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A longa marcha dos Olímpicos
Desporto 20 min. 23.07.2021
Tóquio 2020

A longa marcha dos Olímpicos

Tóquio 2020

A longa marcha dos Olímpicos

Foto: AFP
Desporto 20 min. 23.07.2021
Tóquio 2020

A longa marcha dos Olímpicos

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Pela primeira vez os JO disputam-se num ano ímpar, cortesia da segunda pandemia do nosso século. Ao longo da sua história, sobreviveram a duas guerras mundiais e a uma Guerra Fria. São hoje uma máquina de marketing colossal. Uma viagem secular, com início em 1896.

Pode até ser que caia um recorde olímpico a cada prova, que todos os dias se pulverizem recordes do mundo, que os nadadores se sobreponham aos peixes, que os atletas voem mais alto que os pássaros, que a elasticidade desafie de novo a anatomia, que se ergam pesos nunca antes erguidos pela força humana, que os céus de Tóquio sejam atravessados por dardos e martelos olímpicos a distâncias nunca antes alcançadas, que homens e mulheres ultrapassem de novo os seus limites, que se estabeleçam na capital do Japão marcas do outro mundo nas 46 modalidades, incluindo o basketball 3x3, o baseball, o softball, o surf e o skate, que fazem as suas estreias olímpicas.

Aconteça o que acontecer, estes Jogos Olímpicos de Tóquio já estão na História. Serão as olimpíadas da pandemia Covid-19, a segunda do nosso século, até ver, a mais mortífera. Neste momento, em que o novo coronavírus já se tornou um velho conhecido da Humanidade, em Portugal já morreram mais de 17 mil pessoas, na Europa mais de um milhão, no mundo mais de quatro milhões. Enquanto a Covid-19 e as suas variantes continuam a desactualizar estes números negros, com uma infinitude de consequências para os vivos, não se pode dizer que o espírito olímpico esteja nos píncaros. 

Estas serão as Olimpíadas das máscaras, das zaragatoas e do PCR, do confinamento, do isolamento profiláctico, das camas de tecnologia anti-sexo, da sombra da deportação para quem desafiar as regras de saúde pública. Serão os jogos do silêncio, da ausência de aplausos e de público, da alma do desporto. E, pelas mesmíssimas razões, serão provavelmente o evento olímpico mais visionado de sempre, pelo menos os japoneses preveem que sim.

Lá para o futuro, todos nós estaremos um dia nos compêndios da História. Quando o tema for as Olimpíadas, dirão que os jogos de 2020 se realizaram em 2021. O mínimo que se poderá dizer sobre isto é que, pela primeira vez na sua longa história – com duas guerras mundiais e uma Guerra Fria pelo meio, por entre enormes vicissitudes, contrastando com inesquecíveis momentos de glória -, os Jogos Olímpicos se disputam num ano ímpar. A todos os títulos.

Da Antiguidade à Era Moderna

A data mais provável para o início das Olimpíadas da Antiguidade, por óbvio na Grécia Antiga, remontam ao anos de 776 a.C., tendo nascido sob o signo de um armistício. Os jogos de Olímpia cumpriram 293 edições. Surgiram pela guerra e, sob o domínio do Império Romano, pela religião foram condenados ao fim. Seria muito longa a sua espera.

É preciso viajar até ao século XVII para encontrar os primeiros registos para trazer de novo à vida algo semelhante ao que eram as Olimpíadas da Antiguidade, embora, claro, sob uma desejável égide de paz. Tal terá sido tentado na Irlanda, genése do que mais tarde seriam os Jogos Gaélicos. No entanto, seria em França, já em finais do século XVIII, à bolina dos ventos revolucionários que sopravam, que se tentou reeditar umas Olimpíadas – honra ao monsieur Jacques II de Chabanes, senhor de La Palisse, de Pacy, de Chauverothe, de Bort-le-Comte e de Héron -, à francesa. O nome destes jogos ilustravam bem as mudanças políticas e sociais da Revolução Francesa: L´Olympiade de la République. 

