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Uma lenda vê outra lenda nascer

Uma lenda vê outra lenda nascer
Ciclismo

Uma lenda vê outra lenda nascer


por Ricardo J. Rodrigues/ 22.09.2021

Na vitória do circuito de Zurique, em 1986.Foto: DR

As lições de Acácio da Silva, único ciclista português a vestir a camisola amarela no Tour de France, quando vê o primeiro dos seus compatriotas vencer a Volta ao Luxemburgo, país onde cresceu.

João Almeida cumprimenta Acácio da Silva depois de ganhar a Volta ao Luxemburgo.
João Almeida cumprimenta Acácio da Silva depois de ganhar a Volta ao Luxemburgo.
Foto: António Pires

Acácio da Silva acredita que João Almeida vai ser o primeiro português a ganhar o Tour de France. “Vai ser ele”, aposta uns minutos antes de o ciclista partir para o contrarrelógio de Dudelange, ao terceiro dia do Skoda Tour – a volta ao Luxemburgo em bicicleta. Aconteceu na quinta-feira, 17 de setembro de 2021. Dois dias depois, Almeida subiria ao pódio e tornar-se-ia o primeiro português a vencer a prova. O próprio admitiu que foi em Dudelange, ao distanciar-se 43 segundos do rival direto, que sentiu a vitória. 

Quando se quer contar a história do ciclismo português, há esta cidade no sul do Luxemburgo que merece um capítulo inteiro. Diddeleng, como lhe chamam os luxemburgueses, não tem mais de 20 mil habitantes e é a quarta cidade de um país com 600 mil. Aqui residem classes trabalhadoras e quase um quarto da população é portuguesa. É também a terra de Acácio da Silva.

Em 1989, Silva foi camisola amarela do Tour de France – e não só foi o único português a vestir a jaune como fê-lo por quatro dias e meio. No mesmo ano, foi camisola rosa no Giro de Itália. Também ganhou a Vuelta de Espanha – em equipas. É um dos melhores corredores portugueses da modalidade de todos os tempos.

Acácio, Maradona e Alcalá em Itália. Atletas no topo do mundo.
Acácio, Maradona e Alcalá em Itália. Atletas no topo do mundo.
Foto: DR

“Há uma história que nunca quis contar e que agora já posso”, disse nestes dias em que acompanhava a Volta ao Luxemburgo. “Na primeira etapa que ganhei do Tour de France, passei por Dudelange e vi que os meus irmãos estavam na esplanada do Étoile du Sud”. Naquele café tinha assento o núcleo do Sporting no Grão-Ducado, presidido por um dos seus irmãos. “Eu tinha fugido do pelotão com mais dois e íamos com bom avanço. Mas depois vi ali a família toda e parei. Não saí da bicicleta, mas tive de ir com os pés ao chão porque eles deram-me um cálice de vinho do Porto para as mãos. Bebi aquilo de um trago. Depois pedalei monte acima e ultrapassei os outros todos. Ganhei a etapa”, diz, e escangalha-se a rir.

As três primeiras etapas da Volta à França de 1989 partiram precisamente do Grão-Ducado. Em boa verdade, desde 1954 que o Tour se tornou evento demasiado grande para se restringir a um único país: nesse ano arrancou dos Países Baixos, desde então já passou pela Bélgica e pela Suíça, pela Alemanha e pelo Reino Unido, pela Irlanda e pelo Luxemburgo. A Skoda Tour, por outro lado, consegue a proeza de realizar uma prova de cinco dias, com percursos de quase 200 quilómetros, sem nunca sair de território luxemburguês. Num país do tamanho de meio Algarve, é um feito notável.

No seu escritório em Mondorf, com a camisola amarela que ganhou no Tour.
No seu escritório em Mondorf, com a camisola amarela que ganhou no Tour.
Foto: António Pires

Acácio da Silva ganhou uma etapa na Volta ao Luxemburgo em 1983, e Joaquim Agostinho já tinha cumprido a mesma marca em 1969, mas nem um nem outro tinham alguma vez levantado o caneco da prova. João Almeida, o ciclista de 23 anos das Caldas da Rainha, escreveu essa página da história no último sábado. Depois de subir ao pódio para receber, sucessivamente, a camisola amarela, o prémio de juventude e o troféu do torneio, desceu do pódio e foi abraçar Silva. E depois disse isto: “Foi incrível sentir que tinha aqui um dos melhores ciclistas portugueses de sempre a apoiar-me. O Acácio da Silva é uma lenda e espero poder um dia inspirar os mais novos como ele o fez a mim.” A troca de galhardetes seguiu momentos depois: “O João é rápido e consistente, ainda há duas semanas ganhou a Volta à Polónia e estou capaz de apostar que vai tornar-se campeão do mundo para a semana. Na verdade, ele pode mesmo tornar-se o melhor português de sempre”, disse o mais velho.

