Escolha as suas informações

A banca e os banqueiros
Editorial Economia 3 min. 27.06.2019

A banca e os banqueiros

O empresário Joe Berardo (direita), ladeado pelo seu advogado André Luís Gomes.

A banca e os banqueiros

O empresário Joe Berardo (direita), ladeado pelo seu advogado André Luís Gomes.
Foto: Lusa
Editorial Economia 3 min. 27.06.2019

A banca e os banqueiros

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
"Veja-se o caso das PPPs, cujos lucros são sempre privados e os prejuízos são sempre públicos".

O que pensam os portugueses da banca e dos banqueiros, 11 anos depois de iniciada a crise financeira global? Pensam mal, com certeza, e estão a perder a confiança no sistema.

Esta semana, soube-se aquilo de que já se desconfiava: As dívidas monstruosas de Joe Berardo à banca começaram a ser pagas com dinheiro do Orçamento de Estado, que o mesmo é dizer, começaram a ser pagas com o dinheiro dos contribuintes.

A operação explica-se em poucas palavras. O Novo Banco, que continua em dificuldades de capital, pediu 1149 milhões de euros ao Fundo de Resolução, para cobrir as perdas de 2018. Como aquela entidade já não dispõe de tanto dinheiro, teve de socorrer-se do Estado que, para cobrir aquele montante, entrou com 850 milhões saídos do Orçamento. Portanto, isto é dinheiro que saiu do bolso dos contribuintes. Pior ainda, estas dotações de capital entram na contabilidade pública, o que se reflecte num agravamento do défice.

Joe Berardo contribuiu grandemente para estas aflições do Novo Banco, com uma dívida de 327,7 milhões de euros que não é capaz de saldar e que não tem garantias. Apesar disso, o banco ainda alimenta esperanças, juntamente com a Caixa Geral de Depósitos e o Banco Comercial Português de executar a colecção de arte de Berardo e assim reduzir os estragos. Está por saber quanto vale hoje essa colecção, cuja manutenção, no Centro Cultural de Belém custa ao Estado cerca de 50 milhões de euros por ano. Como se vê, é sempre o Estado a pagar.

O mais estranho de tudo isto é que parece não haver responsáveis pelos empréstimos desta ordem de grandeza, concedidos sem garantias a um homem que fez uso dos mais diversos expedientes, para escapar ao pagamento das dívidas. Diz agora que só tem uma garagem em seu nome.

E os banqueiros ouvidos na Comissão Parlamentar de Inquérito da Caixa Geral de Depósitos, acham tudo normal, passam responsabilidades e dizem que créditos deste tipo eram frequentes, o que pode significar que ainda não conhecemos a verdade em toda a sua extensão. Muitos deles não se lembram dos factos e, comodamente, deixam as perguntas dos deputados sem resposta. Mesmo assim, ufanam com a sua

competência, considerando-se insubstituíveis e merecedores dos porno-gráficos bónus que atribuem a si próprios.

Quando os bancos se afogam em prejuízos, recorrem aos dinheiros do Estado para evitar o colapso. E assim, continuam a enaltecer as virtudes do sector privado, sem perder de vista a segurança que os dinheiros públicos lhes transmitem. É um vício que se está a instalar na economia portuguesa. Veja-se o caso das PPPs, cujos lucros são sempre privados e os prejuízos são sempre públicos. É com base nesta lógica que se constrói a competência dos gestores.

Entretanto, Berardo mantém uma vida faustosa, em que não faltam herdades, um duplex no centro de Lisboa, carros de luxo e tudo o mais que se pode imaginar. Ri-se de nós todos, na nossa própria cara e garante até que não tem dívidas.

Mas tem uma fundação, com um buraco financeiro estimado em quatro mil milhões de euros que pode também vir a drenar para o Estado. Se assim for, serão os contribuintes a pagar mais uma vez.

Tudo isto causa indignação e a total perda de confiança no sistema. Enquanto gente como Joe Berardo é tratada desta forma generosa e suave pelos bancos, os pequenos e médios empresários, as famílias de classe média são atacadas com uma brutalidade sem limites, quando se atrasam nas suas obrigações. Sucedem-se as penhoras, levando empresas à falência, com a consequente perda de empregos, ou gente que perde as suas próprias casas, perante a inclemência da banca.

Há dias, uma news magazine publicou uma reportagem sobre as festas mais extravagantes que vão acontecendo em Portugal. Eram relatados cinco casos e, destes, três diziam respeito a empresários falidos que vivem com dinheiro emprestado pela banca. São usos e costumes que vêm do consulado de Salazar, mas a democracia já devia ter tido tempo suficiente para pôr ordem na casa.


Notícias relacionadas

A garagem de Berardo
Não admira que os eleitores se deixem levar pelos cantos de sereia do neofascismo populista.