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Cristiano Ronaldo: A dívida mais alegre de sempre
Desporto 4 min. 05.07.2022
Futebol

Cristiano Ronaldo: A dívida mais alegre de sempre

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Cristiano Ronaldo: A dívida mais alegre de sempre

Foto: AFP
Desporto 4 min. 05.07.2022
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Cristiano Ronaldo: A dívida mais alegre de sempre

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Tudo o que sempre sonhou saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Capítulo 1: A dívida mais alegre de sempre. 

Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Ponto final, parágrafo. Bola de Ouro 2008, 2013, 2014, 2016, 2017. Ponto final, parágrafo.

Melhor marcador da selecção portuguesa, melhor marcador da história do Real Madrid, melhor marcador da Liga dos Campeões, melhor marcador de tudo e mais alguma coisa. Ponto final, parágrafo.

E toda a aventura começa com um nome nada a ver com o de Ronaldo. Chama-se Franco, o culpado. Pedro Filipe Antunes Matias Silva Franco, eis o nome completo. Nasce em Abril 1974, a uma semana da revolução. O rapaz é do Sporting de 1982 a 1991, faz toda a formação no José Alvalade. Quando dá o salto para os seniores, tem de pregar para outra freguesia e escolhe o Odivelas. Duas épocas depois, assina pelo Nacional a troco de um contrato profissional.

O Odivelas faz queixa à Federação Portuguesa de Futebol e ganha o caso, a multa é de cinco mil contos. Como o Nacional já inscrevera Franco e não tem essa verba para pagar a multa, fala com Marques Freitas, presidente do núcleo sportinguista da Madeira e também sócio do Nacional, e pede-lhe para se chegar a uma base de entendimento com o Sporting.

Marques de Freitas assume o desafio sem rodeios e liga ao grande amigo Aurélio Pereira, já então um mestre da formação, reconhecido internacionalmente pelo lançamento de figuras do nosso contentamento como Futre e Figo. Palavra puxa palavra, Marques de Freitas fala-lhe de um miúdo com um valor acima do normal. Palavras de Aurélio Pereira. 

"Quando o Dr. Marques de Freitas falou comigo, até mais pela consideração que tinha pelo homem, disse-lhe que só havia uma solução: o Nacional pagava a passagem ao miúdo, ele ficava em Alvalade uma semana, nós observávamo-lo e depois logo se via. Lá veio ele, com o padrinho. Ao segundo dia, já sabíamos que o queríamos. Tinha traquejo com a bola, velocidade, imaginação. Mas, acima de tudo, reparei na forma como ele dominava completamente o ambiente. Falava, dava ordens, gritava. Todos os outros miúdos olhavam para ele como uma coisa rara, como um talento. E, já se sabe, os miúdos sabem selecionar como ninguém. Não dão descontos, como costumo dizer. São juízes implacáveis e se eles, ao segundo dia, já sabem o nome de outro miúdo e lhe passam a bola para ele jogar, é porque esse miúdo é bom jogador."

Pois é, Ronaldo cai no Sporting como um ovni para saldar uma dívida de cinco mil contos. Estávamos em 1997, reinavam os escudos e os contos. Agora é mais euros e aí seria qualquer coisa como 25 mil euros. Quando a hipótese lhe é colocada, Aurélio nem pensa por aí além no sucesso da missão. Até porque não vira o tal miúdo de quem ele fala. Mas como tem um respeito por Marques Freitas, um senhor muito educado e sempre presente, e a sua persistência é muita, Aurélio arrisca um estágio de oito dias em Lisboa. "O doutor manda-me o miúdo e paga as passagens".

O núcleo do Sporting na Madeira paga as duas passagens ida e volta. Uma para o tal miúdo, outro para o seu padrinho, Fernão Sousa. Não é Aurélio quem o vai receber ao aeroporto nem é Aurélio quem vê o primeiro treino de Ronaldo, no campo do Sporting da Torre. Essa honra cabe à dupla Osvaldo Silva e Paulo Cardoso, responsáveis técnicos desse escalão sub15.

Escreve Paulo Cardoso o seguinte: "Organizámos um jogo. Fisicamente, Cristiano não chamava a atenção. Além disso, havia alguns rapazes mais velhos. Na primeira vez que apanhou a bola, descartou-se logo de dois ou três adversários. Olhei para o Osvaldo Silva e disse-lhe 'viste? o que foi isto?' Passam uns minutos e a acção repete-se: velocidade, dribles, coordenação. Como nos chamou a atenção, no dia seguinte fizemos uma segunda prova, nos nossos campos ligados ao Estádio José Alvalade, para que o Aurélio Pereira e outros técnicos pudessem observá-lo com mais tranquilidade e comodidade".

Aurélio arrebita, claro está. E vai ver o segundo treino de Ronaldo. Basta um olhar atento e confirma tudo o que lhe dizem: desenvoltura fantástica, velocidade de execução, jogo aéreo, pé direito, pé esquerdo. "Às tantas, um miúdo chamado João Oliveira está a marcá-lo muito em cima, antes de um lançamento lateral, e ele volta-se para dizer: 'ó miúdo, tem lá calma'. Como é que é possível?! 'Ó miúdo tem calma' quando ele era o mais novo?! Chamava-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro e tinha todo ele o futebol de rua nos seus movimentos. O à-vontade e o não ter medo de nada, características imprescindíveis para ir longe, muito longe."


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Ronaldo chega ao Sporting em definitivo em 1997-98. Ele é tão bom que se mete a dar toques no pavilhão, por debaixo da bancada, e até os seniores abrandam o passo só para poderem observá-lo, deliciados com a magia.

(Curiosidade maiúscula: o único título na carreira de Franco é o de campeão da 2.ª divisão pelo Rio Ave em 2003, o ano em que Ronaldo assina pelo Man United.)

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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