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Bombas sobre a economia. O pandemónio da guerra chegou e deu a mão à pandemia
Opinião Economia 9 min. 25.02.2022
Guerra na Urânia

Bombas sobre a economia. O pandemónio da guerra chegou e deu a mão à pandemia

Guerra na Urânia

Bombas sobre a economia. O pandemónio da guerra chegou e deu a mão à pandemia

Foto: Marijan Murat/dpa
Opinião Economia 9 min. 25.02.2022
Guerra na Urânia

Bombas sobre a economia. O pandemónio da guerra chegou e deu a mão à pandemia

Luis REIS RIBEIRO
Luis REIS RIBEIRO
O mundo depara-se agora com um novo e grave evento: uma guerra na Europa. Que lesões pode provocar na frágil e sensível economia mundial? São pelo menos cinco as grandes feridas que podem ser reabertas e matar a retoma em curso.

A economia mundial ainda está a tentar reerguer-se dos efeitos devastadores da pandemia de covid-19, que começou no início de 2020, dos efeitos dos confinamentos, das restrições às viagens e ao comércio global, do reaparecimento da inflação e da rarefação nos fornecimentos de matérias primas vitais para a produção e o modo de vida moderno, mas podia ser pior. E pode mesmo. O mundo depara-se agora com um novo e grave evento: uma guerra na Europa. Que lesões pode provocar na frágil e sensível economia mundial? 

São pelo menos cinco as grandes feridas que podem ser reabertas e matar a retoma em curso:

 1) inflação descontrolada; 

2) mais desemprego, pobreza e desigualdade; 

3) rutura em muitos fornecimentos de energia e alimentos; 

4) degradação da qualidade do crédito a empresas e Estado, logo, menos investimento; 

5) novas crises orçamentais. 

O pandemónio da guerra reapareceu - a invasão da Ucrânia pela Rússia – e colocou imediatamente em xeque muitos dos progressos entretanto alcançados nos últimos dois anos no crescimento, emprego, nas contas públicas e na dívida ou, pelo menos, na tentativa de reorganização do tecido económico e social para tentar agarrar melhor o progresso e reduzir as enormes desigualdades e bolsas de pobreza que engrossaram nos últimos anos. 

Estávamos a debelar fenómenos muito agudizados, primeiro, pela crise financeira de 2008, depois pela crise da dívida pública e a falência de Estados (2011) e, desde 2020, pela pandemia. 

Agora, é preciso pensar melhor e cerrar os olhos para ver o que significa uma guerra destas para o mundo ocidental, para os europeus, para o globo, já que a Rússia e os seus aliados também vão sofrer retaliações. 

 1) Inflação descontrolada 

 O invasor e quem espoletou a guerra foi Rússia. Problema: a Rússia é o maior fornecedor de gás natural do mundo, tem também as maiores reservas deste combustível, e isso coloca uma pressão insustentável sobre a economia mundial, em especial a europeia. Alemanha é um dos maiores clientes do gás russo e até Portugal, o país que está fisicamente mais longe da guerra, pode ser atingido com severidade, já que um quinto do gás importado num ano vem da Rússia.

O gás anda de mão dada com o petróleo, até porque corre através das mesmas cadeias logísticas internacionais de fornecimento, pelo que as sanções "muito duras", dizem os chefes máximos da nomenclatura europeia, já decretadas pela Europa (e vários países a título próprio) contra a Rússia - para punir o país pela invasão ilegal da Ucrânia - vão provocar uma disrupção (não se antecipa ainda uma interrupção, mas esta não pode ser de todo descartada) no fluxo desses combustíveis fósseis.

Energia renovável há muita na Europa, mas ainda não chega, nem de longe, para colmatar a falta de gás ou gasolinas do leste. Não há aviões, nem navios porta-contentores elétricos, como sabemos. O efeito imediato, que está plasmado nos mercados há semanas, mas agora é agudo, em forma de lâmina cortante, é uma subida em flecha nos preços das matérias primas. O petróleo já superou os 100 dólares por barril (contratos Brent). 


Barril de petróleo Brent volta aos 100 dólares
A invasão da Ucrânia pela Rússia, o segundo maior produtor de petróleo, depois da Arábia Saudita, causou aumentos acentuados no preço do petróleo bruto.

Para aviso basta sobre o que pode vir aí. 

E o que vem, quase de certeza, é mais inflação. O que, como já escrevemos aqui há semanas, é o pior imposto que existe. Atinge mais os mais fracos e pobres, reduz o poder de compra dos salários, provoca a erosão das pensões e, por arrasto, dos rendimentos das pensões futuras, porque tende a pressionar os bancos centrais a baixarem as taxas de juro. A remuneração dos fundos baseados em rendimentos fixos fica anémica. É um dos maiores problemas nas expectativas de muitos trabalhadores, como por exemplo, na Alemanha ou Holanda. 

Empobrecimento a prazo. 

Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), que há poucas semanas avançou com um plano para começar a encarecer o dinheiro (phase out de programas de compras de ativos) e acenou com uma eventual subida dos juros para arrefecer os preços pode ter de refazer tudo. 

Esta inflação vem com a guerra e a guerra traz sempre miséria. Mais inflação requer um freio sobre o aquecimento indesejado dos preços aos olhos do BCE. Por isso é que os juros podem ter de subir na mesma, ainda que noutros moldes. Lagarde fala em "momento sombrio" para a Europa e, sobretudo, para o povo da Ucrânia. 

