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Olimpíadas de sofá
Opinião Desporto 4 min. 23.07.2021
Tóquio 2020

Olimpíadas de sofá

Tóquio 2020

Olimpíadas de sofá

Foto: Yann Hellers
Opinião Desporto 4 min. 23.07.2021
Tóquio 2020

Olimpíadas de sofá

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Senhoras e senhores, meninos e meninas, por favor não tentem isto em casa. O sofá olímpico é um aparelho difícil e o couching uma disciplina das chamadas non-fitness, amiga do sedentarismo e da camada adiposa. Ready, get set... relax.

A tribuna de honra acolhia os mais altos-dignitários, desde logo sua absoluta majestade - o imperador Naruhito -, que na véspera desta cerimónia, na recepção aos membros do Comité Olímpico Internacional, tinha afirmado com todas as letras que não ia ser tarefa fácil evitar contágios nas Olimpíadas. O imperador do Japão mais não disse que o óbvio: os números apontam já para 67 casos confirmados de covid-19 entre credenciados para evento, entre os quais alguns atletas. Uma sucessão de broncas antecedeu esta cerimónia, uma delas conduziu à demissão do humorista, encenador e director artístico da dita, Kentaro Kobayashi, depois de alguém recordar as suas piadas de mau-gosto sobre o Holocausto, num espectáculo em 1998. 

Isto e a pandemia foram os assuntos mais sérios, tendo de "fait-divers" as 78.95 toneladas (incluindo cerca de 6,21 milhões de telemóveis) de material reciclado que se usou para fazer as 5 mil medalhas olímpicas, a presença de 11100 atletas, 85% dos quais vacinados e, claro, todas as questões de pormenor relacionadas com a eficácia tecnológica das camas anti-sexo, uma estreia nestes JO, a par do baseball, do basquetebol 3x3, do surf, do skate e de uma bateria de protocolos relacionados com o novo coronavírus. 

Se calhar já podemos parar de lhe chamar novo. É um facto que pela primeira vez na longa história das Olimpíadas da era moderna, que começaram em 1896, estas se disputam em ano ímpar. Sob forte escolta policial, havia mais gente à porta do Estádio Nacional de Tóquio do que nas bancadas, que estavam desertas, no estrito cumprimento das normas de distanciamento da mobília.

Quanto mais se aproximava a hora da cerimónia, mais os ânimos se exaltavam. Nos últimos dias tornou-se visível uma vaga contra a realização destes JO em Tóquio, em pandemia. A polícia endurecia o zelo, com cuidado, os manifestantes, perante as câmeras de comunicação social de todo o mundo, diziam ao que vinham, num cartaz, em inglês: "Cancel the Olimpics!" Diziam que ainda não era tarde para que fossem atendidas as suas exigências e que ainda se ia a tempo de evitar um retrocesso de saúde pública, até porque o Japão está longe de ter a situação pandémica sob controlo. Os elementos deste movimento, uma espécie de Stay Away Olimpics, soltaram a revolta quando no estádio soaram as trombetas do apocalipse. Já não havia nada a fazer. Aí vinha ela, a XXXII Olimpíada da era moderna.

Chegou a temer-se o pior: não muito longe dali, uma sul-coreana, com ar de poucos amigos, colocou a flecha no arco, esticando os seus limites até ao queixo. E apontou ao alvo. No estádio, as 206 delegações olímpicas, dentro das suas melhores fatiotas, com as bandeirinhas nacionais numa mão e um telemóvel na outra, preparavam-se para iniciar o desfile, desafiando até os mais acordados. Como é apanágio olímpico, a primeira delegação a desfilar é sempre a da Grécia, a última, é a do anfitrião, para a apoteose, coisa que desta vez não era possível. 

Ainda os JO não tinham começado oficialmente e já An San, atleta do tiro com arco, estabelecia o primeiro recorde olímpico de Tóquio, fazendo 680 pontos, destronando a ucraniana Lina Herasymenko, que em Atlanta, em 1996, tinha fixado este recorde em 673 pontos. Sim senhora, muito bem.

A ver o desfile pela TV (RTP1), perde-se a noção do tempo. Às vezes, parece mesmo uma eternidade. E eis que irrompe pelo estádio a delegação nipónica. Uma sensação parecida à de encontrar por ali el-rei D. Sebastião. Pronto, lá vinham os discursos: Seiko Hashimoto (nada a ver com os relógios), que é ex-atleta e presidente do Comité Organizador dos JO e Paralímpicos de Tóquio, tomou a palavra. João Pedro Mendonça, coordenador das transmissões olímpicas do canal público português, surpreendeu tudo e todos, com uma tradução em simultâneo japonês/português. 

Mas o discurso era longo. Primeiro avisou-nos que o seu japonês não estava muito forte, depois deixou-nos às escuras para lá de dois minutos, apenas com as palavras de Hashimoto, que estava até emocionada. O tradutor voltou, para dizer: "Tenho a convicção de que vão perdoar a falta de sincronismo do meu japonês". Com certeza. Neste momento, ouviu-se distintamente Hashimoto-san a pronunciar a palavra "funaná", o que mexeu imediatamente com a delegação de Cabo Verde, aliás, a maior de sempre em JO (seis atletas). 

Seguiram-se as variedades, antes do momento mais alto da cerimónia, em que o Coro Suginami Junior (representando a Ásia), os únicos que estavam presentes no estádio e, virtualmente, Angélique Kpasseloko Hinto Hounsinou Kango Manta Zogbin Kidjo, cantora do Benin, representando África, Alejandro Sanz, a Europa, John Legend, as Américas, e Keith Urban, uma espécie de Iggy Pop neozelandês, versão "country", representado a Oceania. Tinha anoitecido em Tóquio. Sobre o estádio pairava um globo gigante, como um meteoro de luzes, feito com 1824 drones. 

E surgiram os primeiros acordes de Imagine, versão original de John Lennon & The Plastic Ono Band (de Yoko Ono). O segundo sector da letra calhou a Angélique Kidjo, mais fácil no nome artístico: "Imagine there´s no countries". Por acaso, imagino perfeitamente. Tinha-se poupado imenso na conta da luz e no tédio olímpico que é um desfile para as cadeiras. Pelo menos, visto do sofá.  

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