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Tour, a estátua de Agostinho
Desporto 2 5 min. 10.07.2019

Tour, a estátua de Agostinho

Desporto 2 5 min. 10.07.2019

Tour, a estátua de Agostinho

O ciclista português ganha a mítica etapa no Alpe d’Huez aos 37 anos de idade e entra para o panteão do ciclismo mundial.

 Homer Simpson está deitado no sofá à frente da televisão, a ver um programa sobre os grandes feitos na história dos Jogos Olímpicos. No terceiro e último exemplo de heroísmo, surge o nome de Carlos Lopes.

— E em 1984, o português Carlos Lopes tornou-se o mais velho corredor da maratona de sempre, com 37 anos.

— 37? Essa é a minha idade! Maaarge! Depois de pensar muito, decidi correr a maratona de Springfield.

A partir daqui, o 40.º episódio do 12.º ano da série, lançado em fevereiro 2001, desenvolve-se com Homer a tentar emagrecer para ser igual ao herói português. Carlos Lopes, de seu nome. Com 37 anos de idade, insistimos.

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Serve o número 37 para lançar o tema Joaquim Agostinho. Ponto prévio: Joaquim Agostinho é o maior. É o líder incontestável do ciclismo nacional. Uma das suas maiores proezas acontece na Volta a Portugal-1971, na etapa entre Abrantes e Figueira da Foz. Antes da dita cuja, todo o pelotão concorda em descansar, porque o percurso é difícil, servido por estradas e caminhos de baixíssima qualidade.

A meio da corrida, Agostinho, camisola amarela com 13 segundos de avanço sobre o benfiquista Fernando Mendes, sente uma vontade incontrolável de urinar – ele é dos poucos sem jeito para fazer chichi em cima do selim. Tem de descer da bicicleta. Assim o faz. Quando volta ao pelotão, sempre em ritmo lento, Agostinho detecta a ausência de Fernando Mendes que, entre curvas e contracurvas, lá fura o embargo.

Joaquim Agostinho, em 1971
Joaquim Agostinho, em 1971
Foto: Wikipedia

Começa aí uma etapa memorável, com o sportinguista a pedalar furiosamente. Só abranda quando apanha Fernando Mendes. Zangado, dispara: “Agora acompanha-me, se és capaz...” Não vai. Em corrida desenfreada, Agostinho ganha avanço e mais avanço. Nem os pedidos desesperados de outro Agostinho (o Artur, dono da Sonarte, então organizadora da Volta) para abrandar o demovem.

Agostinho corta a meta na Figueira da Foz com 12 minutos de avanço e aquela Volta acaba-se ali mesmo. “É uma lição para todos. Quem me tenta fazer o ninho atrás da orelha, trama-se”, justifica Agostinho, de amarelo de fio a pavio nessa Volta. Ganha oito etapas das 25 e dá 9,54 minutos de avanço sobre o segundo classificado, o francês Antoine Santy, da Bic.

Passam-se uns anos. Digamos oito. Estamos em 1979, Joaquim Agostinho já tem 37 anos e corre no Tour. O início da Volta à França é tudo menos prometedor. Na 6.ª etapa, é vítima de uma queda a caminho de Saint-Brieuc e equaciona a desistência. Nada feito, o homem é de ferro. No dia seguinte, monta a bicicleta e pedala com o objectivo de chegar ao fim. Doze dias depois, no dia 15 Julho (um domingo), a etapa vai de Mehucres ao Alpe d’Huez num total de 169,5 km. O calor aperta, esperam-se ataque para tirar a camisola amarela a Bernard Hinault. Na escalada a Madeleine, uma primeira categoria, quatro ciclistas (Van Impe, Battaglin, Martínez e Kuiper) assumem-se como favoritos.

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A caminho de Galibier, já só restam Van Impe e Battaglin, devidamente perseguidos por Hinault. Quando o Alpe d’Huez está ali à espreita, Joaquim Agostinho sai da casca e inventa uma corrida louca, memorável. As suas pedaladas bem ritmadas ultrapassam qualquer adversário, qualquer obstáculo. A uma velocidade média de 27,2 km/h, o português avança decidido para a vitória e corta a meta com quase dois minutos de avanço sobre o francês Robert Alban. O camisola amarela Hinault é oitavo classificado, a três minutos e 20 segundos. Ainda em cima da bicicleta, Agostinho dedica o dia glorioso à loirinha de Torres Vedras (Ana Maria, sua futura mulher). O desporto português escreve uma página de ouro e Agostinho ganharia uma placa de homenagem no quilómetro do arranque destemido para a sensacional vitória. Aos 37 anos, insistimos.

Passam-se uns anos. Digamos cinco. Estamos em 1984, Joaquim Agostinho já não está entre nós. Então? O Sporting retoma o ciclismo e junta o ícone Agostinho ao formidável Marco Chagas. A época começa em Abril, com a Volta ao Algarve. Conta Chagas: “No dia anterior ao acidente, etapa de contrarrelógio e o Agostinho pregou-nos uma remessa.” Uma remessa? “A mim, por exemplo, deu-me minuto e meio ou dois minutos de avanço, já nem me lembro. No dia seguinte, era dia de meias etapas. Era assim naquele tempo: corríamos, cortávamos a meta antes do almoço, tomávamos um banho, comíamos qualquer coisa e lá íamos correr outra vez até quase ao pôr-do-sol.”

Joaquim Agostinho, em 1972
Joaquim Agostinho, em 1972
Foto: Wikipedia

Quem ganha? Chagas. “Ganho ao sprint, o pelotão chegou compacto. De repente, dizem-me que o Agostinho caiu. Nem imagina a quantidade de vezes que ele caiu. Pensei que fosse só mais uma. Mas não. Fui ter ao seu quarto e ele ainda estava todo vestido. Só não estava calçado. Ele, com um saco de gelo na cabeça, só me dizia que lhe doía a cabeça. Saí de lá desanimado. Como sabe, o acidente foi em Abril e o Agostinho só morreu em Maio, dia 10. Estávamos na Colômbia.” A correr? “A Volta ao Algarve acabou no domingo e devemos ter partido para Bogotá na terça-feira. Eu fiz força para não ir. Em vão. Acabámos por ir. Na terceira ou quarta etapa, o speaker deu a notícia da morte do Agostinho. Que sofrimento. Nós ali tão longe, sem poder fazer nada.”

Para homenagear Agostinho, o Tour convida o Sporting. “Lá fomos, sem cabeça nem preparação. Tínhamos de ir.” Na 5.ª etapa, entre Béthune e Cergy-Pontoise, o jovem Paulo Ferreira (22 anos) escapa-se bem cedo. Na sua roda, os franceses Vicent Barteau e Maurice Le Guilloux. Com muito espírito de colaboração, galgam terreno e chegam a estar com 26 minutos de avanço sobre o pelotão. Paulo Ferreira abdica de ganhar pontos quentes e prémios chorudos, como um de dez mil francos resultante de uma meta volante. A sua ideia é guardar-se para a vitória final. Meu dito, meu feito. A escassos metros da meta, Paulpo Ferreira acelera e chega em primeiro lugar. “Foi uma alegria imensa. Chorámos todos, de dever cumprido.” 

Rui Miguel Tovar