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Apenas um em cada cinco restaurantes deverá estar “bem” em 2021
Economia 4 min. 01.01.2021

Apenas um em cada cinco restaurantes deverá estar “bem” em 2021

Apenas um em cada cinco restaurantes deverá estar “bem” em 2021

Foto: Rui Oliveira
Economia 4 min. 01.01.2021

Apenas um em cada cinco restaurantes deverá estar “bem” em 2021

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Remy Manso conta como teve duas vezes covid-19 e prevê que cerca de 25% dos restaurantes vão à falência neste confinamento.

Um cardápio de futuro pouco animador. Quase 25% dos restaurantes deve falir neste período de confinamento. Um dos maiores empresários portugueses da restauração no Luxemburgo, Remy Manso, estima que apenas “20% do mercado consiga passar estes dois anos, 2020 e 2021, sem turbulências, porque já estavam muito bem antes da pandemia.” O reverso da medalha é pouco animador. “Pelo menos um quarto dos restaurantes não devem aguentar”, prevê o empresário que construiu um império de dez restaurantes. “Porque há muita gente que já estava mal antes de tudo isto começar”, alerta . E 2020 “tem sido um ano de merda”, desabafa.

Quanto ao restante 50% do mercado “vai ter que batalhar muito para conseguir sobreviver”, remata Remy Manso.

“Quando isto tudo começou achei logo que 2021 ia ser para tentar recuperar de 2020. Estou a começar a perceber que não vai chegar, e que vai ser preciso 2022 para o fazer”, alerta. Remy Manso promete não baixar os braços. “Estamos na guerra e não podemos abandonar o barco”.

No início do primeiro período de confinamento, em março, prometeu que ia abrir um restaurante por cada mês de lock down. Mas o confinamento prolongou-se. Mesmo assim “estamos a fazer dois novos restaurantes e estamos a modificar e renovar algumas coisas nos já existentes”.

No horizonte não está a hipótese de fechar nenhum dos seus estabelecimentos. “Temos uma vantagem em relação a muita gente que é não termos dividas, tudo o que temos está pago”, sublinha.

Uma fatura elevada que chega a 1,5 milhões de prejuízo

Mas a fatura a pagar por este confinamento já é muito elevada. Apesar de estarem fechados “temos que pagar as despesas fixas: as rendas, as assinaturas de telefone, sites na internet, água e luz”. Ao todo são 25 mil euros de despesas fixas por restaurante. Um valor que a multiplicar por dez estabelecimentos totaliza 250 mil euros, por mês. Feitas as contas, com mais estes dois meses de confinamento deverão ter “cerca de 1,5 milhões de prejuízo” até ao final de janeiro.

E são poucas as receitas a entrar na caixa registadora

Ainda antes da pandemia decidiu contratar mais dez pessoas para o restaurante Piri Piri em Kirchberg. A consultora KPMG ia mudar-se para o edifício e deveria trazer 500 novos empregados. Mas com o teletrabalho “muitos nem sequer vão voltar ao escritório”, diz Remy Manso. “Kirchberg à hora do almoço vai levar uma pancada que não sei como vai ser”, alerta preocupado. O bairro “vivia das grandes empresas e consultoras que, agora, têm quase toda a gente em teletrabalho. Ao meio dia passámos a servir trinta refeições, quando antes servíamos 150.”

E o take away não é a solução. “Agora fazemos entregas e take away, mas faturamos cerca de 3% da faturação normal e isso não dá”, revela o empresário. Com o trabalho à distância “há muita gente que vai ganhar novos hábitos”, acrescenta. Mas o futuro dos restaurantes não pode passar pelos serviços de entregas. “Como é que eu posso colocar um restaurante como o El Barrio em take away se pago 20 mil euros de renda?”, questiona. Assim é impossível sobreviver.

Receitas para acabar com a crise

Quando lhe perguntamos possíveis medidas para atenuar o abalo que está a afetar a restauração, responde sem hesitação. “Acho que mais valia levarem as coisas a sério e tomar medidas mais drásticas, em vez que andar aqui a brincar connosco. Se tivessem fechado todo o mês de dezembro em lock down poderia ter havido resultados, em vez de estar dois meses em semi-lock down”, avança.

Teve apoio de alguns proprietários que lhe pouparam um mês de renda. Mas um almoço nunca é de graça. “O proprietário dá-te uma renda de borla, porque lhe renovas o contrato por mais seis anos”, explica.

Quanto aos apoios do Estado, tem cerca de 75% dos seus trabalhadores em desemprego parcial. “Mas quanto aos restantes apoios” ainda não viu nada e “há sempre uma desculpa para não os dar.”

“O Estado continua a dizer que dá ajudas de quinhentos euros mas para as conseguir quase que se tem que atirar de um sétimo andar e saber voar”, tais são as exigências apresentadas pelos organismos.

“Para não despedir ninguém montámos também o nosso serviço de entregas próprio em que tenho cinco a seis carros sempre a rolar, que garantiu cerca de dez postos de trabalho, para além disso tenho dois a três trabalhadores na cozinha e dois na sala.”

O empresário já teve duas vezes covid-19

Mas a pandemia também também já lhe bateu à porta de outra forma. “Já estive infetado duas vezes, uma em fevereiro e outra agora, mas nem a minha mulher, nem os meus filhos apanharam. Estive em isolamento 12 dias da segunda vez. Da primeira vez não estive em isolamento porque ainda não se sabia de nada. Só me apercebi porque tive a perda do gosto.Tinha vindo de Portugal e estava eu e dois a três amigos meus da mesma maneira. Diziam: “Estou a comer mas isto não me sabe a nada! Fui fazer o teste de sangue e verifiquei que tinha imunidade positiva e, mesmo assim passado aqui uns meses apanhei outra vez”. Já nos seus restaurantes teve cerca de 30 infetados, num total de 250 trabalhadores.

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