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Talvez o Mundial tivesse mesmo de ser no Qatar
Opinião Desporto 2 min. 30.11.2022
Mundial 2022

Talvez o Mundial tivesse mesmo de ser no Qatar

Mundial 2022

Talvez o Mundial tivesse mesmo de ser no Qatar

Foto: AFP
Opinião Desporto 2 min. 30.11.2022
Mundial 2022

Talvez o Mundial tivesse mesmo de ser no Qatar

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
(...) quando Portugal derrotou o Uruguai por dois a zero, o herói do jogo não foi exatamente Bruno Fernandes.

O Mundial da Vergonha, disse um planeta quase inteiro quando a FIFA escolheu o Qatar para a organização da maior competição futebolística do globo. Só a corrupção explica uma opção que tem tudo para ser ilegítima. É país sem tradição no jogo. É tão quente que o calendário teve de ser alterado para o inverno. E, acima de tudo, é nação onde o abuso dos direitos humanos é institucional.

Os adeptos que viajaram para Doha não entram apenas em estádios, antes em cemitérios de betão armado. Milhares de trabalhadores, muitos deles em regime de escravatura, perderam a vida a edificar uma mão-cheia de monumentos à infâmia. E, mesmo que a bola já ande há tantos dias a rolar no relvado, os relatos de quem avançou deserto dentro lembram-nos constantemente de que as restrições e os abusos fazem parte do quotidiano dos homens e mulheres que habitam no país.

E é por isso que eu acho que, na segunda-feira, quando Portugal derrotou o Uruguai por dois a zero, o herói do jogo não foi exatamente Bruno Fernandes. O número oito da Seleção Nacional fez um jogo brilhante, note-se. A mim fez-me saltar duas vezes de alegria num restaurante em Clausen e reforçou-me a convicção de que este ano é que é.

Mas, antes de qualquer golo, passou de raspão pelos ecrãs o grande herói da jornada. Não era uruguaio nem português, nem sequer era qatari ou iraniano, como o árbitro da partida, Alireza Faghani. O Super-Homem chama-se Mario Ferri e veio de Itália com uma bandeira arco-íris nas mãos, uma frase ao peito a dizer para salvarmos a Ucrânia e outra nas costas a exigir respeito às mulheres iranianas.

Há regras apertadas nos organismos mundiais do futebol quando o assunto é uma invasão de campo. Não se filma, ignora-se. Mas a bandeira LGBT passou colorida pela imagem e toda a gente a reconheceu. Depois ainda há aquele plano em que Faghani, o árbitro, vai pegar num tecido que não é só tecido – é um grito pela liberdade.

Já no jogo de Inglaterra com o Irão tinha-se berrado alto pelos direitos humanos – sobretudo quando os jogadores iranianos permaneceram em silêncio durante o hino, e os ingleses se ajoelharam antes do início do jogo como forma de protesto. Houve jornalistas a envergarem braçadeiras com as cores da diversidade. Bem pode o Qatar ter comprado o silêncio da FIFA, e proibido os gestos e as bandeiras e os gritos. Mas o mundo aprendeu até a gritar-lhes em silêncio – e esse é ruído que nenhum dinheiro, nenhuma brutalidade e nenhum governo consegue calar.

Num jogo do Irão, os homens calaram-se pelas mulheres do seu país. Num jogo arbitrado por um árbitro iraniano, um homem correu pedindo respeito pelas mulheres iranianas. Num jogo que o mundo inteiro viu, um homem correu orgulhosamente com uma bandeira de liberdade num terreno onde a liberdade de ser é proibida – e as relações homossexuais podem valer uma condenação à morte. Então talvez sim, talvez tivesse de ter acontecido no Qatar este Mundial. Porque há um miúdo e uma mulher e um ser humano que viu tudo isto e se sentiu menos sozinho no mundo.

(Grande Repórter)

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