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Sabedoria de pelotão
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Uma queda de Acácio nos Alpes no Tour de France de 1987.
Uma queda de Acácio nos Alpes no Tour de France de 1987.
Foto: DR

Acácio da Silva deixou o ciclismo em 1994, mas na última década tem voltado todos os anos à estrada para a Volta ao Luxemburgo. Já não o faz a pedalar, agora anda atrás (e às vezes à frente) dos corredores ao volante de carro – a transportar convidados especiais e mostrar-lhes de perto a corrida.

No dia do contrarrelógio de Dudelange, por exemplo, houve um grupo de professores e médicos luxemburgueses que embarcaram na sua carrinha para seguir um atleta italiano. Silva voava pelas curvas do Bairro Itália com mestria de Michel Vaillant – para conseguir acompanhar as acelerações nas contracurvas. O grupo ria-se com a ondulação na cabine, mas, no final de tudo, houve algo que lhes soube melhor do que a adrenalina. “Ouvir uma lenda viva do desporto explicar o que sente o atleta a cada momento da prova é simplesmente espetacular”, dizia um dos professores na despedida.

 

“Isto é muito importante”, gritava o decano dos ciclistas no último dia da prova – 183,7 quilómetros entre Mersch e o bairro de Limpertsberg, na capital. E apontava para os grupos de apoiantes que se concentravam nas bermas do alcatrão. Traziam cartazes a dizer “Força João Almeida”, bandeiras de Portugal, envergavam invariavelmente camisolas da seleção das Quinas e aplaudiam o atleta à sua passagem. “Numa corrida tu vais concentrado nas rodas da frente, não olhas para a paisagem. Mas o apoio tu sentes, e isso enche-te de responsabilidade. Estás a representar um país inteiro, e isso parece que te dá uma motivação extra”, explicava.


João Almeida. "Vitória tem sabor especial num país onde um quinto da população é portuguesa"
Ciclista contava com este resultado desde sexta feira-feira, quando venceu com "margem grande".

Quando o pelotão passou por Asdorf, no noroeste do país, Acácio não se conteve e pôs-se a aplaudir o português que seguia na frente, tornando-se mais um fã no meio de todos. “Vai, João.” A cada paragem para observar os corredores era certo e sabido que vinha gente cumprimentá-lo, mesmo nas passagens lentas por uma povoação o povo reconhecia-o da janela do carro e largava numa gritaria desgraçada. Um herói é herói para sempre. Mesmo que ele continue a recusar o pedestal.

“Não é fácil chegar ao topo e depois sair de lá”, confessava numa altura em que a marcha rolava calma na proximidade dos lagos de Esch-sur-Sûre. “Vi muitos companheiros perderem-se na vida quando deixaram de competir. Passas a tua juventude inteira em movimento e de repente paras e sentes-te um peso morto.” É por isso que guarda um conselho para os mais novos: “Preparem a vossa saída de cena antes do pano se fechar.”

A marca de bicicletas Acácio, vendidas no Luxemburgo.
A marca de bicicletas Acácio, vendidas no Luxemburgo.
Foto: DR

Ele tentou fazê-lo. Nos últimos anos de competição lançou uma marca de bicicletas com o seu nome, e a marca Acácio tinha lojas no Luxemburgo que viveram um curto período de sucesso. “Quando larguei definitivamente as bicicletas, em 1994, passei três anos a viajar pelo mundo.” Numa carreira de alta competição tinha somado amizades em todo o globo, então andou pelo México e percorreu toda a América do Sul. “Precisei desse tempo para perceber o que queria. E a minha ideia inicial era construir telhados, que era o que fazia antes de me tornar ciclista profissional. Mas as coisas levaram outra volta.”

