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Um clássico a caminho do Jamor
Desporto 5 min. 15.10.2021
Rui Miguel Tovar

Um clássico a caminho do Jamor

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Um clássico a caminho do Jamor

Foto: DR
Desporto 5 min. 15.10.2021
Rui Miguel Tovar

Um clássico a caminho do Jamor

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Em sete jogos para a Taça de Portugal no Restelo o Sporting só ganhou um.

O sorteio é caprichoso. A primeira bola a sair é Oliveira do Hospital. Segue-se Vitória SC. Depois, Felgueiras e Estoril. Mais à frente, Rio Ave e Boavista. De repente, Belenenses, Os Belenenses. Uauuuuuu, a sala agita-se. Quem vem lá? Sporting Clube de Portugal. Que maravilha, um dérbi para abrir o apetite na terceira eliminatória da Taça de Portugal.

Calha bem, o Sporting no Restelo. Porque sim, é o campeão nacional em título. E porque sim, é o primeiro adversário português do Belenenses no Restelo no já longínquo 23 Setembro 1956. Maravilhoso, espectacular, divinal. Nem de perto. Falta inventar ainda o adjectivo para classificar a inauguração do Estádio do Restelo. Naquele domingo, a cidade de Lisboa é invadida pelo azul do Belenenses. A ocasião pede esse compromisso, a vontade popular é ilimitada. Campeão nacional 1946 e vencedor da Taça de Portugal 1942, o Belenenses é uma referência desportiva do país. 

Com a saída das Salésias e a construção do Restelo, o Belenenses inaugura uma fase sem a ajuda monetária das autarquias num espaço público vetado ao esquecimento, completamente isolado, com vista para o Tejo. O projecto é do arquitecto Carlos Ramos, tudo o resto tem a assinatura de Francisco Soares da Cunha, denominado o homem do estádio. É ele quem apresenta a cidade desportiva aos jornalistas no dia 20 Setembro, antevéspera da inauguração, e salta à vista um dado inequívoco de um homem com visão: no meio da bancada central, há ali um espaço rectangular para as câmaras de televisão.

Ora bem, a RTP só começa a emitir de forma regular em Março de 1957. Futurista, o senhor Francisco Soares da Cunha. Além de empreendedor. É ele quem paga as quotas em atraso dos adeptos mais necessitados. É ele quem compra o primeiro autocarro do clube para transportar atletas. É ele quem cria o lugar de secretário-técnico para coordenar toda a actividade desta e daquela modalidade. É ele quem ajuda a contratar o treinador italo-argentino Helenio Herrera. É ele quem traz figuras irrepetíveis como Matateu, Vicente, Ramín, Suárez. E é ele quem organiza a digressão até ao Brasil em 1957 para jogar o Torneio Morumbi, com Flamengo e ainda com Pelé, ainda com 16 anos de idade e autor de um hat-trick ao serviço do combinado Vasco/Santos. É ele ainda quem traz um árbitro italiano para o tal Belenenses-Sporting.

Chama-se Marco Maurelli e só apita a primeira falta aos 12 minutos, de Carlos Silva sobre Pérides. O primeiro golo, esse, aparece aos 23 minutos numa desmarcação primorosa de Miranda, que chega à bola antes de Caldeira e Octávio de Sá para dar um toque de classe para a baliza. Até ao final da primeira parte, umas quantas descidas de Matateu provocam o pânico nas redes leoninas. Ao intervalo, 1:0.

Na segunda parte, o Belenenses volta a carregar e beneficia de um penálti, aos 54 minutos, por falta de Couceiro sobre Matateu (pois claro). Na marcação, Perez atira para fora. É o jogo de todas as estreias, inclusive uma grande penalidade falhada. No quadradinho seguinte, Osvaldinho contra-ataca com parcimónia e entrega a bola a Gabriel, cujo remate de primeira e sem preparação apanha José Pereira em contrapé. Está feito o empate, desfeito aos 81’ com categoria e classe: Matateu dobra os rins a Couceiro, tabela com Tito e marca de cabeça em antecipação a Octávio de Sá. O Restelo transborda de alegria e aplaude vivamente a entrega do troféu ao capitão da equipa vencedora, Figueiredo. Para o sportinguista Passos, a miniatura desse troféu.

Daí para a frente, o Sporting visita sete vezes o Restelo para a Taça e só ganha um jogo, e após prolongamento (3:2). Acontece em 1972, na mesma tarde de um 6:0 do Benfica vs FC Porto na Luz, para a ½ final da Taça. De resto, o Belenenses acumula três vitórias e três empates. O último desses jogos é o 3:1 em 1989. O inglês John Mortimore inicia a época e é eliminado da Taça UEFA sem sofrer qualquer golo em 390 minutos, correspondentes a duas vitórias por 1-0 sobre o Bayer Leverkusen (campeão em título) mais dois empates com o Velez Mostar. Nos penáltis, a tristeza do adeus. Em Fevereiro, com o Belenenses em oitavo lugar, entra o brasileiro Marinho Peres. O objectivo é subir na classificação e chegar ao Jamor, cuja final está marcada para 28 Maio.

Pé ante pé, o Belenenses escala a montanha da Taça de Portugal. O primeiro obstáculo é o FC Porto, resolvido com aquele canto de Mladenov. Segue-se o Espinho, novamente no Restelo, e é de Saavedra o golo da vitória (2:1). No sorteio da meia-final, calha Benfica com Braga e Belenenses com Sporting. O factor casa ditará o apuramento dos finalistas. Em ambos os casos, o visitante até começa melhor e depois acaba por se tramar à grande (3:1). No Restelo, um cabeceamento de Douglas ao livre de Silas dita a vantagem momentânea do Sporting.

O intervalo é bom conselheiro e o Belenenses, com a conivência do guarda-redes uruguaio Rodolfo Rodríguez, entra cheio de força. Ao todo, marca quatro golos. O primeiro deles é anulado, por mão de Sobrinho e fora-de-jogo de Saavedra, no entender do árbitro Vítor Correia. Os outros três são todos legais. No 1:1, canto de Mladenov e entrada de cabeça de Baidek ao primeiro poste. Rodríguez estica o punho. Em vão. Quatro minutos depois, livre de Mladenov e salto de peixe de Saavedra no meio de uma floresta de perna. Rodríguez estica o braço a pedir fora-de-jogo. Em vão. 

Já perto do fim (84’), Mladenov fecha com chave de ouro: o alívio de Sobrinho apanha o búlgaro em vantagem posicional sobre Venâncio e, à saída de Rodríguez, dá só um precioso toque para a baliza. É o único golo sem ser de cabeça daquela gloriosa tarde. O Belenenses está na final da Taça e prestes a fazer história. Só lhe resta eliminar o Benfica, é o único grande em falta. Atenção a Chico Faria e Juanico.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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