Um jogo que Pedro Resende tornou especial
Um jogo que Pedro Resende tornou especial
Sol e frio, crianças e adultos, casais jovens e menos jovens, quase três centenas de adeptos, comes e bebes, alegria e desilusão, gritos e silêncios: podia ter sido só mais um jogo, mas, depois de Pedro Resende ter trocado de clube na semana do RM Hamm Benfica-FC Victoria Rosport, este tornou-se um duelo diferente para quem foi a Cents.
Antes do jogo, Resende foi distribuindo apertos de mão e saudações. Mas com René Roller, que lhe sucedeu no comando do Victoria, nem os olhares se cruzaram. Fumou vários cigarros, num sinal de tensão e nervosismo. Afinal de contas, ia defrontar precisamente o clube que deixara no domingo, após uma vitória por 2-0, assinando pelo Hamm Benfica no dia seguinte. Resende encostou-se a um varão de ferro à frente do banco. Roller passou sem o ver. Não se saudaram, nem o português sequer olhou para ele. Foi como se não existissem.
Pouco antes de começar a partida, um adepto gritou o seu nome perto do banco e dirigiu-lhe uma mensagem de incentivo. Na cerimónia de saudação entre árbitros e técnicos, foi o adjunto do rival que esteve. Vários adeptos do Rosport com bandeiras e bombos foram cantando e tocando. Vozes roucas faziam ecoar o nome do clube e eram respondidas do lado oposto.
Durante o desafio, Roller daria evidentes sinais de ira, enquanto o português começaria por mostrar-se sereno, de mãos nos bolsos, pouco interventivo. Iria chamar um ou outro jogador ao banco para passar indicações mais precisas. Ainda viveu uma explosão de alegria quando a equipa se colocou em vantagem, mas o empate chegou logo a seguir. E a euforia passou a viver em crescendo do lado de René Roller que, então sim, dirigiu olhares triunfantes ao banco oposto. Com o decorrer do tempo, as razões para a inquietação de Resende aumentaram: uma expulsão, dois golos sofridos, outra expulsão. Roller celebrou a vitória de forma efusiva. Consumada a derrota, Pedro Resende entrou no relvado e foi cumprimentar jogadores e árbitros, mas não Roller. O mal-estar era evidente.
"O seu comportamento não foi correto, sobretudo com os jogadores e os adeptos, e não devia sequer estar no banco neste jogo. Foi fotografado com o presidente do Hamm ainda equipado à Rosport, isto é incrível! Vim aqui dezenas de vezes e nunca vi grades à volta dos bancos como fizeram desta vez. Mas o presidente do Hamm Benfica foi dizer na televisão que precisavam de medidas de segurança e puseram aqui as grades. Com medo de quê? Quem não se portou bem foi ele e o treinador", acusou um adepto do Rosport. "Agora temos alguém da casa, homem que em mais de 20 anos já salvou o clube da descida pelo menos duas vezes", disse.
Minutos antes, na sequência de um lance em que um jogador do Rosport iria sair lesionado após carga de adversário, lançara insultos em luxemburguês para o campo e fora acusado de racismo por um responsável do Hamm. A troca de palavras que se seguiu envolveu ainda um segurança. “Se não parar com isso vou ser obrigado a levá-lo lá para fora”, ameaçou o segurança. O adepto desafiou-o. “Faça lá isso! Paguei bilhete, tenho direito a estar aqui”, replicou. “Se continuar com isso, vai ver se não faço”, ameaçou o outro. Mas não passou disso.
Outro adepto que seguira de perto a discussão puxou da carteira e mostrou a foto de uma equipa a preto e branco, antepassado do Hamm Benfica, apontando para um jogador alto na fila de cima. "Este sou eu, joguei até aos 38 anos, era defesa-central", lembrou com orgulho. "Não somos racistas, só não gostámos do que se passou com o treinador", explicou.
Os treinadores
Agastado e sempre à distância de Resende, René Roller começou por não querer falar sobre a maneira como se processou a saída, mas, referindo-se ao jogo, acabou a resumir o que pensava. "Esta é uma vitória da ética e do fair-play que outros não demonstraram. Não posso aceitar que um treinador faça o que ele fez, concordar com a continuidade e, de um dia para o outro, sair para assinar pelo próximo adversário", criticou.