No seu escritório em Mondorf-les-Bains, Acácio da Silva tem as paredes decoradas com uma moldura da camisola amarela do Tour de France e outra com a rosa do Giro de Itália. Uma cadeira, uma secretária e um computador, não há muito mais do que isso. É a partir daqui que vende casas – desde que deixou o desporto é proprietário de uma agência imobiliária. Só abre exceções em setembro, quando o Tour chega ao Luxemburgo e a terra que fez sua vibra com os homens do pedal. Aí, só aí, ele interrompe o caminho que seguia para ir beber o passado.

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A apoiar João Almeida na Volta ao Luxemburgo.
A apoiar João Almeida na Volta ao Luxemburgo.
Foto: António Pires

Acácio da Silva nasceu em Montalegre em 1961, tem por isso 60 anos. Tinha sete quando emigrou com a família para o Luxemburgo, e as memórias que guarda da infância transmontana são parcas. “Talvez o episódio que mais me tenha marcado tenha acontecido quando eu tinha seis anos”, conta agora durante um almoço com Fernando, terceiro dos sete irmãos Silva – Acácio é o quinto. Estão no café Algarve, em Mondorf, uma das casas portuguesas mais antigas do país.

O gaiato não queria saber da escola, deixá-lo feliz era pedir-lhe que fosse para o monte tomar conta do gado. “Então houve um dia que saí de casa depois da merenda e adormeci ao pé de um tanque de água. Era fim do verão e os dias ainda eram longos. Quando acordei estava a começar a anoitecer e pensei logo que ia levar uma sova quando entrasse em casa.”

Acácio, José e Francisco da Silva num treino em Dudelange, em 1979.
Acácio, José e Francisco da Silva num treino em Dudelange, em 1979.
Foto. DR

A mãe andava de facto aflita sem saber do rapaz, e tinha posto o povo todo da aldeia atrás dele. Viviam no Casal da Veiga, na subida para a serra do Larouco, terra de tempestades inclementes e bicharada brava. “Comecei a descer para casa e quando dei por mim estava uma alcateia de lobos a umas poucas centenas de metros de distância. Acho que nem de bicicleta eu corri tão rápido”, dispara numa gargalhada.

O pai tinha chegado ao Luxemburgo três anos antes, ele e os irmãos vieram com a mãe em 1968. “Fomos de Mercedes até Paris, ficámos lá uns dias, e seguimos depois para o Luxemburgo”, recorda o irmão Fernando, enquanto dá uma garfada no bacalhau à Braz. Nem um nem outro Silva recorda qualquer choque de adaptação. “Nós vínhamos de uma aldeia pequena e passámos a outra aldeia pequena”, lembra Acácio, “não foi assim tão diferente.”

Instalaram-se em Hellange, casario de meia centena de almas entre Bettembourg e Frisange. “Tínhamos porcos e galinhas, coelhos, ovelhas e cabras. Antes do Natal matávamos dois ou três porcos para fazermos fumeiro para o ano todo”, recorda Acácio da Silva. Fernando anui e puxa os galões ao orgulho familiar: “Todos nós aprendemos a sangrar um porco e limpá-lo, fazer chouriças e alheiras, salgar um presunto e limpar tripas. É um ensinamento valioso.” O mais novo sorri e responde-lhe: “Sempre que chegava o inverno e as competições paravam, eu ia para Montalegre e a primeira coisa que queria comer era uma chouriça das que a mãe fazia.” Ainda hoje cumpre o ritual.

Usando a camisola rosa no Giro de Itália de 1989.
Usando a camisola rosa no Giro de Itália de 1989.
Foto: DR

Foi por causa dos dois irmãos mais velhos, Francisco e José da Silva, que Acácio se meteu nas bicicletas. Os rapazes já corriam por um clube local, o Dudelange, e o rapaz mais novo entrou aos 17 anos. “Eu trabalhava numa empresa que construía telhados e o meu patrão era um homem bastante compreensivo – gostava de desporto e era presidente de um clube de basquetebol. Então os outros iam todos de carrinha para as obras e eu seguia de bicicleta atrás deles. Chegava com 15 ou 20 minutos de atraso, mas não havia problema.” Começou a competir em 1978 e no ano seguinte tinha já somado dez vitórias do escalão jovem, nomeadamente a Volta à Checoslováquia. “Foi a primeira vez que fui ver o outro lado do mundo para lá do Muro de Berlim. A comida não era grande coisa, mas tinham uma cerveja que era boa como o raio”, lembra. O talento era evidente e em 1980 passou a amador. Ganhou a Flèche du Sud e mais uma vintena de competições pequenas. No final de 1981, deu o salto para profissional. E foi aí que as coisas mudaram para sempre.

