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242 euros por um oligarca
Opinião Economia 4 min. 24.03.2022 Do nosso arquivo online
Sanções à Rússia

242 euros por um oligarca

O iate de luxo pertencente ao oligarca russo Roman Abramovich, navega perto da estância costeira do Egeu, na Turquia. Roman Abramovich foi um dos oligarcas visados pelas sanções do governo britânico e pela UE na sequência da invasão russa da Ucrânia.
Sanções à Rússia

242 euros por um oligarca

O iate de luxo pertencente ao oligarca russo Roman Abramovich, navega perto da estância costeira do Egeu, na Turquia. Roman Abramovich foi um dos oligarcas visados pelas sanções do governo britânico e pela UE na sequência da invasão russa da Ucrânia.
Foto: Ihlas News Agency/AFP
Opinião Economia 4 min. 24.03.2022 Do nosso arquivo online
Sanções à Rússia

242 euros por um oligarca

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
As sanções à Rússia através do arresto de bens dos seus oligarcas são areia para os olhos na dinâmica do capitalismo global.

Das mais de 700 entidades russas sancionados pela União Europeia, Portugal conseguiu bloquear uma conta. Nela havia 242 euros, apesar de o Ministério Público ter detectado pelo menos 30 milhões de euros em contas portuguesas suspeitas de pertencerem a oligarcas russos.

Faço um google para perceber o valor exacto (sabia serem cerca de 240 euros) e surge uma notícia de Novembro colada a esta do oligarca, com o mesmo número: 242 milhões foi o lucro do BPI em 2021, o triplo de 2020.

O que é que o lucro de 242 milhões do BPI (ou de qualquer outro banco em tempo de crise e de pandemia, 2020-2021) tem a ver com os 242 euros do oligarca? E como é possível um oligarca ter apenas 242 euros? Uma espécie de pensão? O dinheiro contado para a hipoteca?

Se calhar levantou o dinheiro e deixou 242 euros para pagar a manutenção da conta, aqueles 5 euros que pingam todos os meses para o banco. Sendo oligarca deve ter uma "conta valor", não paga por cartões de crédito e tem direito a não sei quantas transferências SEPA por mês. Em algumas tranches pode ter transferido o dinheiro todo? "Peaners", como dizia Jorge Jesus.

O Guardian trazia o resultado de uma investigação em colaboração com a Russian Asset Tracker (detector de activos russos) em que se revelavam 17 mil milhões de dólares com ligação a Putin, sobretudo no Reino Unido: nem vamos mencionar o dinheiro "investido" nos Conservadores britânicos e as ligações perigosas entre a política inglesa e o dinheiro oligarca. Lembremos apenas que o maior offshore do mundo continua a ser Londres, que só é diferente do Panamá porque ali a chuva é fria e porque o Banco de Inglaterra define a cotação do ouro.

Fiquemo-nos pelas offshores, pelos 250 milhões em imobiliário de Roman Abramovich e em activos "obsoletos" como iates, aviões, e outros bens de luxo que podemos sempre arrestar, ocupar, pichar com um protesto simbólico e um hashtag #occupyactivosrussos que fica bem para a foto. Abramovich atracou esta semana o seu iate na Turquia, retirando-o de portos da UE. Como a Turquia não subscreveu as sanções, andamos às voltas de barco.

Estou a ouvir o leitor/leitora indignado/a: o que podíamos fazer? A Rússia invadiu a Ucrânia: é preciso fazer "alguma coisa". Não é bem uma questão de "querer" mas de "poder".

As sanções aos oligarcas russos revelam a hipocrisia do sistema financeiro e capitalista global. São areia para os olhos para quem precisa de uma "justiça moral" que mantenha como sempre o status quo do dinheiro e do poder.

A dificuldade não está em arrestar aviões, carros, iates, mansões e outros bens como jóias ou arte. "Imobiliários e legisladores estão cépticos sobre o sucesso que [Biden] terá em obter acesso ao dinheiro que os russos vêm investindo no sector imobiliário há décadas. De Sunny Isles, na Flórida, a Cleveland e arranha-céus em Manhattan, o dinheiro dos oligarcas pós-soviéticos foi derramado nas grandes cidades e no coração [dos EUA] nas últimas décadas com pouca resistência." (da NBC)


Roman Abramovich, oligarca russo.
Zelensky terá pedido aos EUA para não aplicarem sanções a Abramovich
A informação é avançada pelo Wall Street Journal, que garante que o oligarca russo está a servir de ponte nas negociações entre Rússia e Ucrânia.

O sector imobiliário tem sido o grande destino mundial de lavagem de dinheiro. Um relatório da Global Financial Integrity revelava que mais de 2,3 mil milhões de dólares foram "investidos" através de lavagem de dinheiro no imobiliário nos EUA. Podemos apreender um iate ou um avião, mas quando o dinheiro já está infiltrado sem rasto em empresas, imobiliárias, investimentos, vamos confiscar o quê?

Sempre que vejo um grande capitalista virar-se contra outro presumo que se está a reordenar o xadrez do poder. Realmente, desde os Panama Papers que não se via tamanha teia ardilosa de dinheiro sujo. Ou desde os Pandora Papers? Ou qualquer outro "detector de activos" sobre o offshore.

Deve ser por isso que continuamos a comprar petróleo às "democracias" do Golfo, como a Arábia Saudita ou o Qatar. Ou que Abramovich vai vender o Chelsea aos americanos do Chicago Cubs acusados de islamofobia; ou uma empresa de investimento que negou ter ligações ao Médio Oriente; ou ao dono do New York Jets ou a um grupo de media saudita que "diz que não" tem nada a ver com o seu governo.

As sanções aos oligarcas russos revelam a hipocrisia do sistema financeiro e capitalista global. São areia para os olhos para quem precisa de uma "justiça moral" que mantenha como sempre o status quo do dinheiro e do poder. Isto é: quase todos podemos ter 242 euros na conta, mas só alguns, como nós, é que pagam efectivamente a sua manutenção mensal.

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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