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Bancos podem vir a despedir mais pessoas no Luxemburgo
Economia 8 min. 30.10.2019

Bancos podem vir a despedir mais pessoas no Luxemburgo

Bancos podem vir a despedir mais pessoas no Luxemburgo

Foto: Guy Wolff
Economia 8 min. 30.10.2019

Bancos podem vir a despedir mais pessoas no Luxemburgo

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
Bancos têm anunciado vários cortes de pessoal a nível internacional. No Luxemburgo, o caso mais recente foi o do Royal Bank of Canada: em causa estão mais de 300 empregos.

Os sindicatos estão preocupados com o possível impacto que a tendência de despedimentos no setor da banca a nível mundial pode ter no Luxemburgo. As mais recentes vítimas serão os trabalhadores do Royal Bank of Canada (RBC). Na semana passada, a instituição financeira que opera em Belval anunciou que se prepara para despedir mais de 300 trabalhadores.

O argumento dos bancos tem sido o de que a conjuntura não é favorável e cortar custos têm sido as palavras de ordem. É o caso do Deutsche Bank, Barclays, Société Générale, Citigroup e HSBC que já comunicaram supressões de empregos este ano. As instituições financeiras alertam para os perigos da política de juros baixos implementada pelo Banco Central Europeu (BCE), que lhes dá menos rendimentos. Alguns começam a repercutir os juros negativos nos clientes institucionais e privados com rendimentos mais elevados. Outros dos argumentos é a incerteza política e económica trazida pelo Brexit – sobretudo em caso de uma saída sem acordo – e pela guerra comercial e o impacto da digitalização da economia.

No início deste mês, o HSBC anunciou um plano de controlo de custos que pode pôr em perigo 10.000 postos de trabalho. Em agosto, o alemão Deutsche Bank informou que pode eliminar 18.000 postos no âmbito de uma reestruturação radical. Também em agosto, o Barclays anunciou o corte de três mil postos de trabalho. No final de julho, a Reuters avançava que o Citigroup se prepara para cortar centenas de empregos.

No Luxemburgo, em 2018 a portuguesa Caixa Geral de Depósitos (CGD) encerrou os dois balcões que tinha no Luxemburgo, no âmbito de um plano de reestruturação, que afetou também outros países. Além da CGD, bancos como o Nordea, o HSBC, o Credem International, entre outros, encerraram portas no Grão-Ducado.

Ora, o efeito de contágio destes planos ao Luxemburgo preocupa sindicatos e não só. O responsável da central sindical LCGB para o setor financeiro, Patrick Michelet, disse não ter informações concretas sobre planos de outros bancos para fazerem despedimentos coletivos, mas admite estar “fortemente preocupado” com “o mercado de trabalho na praça financeira luxemburguesa em 2020”. Para Michelet, a questão ganha contornos mais urgentes quando se fala de bancos com dimensão mundial, em que as decisões não são tomadas no Grão-Ducado. “São sociedades internacionais, o poder de decisão não está no Luxemburgo”, explicou. O responsável mantém-se atento. “Quando se começam a ver despedimentos individuais, é um sinal de que pode vir um plano social”, diz.

No mesmo sentido, a Associação Luxemburguesa de Empregados da Banca e Seguros (Aleba, na sigla em francês) diz-se preocupada: “no ano que vem, pode haver mais despedimentos”. E novamente o centro dos receios não está tanto nos bancos nacionais, mas naqueles que têm uma dimensão internacional. Não são só os sindicatos que estão apreensivos. É também a Associação de Bancos e Banqueiros, Luxemburgo (ABBL), que apesar de não comentar a situação específica do RBC, diz-se preocupada com a situação da banca.

Os bancos no Luxemburgo

O ano de 2018 foi positivo, pode ler-se no relatório de atividades da Comissão de Supervisão do Setor Financeiro (CSSF) relativo a esse ano. A entidade de supervisão adverte que há outro fator a que a banca no Luxemburgo deve estar atenta, que tem a ver com o mercado imobiliário. O crédito malparado mantém-se abaixo dos 1% no Grão-Ducado, no entanto, é preciso que se mantenha a vigilância sobretudo no crédito imobiliário concedido a privados, uma vez que o Luxemburgo vive um aumento muito rápido dos preços das casas e as taxas de juro mantêm-se em níveis historicamente muito baixos.

Relativamente a este ano (com dados parciais), o instituto de estatística luxemburguês (Statec) traçou o panorama do setor na sua última nota de conjuntura. No primeiro semestre de 2019, apesar do desaparecimento de oito estabelecimentos de crédito entre agosto de 2018 de agosto de 2019, os ativos continuaram a crescer (7,7%), para cerca de 830 mil milhões de euros. Num ano, dez bancos – de origem francesa, alemã, italiana, britânica, sueca, brasileira, holandesa e letã – fecharam portas. Além disso, a filial britânica da Northern Trust Global Services foi substituída por uma nova filial luxemburguesa. Por outro lado, o HSBC France e o RBS International instalaram-se no país durante o primeiro trimestre.