Falava na altura cinco línguas – a nativa e a do país de acolhimento, mais o alemão, o francês e o italiano. Mudou-se para a Suíça, a convite da equipa Royal-Wrangler, e nessa altura teve de aprender a falar uma língua de que nunca ouvira falar. “O alemão-suíço é uma coisa diferente, para mim conta como língua também”, graceja. Tinha 20 anos e não conhecia ninguém em Zurique. Instalar-se-ia em casa de um chef com uma estrela Michelin chamado Gasthof Schoenengrund – e o cozinheiro, Rudi Kellermueller, tratou-o como um filho durante os 15 anos em que ali viveu.

Em 1982 somou resultados promissores na Volta ao Luxemburgo e correu o primeiro dos seus sete Giros de Itália. No ano seguinte ganha uma etapa no Grão-Ducado e dá nas vistas na Volta à Suíça, vencendo o grande prémio da montanha. Começa a correr em várias provas italianas com a camisola da Malvor-Bottecchia em 1984 e destaca-se no Giro e na Volta à Suíça, onde foi segundo. 

Acácio e Fernando da Silva, esta semana, em Mondorf.
Acácio e Fernando da Silva, esta semana, em Mondorf.
Foto: António Pires

No ano seguinte vence pela primeira vez uma etapa na principal competição de ciclismo italiana e ganha o torneio Tirreno-Adriático. Em 1986 volta a vencer uma etapa do Giro, ganha o campeonato de Zurique e o campeonato de Portugal. É o ano da sua estreia no Tour de France, também.

Veio a temporada 1987 e ganha pela primeira vez uma etapa no Tour com as cores da Kas, equipa espanhola. Nos Alpes dá uma queda estrondosa nesse ano e nos Pirinéus queixa-se das condições de alojamento que não lhe permitiam descansar. “Estávamos em Pau e não havia hotéis para toda a gente. Ficámos a dormir em camas de pano do exército no pavilhão desportivo da cidade. Uma coisa destas, hoje, seria impossível”, diz.  

Com o Grão-Duqie Henri na terceira etapa do Tour de França em 1989. E usando a camisola amarela.
Com o Grão-Duqie Henri na terceira etapa do Tour de França em 1989. E usando a camisola amarela.
Foto: DR

Em 1988, Acácio da Silva ajuda a equipa da Kas a vencer a prova de equipas na Vuelta a Espanha e veste a camisola de líder durante quatro dias da Volta à Suíça. Ganha outra etapa do Tour antes de se mudar para os italianos da Carrera, por quem corre o seu sexto Giro de Itália em 1989. Fica em segundo na primeira etapa e vence a segunda, envergando por isso a camisola rosa durante um dia. Semanas depois arranca o Tour de France no Luxemburgo e Acácio da Silva consegue manter a amarela nos quatro primeiros dias – um feito histórico de um ciclista português. O ano em que a Cortina de Ferro tombou foi também o do apogeu da sua carreira.

Abandonou a alta competição 1994 ao serviço da portuguesa Jumbo-Maia – e ainda ganhou uma derradeira prova, o troféu de Almoçageme. Passou os anos seguintes sem subir ao selim, até a sua terra natal criar um clube ciclista com o seu nome e convidá-lo para um torneio de BTT que se realiza continuamente desde 2013.

Em Dudelange, na semana passada, o homem que esteve no topo do mundo encolhia os ombros quando lhe atiravam os elogios. Dele não fala, mas desfaz-se em elogios a Joaquim Agostinho, “com quem chegou a correr”, que os livros escreveram como o melhor de sempre. E agora que vê do Luxemburgo um miúdo poder ser ainda melhor deixa-o de peito cheio, orgulhoso e se calhar mais orgulhoso do que nas histórias que tem para contar. Bem vistas as coisas, não é todos os dias que uma lenda vê outra lenda nascer.

 

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