontravam numa situação difícil antes da crise sanitária e que continuarão nessa situação, ou ainda pior, quando a economia estiver de novo no bom caminho. E ainda aqueles que estão parados ou em câmara lenta porque não têm uma atividade "essencial" durante o confinamento.
São estas empresas que terão de estimular a economia dentro de algumas semanas. "Com o desemprego parcial, temos a solução para evitar despedimentos em massa. A recuperação virá – apesar de ainda não sabermos quando - e quando chegar a altura, teremos gente importante para por a máquina a funcionar novamente", explica Sylvain Hoffman.
Apesar do risco de desemprego, o Luxemburgo possui trunfos de peso para a dirigente sindical. "A economia luxemburguesa é muito forte na criação de emprego. Por isso, é importante permanecermos positivos. Estou convicta de que vamos ultrapassar melhor a crise do que noutros países", lembra Nora Back.
"Mas muitas questões estão ainda em aberto. Somos contactados regularmente por vários setores. Recebemos muitas perguntas sobre medidas de emprego, higiene, necessidade de ir ou não para o trabalho, sobre o absentismo e muitos outros casos específicos" adverte a presidente da OGBL. "As primeiras medidas foram boas, mas agora temos de analisar caso a caso para avaliar os vários problemas que existem. Há situações de precariedade às quais temos de dar uma resposta adequada", recorda por sua vez o diretor da Chambre des Salariés.
Austeridade, o erro a não cometer
Quando a economia recuperar, será importante não cometer determinados erros, garantem em uníssono a presidente da OGBL e o responsável máximo da Câmara dos Empregados.
"A recuperação terá de ser socialmente justa", sublinha Nora Back. "A OGBL não vai aceitar um novo plano de austeridade, como fez após a crise de 2008. Terá de respeitar o modelo social, o diálogo e o direito do trabalho luxemburgueses. É claro que hoje temos outras preocupações, mas é fundamental discutir tudo isto e planear bem os mecanismos de saída".
A opinião é partilhada por Sylvain Hoffmann, que acredita que a cura de austeridade do início de 2010 foi uma má decisão. "Depois da crise, investimos, abrimos as comportas. Foi bom, mas colocámos travões demasiado cedo. Os países tinham lançado políticas de austeridade quando precisavam de uma recuperação sustentável. Se o fizermos de novo, vamos ter uma recaída", conclui.
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