Para Pedro Resende, porém, não foi bem assim que tudo se passou. "Não houve qualquer questão ética envolvida neste assunto. Havia um acordo verbal, nada assinado e não fui eu que voltei atrás. Estava tranquilo, mas, depois do jogo em que fomos eliminados da Taça, reparei que havia qualquer coisa de diferente. Falei com os dirigentes e a resposta foi que, como acontece na vida dos treinadores, se houvesse maus resultados em dois ou três jogos, a situação podia mudar. Tenho família, preciso de pensar no que é melhor para nós e foi isso que fiz. E, se nenhum treinador gosta de perder, dos sete jogos que faltavam, se tivesse de escolher um para a derrota, seria por certo este", contou.
Sobre a rapidez com que tudo decorreu, Resende argumentou: "Sabia do interesse do Hamm, mas não houve contactos antes, nem assinatura do contrato. Tentei explicar aos jogadores, mas sei que alguns ficaram desiludidos e compreendo. Não gostei foi de comentários que li feitos por quem nem sequer me conhece".
Os presidentes
O presidente do Hamm Benfica, Paulo Lopes, afastou qualquer questão relativa a irregularidades na contratação de Resende. "Ao intervalo do jogo com o Etzella, um jornalista perguntou-me se Gonçalo Cruz iria continuar e disse-lhe que sim. Percebi mais tarde nas redes sociais que o Pedro Resende tinha deixado o Rosport e pedi que fosse contratado. O Gonçalo sabia que a sua situação era complicada, enquanto o Pedro tinha o perfil de técnico que procurávamos, só que antes não estava disponível", revelou. "Tudo se decidiu em 24 horas para um acordo por dois anos com um de opção. Talvez pudéssemos ter esperado mais uma semana para evitar que a mudança se desse no jogo com o Rosport, mas não fizemos nada errado e do jogo saiu um justo vencedor", diz.
"A derrota frente ao Rosport foi mais negativa devido ao contexto do jogo, mas já passou. Temos de pensar em ganhar o próximo jogo, frente ao Hostert. Da mesma forma que vencemos em Ettelbruck, podemos também ganhar com um concorrente direto. Os jogadores estão empenhados em garantir a permanência na Liga BGL e tudo vão fazer por isso, nem que seja no fatídico jogo da'’liguilha'. O Pedro chegou há uma semana e ainda está a descobrir o grupo. Aconteça o que acontecer, ele é o treinador que escolhemos para liderar o projeto do clube nos próximos anos", concluiu.
Contrastando com Paulo Lopes, Jean-Paul Kolbusch, presidente do Victoria Rosport, mostrou-se feliz. "Depois de uma semana muito movimentada, esta vitória é a justa recompensa pelos momentos atribulados que vivemos", recordou. "Não esperávamos que o Pedro deixasse o clube desta forma. Falei com ele e posso garantir que a totalidade da direção estava de acordo para que renovasse o contrato como já tínhamos apalavrado. Todos nos sentimos traídos e os jogadores não compreenderam a sua escolha. Eu e René Roller tudo fizemos para o demover, mas em vão", explicou.
"Durante o jogo foi notório que os nossos jogadores estavam unidos e que queriam muito ganhar. Tudo o que aconteceu acabou por funcionar como uma motivação extra que jogou a nosso favor. Por vezes há males que vêm por bem".
Os jogadores
Capitão do Hamm Benfica, Paulo Arantes demarcou-se da polémica e mostrou-se empenhado nos objetivos da equipa. "Aquilo que se passa à volta do terreno de jogo não nos diz respeito. O Pedro é um treinador que toda a gente conhece, trabalhava num clube que está na mesma luta que nós e decidiu dar outro rumo ao seu trabalho. Aqui, depois da saída do Dan ficou o adjunto, mas entretanto chegou o Pedro"”. E a equipa ficou pior? "Uma semana de trabalho não é ainda suficiente para que as ideias do treinador sejam aplicadas, mas todos temos confiança de que a permanência vai ser conseguida", resumiu.
Do lado oposto, o português Kevin Marques admitiu que o jogo tinha um caráter diferente. "Sim, depois da forma como o Pedro saiu, este tornou-se um jogo especial para nós. Conhecíamos os seus métodos, mas ele também nos conhecia bem, portanto, ninguém estava em vantagem neste caso. Quisemos mostrar que não houve instabilidade e abordar o jogo da melhor forma. No fundo, ficámos mais próximos uns dos outros, mais unidos. Estávamos satisfeitos com o trabalho do Pedro, até sabíamos que ia prolongar o contrato e muita gente não gostou da maneira como saiu".
Ninguém queria perder, mas o reencontro de Resende com o Rosport foi amargo. Agora, a luta continua. Na memória dos adeptos vai ficar o dia em que o treinador acabado de sair do Rosport para um rival perdeu no primeiro confronto.
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