Escolha as suas informações

A grande mentira da comida barata
Opinião Economia 4 min. 17.05.2022
Capitalismo

A grande mentira da comida barata

Capitalismo

A grande mentira da comida barata

Foto: Spencer Platt/Getty Images/AFP
Opinião Economia 4 min. 17.05.2022
Capitalismo

A grande mentira da comida barata

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Quando a guerra terminar e as outras crises se forem resolvendo, os preços nunca mais voltarão a baixar.

"A era dourada da comida barata está quase a terminar", disse o dono do supermercado. Desculpe, importa-se de repetir? Quando e onde, exactamente, é que acontece essa mítica "era dourada" da comida barata? Como pode algo que não existe estar "quase a terminar"? 99% da população tem de gastar uma enorme parte do seu suado rendimento em alimentação, e para muitos – Europa incluída – isso nem sequer chega para evitar a fome ou a subnutrição. Qual é o propósito desta ameaça, sobretudo nos tempos que correm, em que já temos o suficiente com que nos preocupar?

Os lucros das grandes empresas estão neste momento no nível mais alto dos últimos 70 anos. Enquanto, do lado do trabalho, os modestos aumentos salariais se evaporam perante a inflação (...) Isto tem um nome: aproveitamento de guerra.

O contexto é conhecido: a inflação disparou para níveis esquecidos há quarenta anos. Dados de hoje apontam para uma subida de preços generalizada de 6% na zona euro, 6,8% no resto da Europa, 8,3% nos EUA, 9% no Reino Unido. Em artigos alimentares, a subida é muitas vezes ainda mais brutal – leite, azeite e massas são exemplos assustadores em que o aumento pode já ter chegado aos 30%.

Como infelizmente todos sabemos (sentimos) isto, estamos no ponto para levar com a narrativa: os grandes produtores e supermercados, pobrezitos, estão a sofrer com o aumento dos seus custos. A lista de lamúrias inclui a "disrupção" causada pela pandemia. O mercado de trabalho "apertado", é difícil encontrar empregados. E a guerra na Ucrânia e a seca na Índia que nos privam de cereais. E o preço do petróleo que não pára de subir... preparem-se, "que a vossa comida barata acabou para sempre".

O autor da frase foi o anterior patrão da cadeia britânica de supermercados Sainsbury’s, o comendador Justin King. Para ficar esclarecido quanto ao personagem, a sua primeira decisão executiva ao ocupar aquele cargo foi mandar acabar com o tradicional bónus de Natal pago a cada empregado (cerca de 100 euros), isto na mesma semana em que recebeu da empresa, como bónus, acções no valor de 550.000 euros.

A ameaça sobre a comida que estava "barata" é transparente: podem ter a certeza que, quando a guerra terminar e as outras crises também se forem resolvendo, os preços nunca mais voltarão a baixar. O sistema económico em que vivemos – capitalismo de saque – só funciona num sentido, o da transferência de riqueza das maiorias empobrecidas para as pequeníssimas minorias que viciam as regras a seu favor. É como num casino: no final, a casa ganha sempre.

No mês passado, os maiores supermercados britânicos anunciaram que os seus lucros antes de imposto duplicaram este ano. O grupo Carrefour bateu o seu recorde histórico de cash flow, e os resultados continuam de vento em popa, mesmo que não tanto como na Galp: ali a subida dos lucros foi de 500% no primeiro trimestre de 2022. BP, Shell, e todas as petrolíferas estão a bater recordes de rendimento. O mesmo para o retalho, a indústria automóvel, os bancos, etc.

Os lucros das grandes empresas estão neste momento no nível mais alto dos últimos 70 anos. Enquanto, do lado do trabalho, os modestos aumentos salariais se evaporam perante a inflação, as multinacionais passam todo o aumento de custos para os consumidores e ainda lhes acrescentam algo, aumentando as suas margens. Isto tem um nome: aproveitamento de guerra. Mas não tem uma salvaguarda, muito menos uma punição. Não é só a riqueza que se concentra num número cada vez mais reduzido de homens, também o mercado está concentrado em cada vez menos concorrentes. Menos, mas todo-poderosos – o que basicamente significa muitos lucros e zero impostos.

O sistema já nos avisou: vamos todos pagar muito mais pela comida. Para as centenas de milhões de pobres no planeta, isto pode literalmente significar a diferença entre a vida e a morte. Mas para os aproveitadores de guerra, tal não passará de um desafortunado dano colateral.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.