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Avenida da Liberdade: Europa e esperança

Avenida da Liberdade: Europa e esperança

Foto: AP
Editorial Economia 3 min. 06.09.2018

Avenida da Liberdade: Europa e esperança

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
Os portugueses, tal como todos os cidadãos do mundo, precisam de esperança. Mas ela escasseia, por culpa exclusiva da política que se revela incapaz de resolver os problemas das sociedades.

Vários politólogos ao serviço do sistema político têm uma solução para o problema. Consiste em baixar as expectativas dos cidadãos para que eles não sejam tão exigentes. Por exemplo, é necessários traçar-lhes um quadro negro sem culpados próximos. Depois, se porventura acontecer alguma coisa de bom ou menos mau, as sociedades já ficam satisfeitas e atribuem esse sucesso aos políticos que lhe são próximos. Nada pode ser mais hipócrita.

Para os europeus, essa falta de esperança tem duas origens: começa no país de cada um e vai acabar nas instituições europeias.

Numa recente entrevista, o primeiro vice-presidente da Comissão Europeia reconheceu alguns erros de Bruxelas.

O holandês Frans Timmermans disse que a Europa precisa de vencer a desconfiança dos cidadãos. Há muito que outros responsáveis de Bruxelas dizem o mesmo ou coisa parecida. Mas a verdade é que, até hoje, nada se fez para corrigir este erro. Fala-se mesmo na necessidade de aproximar os cidadãos das instituições, ma a distância é cada vez maior.

A razão para este distanciamento vê-se, diariamente, nos noticiários. Os interlocutores privilegiados da Comissão Europeia são as elites, sobretudo as financeiras e, com elas, os grandes lobbies instalados em Bruxelas. Pelo contrário, os cidadãos e as forças sociais que os representam nunca são ouvidos e também nunca recebem qualquer mensagem explícita do poder europeu. Levantam questões, fazem os seus protestos, uns mais pertinentes que outros, mas nunca ouvem uma resposta, nunca são convidados para negociar. Isto é, são constantemente esquecidos.

O que resulta desta falta de equidade no diálogo? Timmermans tem a resposta quando reconhece que “há crescimento económico, mas ele não se reflete em aumentos dos salários médios, as pessoas perguntam-se porque não beneficiam dele”. O vice-presidente da Comissão Europeia auto-limita-se e parece não reconhecer as evidências. Para o poder político europeu – seja estadual, seja comunitário – mais importante do que a melhoria económica das famílias é o crescimento do lucro das grandes empresas e respetivos acionistas.

Isto é um forte fator de desequilíbrio que faz aumentar o fosso entre os ricos e os outros. Nunca se questionam os dinheiros públicos aplicados na salvação de bancos falidos, porque eles são o sistema. Como também nunca se puniram os responsáveis pela hecatombe de 2008. Pelo contrário, regulamenta-se à exaustão a vida dos cidadãos e demonizam-se os seus direitos, responsáveis por tudo o que acontece de menos bom ou mesmo de mau. Por exemplo, as melhorias salariais, no entender errado do poder político, são a grande causa da inflação. Mas a prova de que a análise está errada foi dada pelo próprio poder. Quando há anos a Europa passou pelo “perigo” da deflação, ninguém se lembrou de aumentar genericamente os salários para estimular os preços.

O lucro é indispensável para aumentar o investimento. Mas é preciso regulamentá-lo. E isso não está a acontecer. Pelo contrário, há mais-valias geradas pela produção de riqueza que depois saltam para o investimento especulativo, porque a respetiva remuneração é mais rápida. Com isso, perdem-se postos de trabalho e limita-se ou congela-se mesmo o rendimento das famílias. Isto é péssimo para a economia, porque reduz a procura.

Apesar de todos estes erros, não creio que a União Europeia corra o risco de implosão. Pelo contrário. Será sempre num quadro de esforço comunitário que tudo se resolverá, fortalecendo a Europa, de modo a prepará-la para resistir às ameaças provenientes da insana e imprevisível política de Donald Trump. Mas há outros perigos externos que a Europa terá de enfrentar. E nenhuma potência europeia, isoladamente, o conseguirá com sucesso. A Alemanha sabe disto, o Reino Unido ainda está a aprender.


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