2) Mais desemprego, mais crise, mais pobreza e desigualdade 

Os últimos censos dos observatórios das migrações, como o do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, dizem que podem estar em fuga da Ucrânia mais de 100 mil pessoas, só esta semana (a invasão aconteceu na madrugada de quinta-feira). Cem mil abandonam as suas casas e há relatos de que 50 mil podem ter já saído do país. E ainda só passaram 48h desde o assalto inicial. Se a guerra e a ocupação continuarem - e isto pode arrastar-se e a Rússia fazer como fez com outras regiões, instalando o seu poder - os ucranianos não vão querer voltar tão cedo e, assim, passam a engrossar a enorme franja de desprotegidos nos mercados europeus. 

Isso pode conduzir a situações de alto desemprego, mais pobreza, mais desigualdade, salários baixos. É o que acontece com os pobres migrantes de África e do Médio Oriente. Quem chega às portas da Europa, apesar de bem-vindo, pode ter de ficar à espera de oportunidades decentes.

O pior é que tudo isto acontece com a Europa a tentar expelir a pele velha que ficou da pandemia, tentando crescer com energias novas e alta tecnologia e competências humanas. 

Vai ser preciso bem mais do que foi prometido até agora para acolher condignamente o povo ucraniano em fuga, que se vem juntar aos outros migrantes, tantos ainda nas franjas da sociedade europeia. Há anos. 

A agência de rating DBRS, na sua atualização para o outlook económico global (feita um dia depois da invasão russa), diz que "as pressões inflacionistas emergentes e o ritmo de aperto nos juros por parte dos bancos centrais podem pesar no crescimento real e criar desafios adicionais para as famílias, as empresas e os governos altamente endividados". 

A agência Standard & Poor's (S&P) acrescenta que está em cima da mesa “a possibilidade de uma crise migrante na Europa de Leste, à medida que os ucranianos tentam sair do teatro de guerra”.

3) Rutura em muitos fornecimentos de energia e alimentos 

É o problema do gás russo, dos cereais e das sementes alimentares da Ucrânia. E o efeito dominó das sanções, que resvalam sempre para mais impedimentos no circuito mundial das mercadorias. Barcos que faltam, fretes que não são feitos, componentes industriais e tecnológicos que não chegam. As sanções travam a lógica atual do mundo global e interconectado. Recentemente, o presidente do influente instituto alemão Ifo, Clemens Fuest, fez um resumo interessante sobre o cenário de guerra na Ucrânia. 


Que consequências tem a guerra para o abastecimento de energia do Luxemburgo?
Mesmo antes da invasão russa, os preços do gás eram extremamente elevados. O ministro da energia não vê a segurança do abastecimento em risco.

"Mesmo que o fornecimento de gás não seja restringido, ainda haverá um choque de preços, pelo menos temporariamente. Isto afeta os agregados familiares e a indústria na Alemanha em igual medida". 

Como a Alemanha é a maior economia da União Europeia, os efeitos negativos são imediatos em todos os restantes parceiros da UE. Que o diga Portugal que exportam muito para lá e depende de tantos investimentos alemães para crescer. 

A UE "pode procurar obter o seu gás noutros locais", diz Fuest, mas sem descartar o pior: "existe o risco de estrangulamentos de abastecimento de energia a curto prazo". 

"A invasão russa da Ucrânia pode conduzir a custos de gás e petróleo ainda mais elevados, com um efeito subsequente em muitos outros preços ao consumidor", reforça outro economista do Ifo. Já se fala numa inflação na casa dos 5% em 2022 em vez dos 3% esperados atualmente. 

A S&P também já olha para um quadro de "interrupções no fornecimento de energia ou choques de preços, particularmente na Europa". 

4) Degradação do crédito a empresas e Estado 

Outra variável sob pressão, que pode servir de propagador da recessão no tempo e de problemas graves na criação de empregos, é claro o investimento que fica em estado de suspensão. A maioria dos empresários gosta pouco de estados de sítio e de guerras. Ato contínuo, também o crédito fica mais difícil e o endividamento mais complicado de pagar (aos credores). Quanto mais endividados forem os agentes em causa, pior, claro. 

A S&P considera que esta invasão implica uma “reavaliação do risco que aumenta os custos dos empréstimos ou limita o acesso ao financiamento” para quem mais depende do crédito, sobretudo os mais “fracos” e mais “endividados. Sejam, empresas, soberanos ou famílias. 

“Além do custo humano do conflito, que perturba os mercados financeiros e tem feito subir os preços do petróleo”, “pode haver efeitos profundos e prolongados nas perspetivas macroeconómicas e condições de crédito em todo o mundo”, acrescenta a empresa. 

Para além dos impactos já referidos acima, há também dúvidas sobre “a capacidade da Europa em diversificar rapidamente a dependência do gás russo”, isto é, uma lentidão perigosa nestes enormes investimentos. 

Teme-se ainda “um arrastamento” das economias, “particularmente dos mercados emergentes”, “uma cascata de ciberataques e contra-ataques entre a Rússia e os seus inimigos.” 

 5) Novas crises orçamentais 

 Tudo somado, podemos ter pela frente uma nova era de crises orçamentais, até porque, como já se viu nas últimas décadas, têm sido os Estados a arcar com o fardo das crises e a amparar os privados. Os efeitos das operações não devem ter implicações imediatas nas classificações (notas, ratings) soberanas dos avaliadores da qualidade do crédito público e da capacidade de pagar a dívida, mas mais à frente podemos esperar “certamente consequências para as economias, o que, em última análise, pode contribuir para uma pressão negativa sobre algumas classificações soberanas”, diz a DBRS. Como referido anteriormente, a S&P faz um aviso parecido.

*Jornalista do Dinheiro Vivo

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