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Um rei do Povo!
Editorial Desporto 3 min. 15.01.2014

Um rei do Povo!

OPINIÃO, por Sérgio Ferrira Borges - É difícil falar nele sem cair na banalidade nem repetir aquilo que já foi dito. E é ainda difícil porque há pessoas mais habilitadas para o fazer. Só conheci Eusébio, por obrigação profissional, depois de ele ter deixado de jogar. Entrevistei-o algumas vezes e daí nasceu uma amizade que nunca chegou a ser íntima. E o mais prejudicado foi eu, porque Eusébio era uma personalidade rica. Confesso o encanto que me deixava, em cada uma das conversas que tivemos.

O mundo do futebol está cheio de grandes jogadores. Mas Eusébio não era um grande jogador. Era, antes, um futebolista genial. Como ele, só conheço mais dois, Pelé e Maradona. O argentino já deixou de jogar há muitos anos e, depois dele, não voltou a aparecer nenhum futebolista deste nível. Por aqui se vê como Eusébio é grande.

Tinha a consciência do seu imenso valor, mas isso nunca o fez perder a noção do limite, nunca quis passar de grande estrela, a vedeta de pacotilha, como hoje tanto se vê. Fomos vizinhos, durante alguns anos. Eu morava na Estrada de Benfica, mesmo em frente à famosa "Praceta do Eusébio", como toda a gente lhe chamava. Movimentava-se por ali, cumprimentando afavelmente toda a gente, como se aquilo fosse a sua aldeia.

Todas as manhãs, encontrava a sua mulher, a dedicada Flora, quando ela tomava um café apressado no Talismã, para regressar a casa com a imprensa desportiva que Eusébio gostava de ler, antes de sair para o estádio da Luz. Cumprimentava-a e mandava um abraço para o rei que ela certamente não entregava, porque encomendas do mesmo tipo eram às dezenas, ou mesmo centenas. Eusébio só tinha amigos.

Um dos episódios mais marcantes que tive com Eusébio já o contei, parcialmente, numa rede social. Quando Xanana Gusmão veio pela primeira vez a Portugal, tinha na agenda uma visita à sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde eu era então assessor. Foi decidido que Eusébio seria um dos convidados de honra para a sessão solene. Mas ele estava em Moçambique.

Qualquer outra pessoa limitar-se-ia a agradecer o convite e justificar a sua ausência. Mas Eusébio era diferente. À hora a que Xanana Gusmão se encontrava na CPLP, o meu telefone tocou: era Eusébio. "Arranje-me maneira de eu falar com o Xanana", pediu insistentemente. Depois de alguns esforços, consegui "esconder" Xanana e passei-lhe o telefone.

Não sei o que disseram, mas Xanana Gusmão começou a desfazer-se em lágrimas. No fim da conversa, passou-me o telefone e pediu-me para falar com Eusébio. Também ele tinha a voz embargada. "Já combinei tudo. Chego a Lisboa de madrugada e sigo logo para o hotel, para falar com ele. Trate de tudo, para a segurança me deixar passar" – disse-me Eusébio. Assim fiz.

Vi-o jogar muitas vezes. A partir da linha do meio campo, era um perigo para a baliza adversária. Podia explodir, numa arrancada que só acabava na cara do guarda-redes, depois de deixar quatro ou cinco adversários pelo caminho. Mas a meio do percurso, também era capaz de aplicar o seu balístico pontapé. Era um jogador imparável, um destro que, muitas vezes, marcava golos de livre, a mais de 30 metros, com o pé esquerdo.

Há meses, participei num jantar de veteranos da Académica, em casa do António Marques, o defesa-esquerdo desse tempo, quando a Briosa perdeu um campeonato e uma Taça de Portugal contra o Benfica de Eusébio. O Pantera Negra foi, inevitavelmente, tema de conversa. E o Piscas, um defesa-central angolano, contava o que José Maria Pedroto lhe dizia, antes dos jogos com o Benfica: "Piscas, não largas o Eusébio, se ele for à casa-de-banho, tu vais atrás dele."

Publicado no CONTACTO, a 8 de Janeiro de 2014.