Mas há sinais paradoxais entre bancos. As principais receitas dos bancos evoluíram a meio-gás, com os custos a continuarem a subir. Apesar disso, metade dos bancos conseguiu aumentar a margem graças à subida dos empréstimos e às atividades fora da zona euro, que permitem ter taxas de juro mais elevadas. E apenas um terço dos bancos conseguiu ver as comissões subirem, sobretudo os que aumentaram a sua atividade por causa do Brexit.

Entre os 130 bancos atualmente ativos, a maioria tem origem alemã (24), francesa (15) e chinesa (14). De acordo com o relatório anual da CSSF, o número de estabelecimentos tem descido, mas os lucros têm aumentado. Em 1994, havia 222 bancos, com lucros de 1,5 mil milhões de euros. Em 2017, existiam 140 instituições, mas com resultados líquidos de 3,8 mil milhões de euros (ainda assim, uma quebra de quase mil milhões de euros face a 2016). No total – incluindo os bancos e outras instituições financeiras – o setor emprega quase 50 mil trabalhadores, sendo que mais de 26.600 estão na banca.

RBC prepara corte de mais de 300 postos de trabalho

Depois de divulgado o despedimento coletivo no Royal Bank of Canada – noticiado pelo Luxemburg Times – a próxima fase é de negociações entre sindicatos e a instituição financeira. O objetivo dos sindicatos é perceber o alcance do plano – quantos e quem sairá e quais as indemnizações propostas – e reduzir o seu impacto.

Segundo os sindicatos confirmaram ao Contacto, em causa estão 226 empregados e 79 contratados externos. A subsidiária do RBC com atividade em Belval conta, no total, com 1.170 empregados permanentes e 320 contratados externos distribuídos por vários serviços, por exemplo, a administração e gestão de títulos, serviços administrativos e de informática. A notícia surge pouco depois de o banco ter reportado receitas e vendas anuais recorde e seis anos depois do último corte de pessoal. Em 2013, o banco eliminou 210 empregos no Grão-Ducado.

A intenção do banco já é então conhecida, mas não há ainda um plano social definido e não se sabe quem são os trabalhadores afetados. Citada pelo Luxembourg Times, a porta-voz da instituição financeira disse que, sempre que possível, o corte de postos de trabalho será feito através de forma voluntária. Certo é que terá de ser negociado um plano social, uma vez que a lei luxemburguesa estabelece que, se houver mais de sete despedimentos num mês ou 15 em três meses, tem de ser desencadeado um plano social.

Os sindicatos estão a acompanhar a situação. A central sindical LCGB, ’maioritária’ no banco, afirma que só haverá um plano social a partir do fim da próxima semana. O responsável do sindicato para o setor financeiro, Patrick Michelet, explica que se tratou “de uma decisão mundial, justificada com a necessidade de cortar custos, e cortar custos é cortar pessoal”. O responsável nota que “o Luxemburgo foi particularmente afetado, apesar de os resultados do país não serem muito negativos”. “A digitalização pode ter o seu impacto, mas aqui o ’outsourcing’ e a deslocalização da atividade também parecem ter uma palavra a dizer”, afirmou ainda.

Durante as negociações, o sindicato vai tentar perceber melhor a estrutura de custos do banco: em particular, os custos que envolvem um trabalhador com contrato por tempo indeterminado (CDI) e os externos, que implicam custos mais elevados. “Este tipo de instituição recorre cada vez mais à contratação externa. Ora, estes custam mais caro do que trabalhador com um CDI”, alerta. “É preciso encontrar uma solução e diminuir o mais possível o número de trabalhadores afetados. As coisas podem mudar durante o caminho [as negociações]”, adianta Michelet.

Ouvida pelo Contacto, a central sindical OGBL afirmou que vai reunir com os delegados de pessoal durante esta semana “para garantir os direitos dos assalariados”. Por sua vez, a Associação Luxemburguesa de Empregados da Banca e Seguros (Aleba, na sigla em francês) também reunirá com os seus delegados durante a esta semana. O objetivo é perceber se há trabalhadores que querem sair de forma voluntária, por exemplo, através do recurso à pré-reforma e negociar as restantes saídas. Os encontros com a direção do banco e com os delegados de pessoal deverão começar na semana seguinte a partir de 4 de novembro. “É incompreensível, porque os resultados são bons, batem recordes. Eles querem sempre mais e mais lucros e é sempre à custa dos assalariados”, acusa a Aleba.

O Contacto questionou ainda o Ministério do Trabalho e a CSSF, mas até ao fecho da edição não obteve respostas.


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