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Yazalde, a Bola de Ouro do Sporting
Desporto 5 min. 23.01.2020 Do nosso arquivo online

Yazalde, a Bola de Ouro do Sporting

Yazalde, a Bola de Ouro do Sporting

Foto: Woodbeatcool/CC BY-SA 4.0
Desporto 5 min. 23.01.2020 Do nosso arquivo online

Yazalde, a Bola de Ouro do Sporting

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Viagem à contratação do grandioso avançado argentino em janeiro de 1971.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis. O Benfica estica-se no número de jogadores argentinos, mas todos juntos não conseguem marcar tantos golos (nem metade) como Chirola. Mas quem é este? Um, dois, três, quatro, cinco, seis. E golo! Hector Yazalde só demora seis minutos a encontrar o caminho da baliza para se estrear a marcar pelo Sporting, nos 4-1 ao Boavista, para a 1.ª divisão. É “defeito” de argentino – veja-se os casos de Caniggia (Benfica 94-95) e Fandiño (FC Porto 48-49).

Faz esta semana 49 anos que o Sporting contrata Yazalde, um dos melhores avançados de sempre em Portugal. Em quatro épocas, Chirola pulveriza recordes, alguns inéditos (primeiro sportinguista a ganhar a Bota de Ouro, em 1974, e primeiro jogador estrangeiro de uma equipa portuguesa a participar num Mundial, no mesmo ano), outros imbatíveis (46 golos num só campeonato).

O mérito do Sporting é do vice-presidente Abraão Sorin, que viaja de São Paulo, onde está de férias, até Buenos Aires para fechar o negócio. Na altura com 25 anos, Yazalde é jogador do Independiente e fora ele quem garantira o título argentino de 1970, com um golo in extremis, razão pela qual há uma série de convites no seu concurso, como os do Santos, Palmeiras, Valencia, Lyon, Nacional Montevideu e Boca Juniors.

Yazalde marcou 46 golos num só ano ao serviço dos leões.
Yazalde marcou 46 golos num só ano ao serviço dos leões.
Foto: Woodbeatcool/CC BY-SA 4.0

Com noção do seu valor, o Sporting oferece-lhe 4200 contos, valor correspondente a um fora-de-série, justamente para lhe garantir o interesse imediato e dar-lhe a volta à cabeça. Com Sorin na capital argentina e a vontade de Yazalde em jogar no Sporting, o único problema é o entendimento entre jogador e clube – Yazalde quer receber 20 por cento do total da transferência e o Independiente não está para aí virado. Um toque aqui, outro ali e umas horas fechados num escritório resolvem o impasse a bem, a troco de 3.500 contos.

Com o dinheiro, Yazalde manda construir uma vivenda em Buenos Aires para os pais e só depois de escolhido o local da empreitada é que viaja para Lisboa, onde chega a 11 de Fevereiro. De cá, só sai no Verão de 1975, vendido por 12.500 contos para o Marselha, quando o Real Madrid oferecera 27 mil contos no ano anterior.

No Sporting, Yazalde ganha um campeonato (1974), duas Taças de Portugal (1973, 1974), duas Botas de Prata como melhor marcador do campeonato nacional (46 golos em 1974 e 30 em 1976), uma Bota de Ouro como melhor marcador da Europa (1974) e outra de Prata como segundo melhor (1976). No plano social, também cria raízes em Portugal e casa-se em Lisboa com a actriz/modelo portuguesa Carmizé com quem forma um dos casais mais badalados da altura.

Tomé, titular daquele Sporting, fala sobre Yazalde. “Tenho imensas saudades dele. Foi um fenómeno, dentro e fora do campo. A sua simplicidade era genial. Foi ao Mundial-74 pela Argentina, marcou dois golos e voltou igual, sem pretensões. Era simples. Primeiro que tudo, apanhava pancada de todo o lado. Como avançado do Sporting, ele estava sujeito a uma carga de trabalhos, mas nunca o vi queixar-se. Nem eu, nem os meus outros companheiros. Ou até mesmo os adversários. Sempre o viram como um jogador leal. Jogou quatro épocas no Sporting, marcou golos de todas as maneiras e feitios, às vezes aos cinco e seis de cada vez como aqueles 8-0 ao Montijo e ao Oriental. Dele, assim de repente, lembro-me de uma história. Um dia, no seu aniversário, comemorado num restaurante em Cacilhas, oferecemos-lhe uma cadeira de baloiço. Para ele descansar o tempo que fosse necessário e assim ter tempo e cabeça para marcar os seus golos. Nós fazíamos o outro trabalho.”

Laranjeira, outro companheiro de equipa de Yazalde, lembra-se de outro episódio. “No primeiro almoço com o resto do plantel, ali na Avenida do Brasil, todos nós comíamos bacalhau. Ele virou-se para o treinador, que era o Fernando Vaz, e disse que não gostava de bacalhau. Então, deram-lhe uma omeleta com rum [flambée]. Mas depois foi adquirindo o gosto pelo bacalhau em outras almoçaradas e jantaradas e, ao fim de dois anos, já adorava o bacalhau. Sempre com o vinho tinto.”

Sò mais uma, só mais uma. Conta Carlos Pereira, lateral do Sporting. “Ele conduzia um BMW. Um dia, perto do Estádio Alvalade, assaltaram-lhe o carro, partiram-lhe os vidros e roubaram-lhe o rádio. Uma semana depois, apareceu lá um homem a vender o rádio dele ao Yazalde! Ele olhou para aquilo e disse-lhe ’mas isso é meu’. Julga que a situação foi incómoda? Nada disso. Ele comprou o rádio por mil escudos. O Yazalde ficou com dois rádios, porque entretanto já comprara outro, e ladrão ficou com mil escudos, que era dinheiro para a época. Ah, espere aí, há outra história: ele quando ganhou a Bota de Ouro como melhor marcador da Europa com 46 golos em 1973-74, recebeu um carro Toyota de presente. Dividiu com o plantel e sugerimos fazer uma lotaria da Páscoa. Vendemos rifas e tudo mas o prémio não saiu a ninguém. Ficou em casa. Então, o Fernando Mamede comprou o Toyota e dividimos o prémio: três mil escudos para cada.”

E imaginar que o sonho de Yazalde, nascido num bairro pobre de Buenos Aires, a viver numa casa com mais sete irmãos, é o de ser médico e jogar futebol no Boca Juniors. Nem um nem outro. Em alternativa, faz sonhar todos aqueles que o vêem jogar, que sempre o elogiam pela capacidade de encaixe e extremo fair-play na hora das faltas à margem da lei dos adversários. Por isso mesmo, Yazalde continua a ser um dos jogadores mais completos no mundo fantasioso do PES (Pro Evolution Soccer). Na parte dos clássicos, lá está Chirola com 95 (de 0 a 100) na pontaria à baliza, 92 de cabeça, 90 na técnica do remate, 86 na execução do drible, 85 na potência do remate, 83 na stamina e 80 no trabalho de equipa.


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