Entre 1796 e 1798, os franceses realizaram um sucedâneo anual das Olimpíadas, recuperando a sua denominação e até o seu modelo, adotando algumas “modalidades” dos jogos antigos. A grande inovação acabou por ser a introdução do sistema métrico na competição. Os períodos de revolução pareciam ser férteis no exorcismo dos espíritos olímpicos. Em 1830, ao sabor da independência da Grécia, sobre a espuma do orgulho nacional emergiu o desígnio para que as Olimpíadas se reconciliassem com os pergaminhos da pátria-mãe. Esse projecto, porém, revelou-se inconsequente.

Um 1860, William Penny Brookes, um médico britânico, formou na cidade de Much Wenlock, condado de Shropshire, a Sociedade Olímpica de Wenlock, que por sua vez deu origem aos Jogos Anuais da Sociedade Olímpica de Wenlock, tirados a papel químico da Grécia Antiga. Ano após ano, os “olímpicos” de Wenlock nunca deixaram de realizar-se, tornando-se, aliás, num ex-libris da região, a par do desfiladeiro de Ironbridge e, claro está, a ovelha Shropshire.

Para a História ficou como facto que a fundação dos Jogos Olímpicos da era moderna se deve à perseverança de Pierre de Fredy, aristocrata, historiador e pedadogo parisiense, mais conhecido por barão de Coubertin, que seria fundador do Comité Olímpico Internacional. Os Jogos da I Olimpíada, realizados em 1896, só podiam ser no berço: Atenas. O grande palco dos jogos foi o estádio Panetenaico, um dos mais antigos do mundo, mandado remodelar por ordem do rei Jorge I, que o rebaptizou Estádio Olímpico de Atenas. Não foram um exemplo de verdadeiro espírito olímpico, embora espelhassem os critérios de Coubertin, que não incluiam as mulheres e os atletas negros.

A organização helénica tratou de maximizar as probabilidades das medalhas ficarem em solo grego. Estavam presentes 311 atletas, em representação de 14 países, sendo que 230 desses atletas eram gregos. Embora em número avalassador, estas Olimpíadas domésticas não se traduziram em medalhas de prata (na I Olimpíada ainda não eram atribuídas medalhas de ouro). A comitiva norte-americana não se deixou atemorizar pelo peso da História e da organização, ferindo o orgulho grego com asas de prata. Apesar de todas as diligências para que a primeira medalha das Olimpíadas da era moderna fosse para um atleta autócne, seria o americano James Connoly a inscrever o seu nome nos anais olímpicos, na prova do triplo-salto. 

De derrota em derrota, os gregos foram relegando as suas esperanças para a rainha das provas: a maratona, que se chama assim por unir a distância entre a cidade de Maratona e Atenas. A Grécia teria o seu herói nacional, mas não o que estava previsto, já que a organização tinha manobrado para que fosse outro atleta grego a vencer, o mesmo, soube-se mais tarde, tinha feito parte da prova a bordo de um automóvel. Seria Spiridon Louis, aguadeiro de profissão, a entrar em glória no Estádio Olímpico de Atenas, com 100 mil pessoas a perguntar-se como se chamaria para que pudessem entoar o seu nome.

O evento, à sua maneira, tinha sido um sucesso. Mas o mesmo não se podia dizer da organização grega. De qualquer maneira, o barão de Coubertin já tinha traçado o destino das II Olimpíadas: Paris. As olimpíadas saiam de casa dos pais para casa do senhor barão.


(FILES) This file photo taken on April 28, 2021 shows a general view shows the Olympic rings lit up at dusk on the Odaiba waterfront in Tokyo. - From a historic virus postponement and summer heat fears to unprecedented restrictions on fans, the path to staging the Tokyo Olympics, which begin in nearly one month on July 23, 2021, has been far from smooth. (Photo by CHARLY TRIBALLEAU / AFP)
30 histórias sobre as Olimpíadas
São 30 Olimpíadas e 30 histórias. Contamos uma a cada dia até ao início dos Jogos Olímpicos deste ano, no Japão a 23 de julho.

O século de todas as coisas

Enorme a expectativa, gigante a desilusão. Os JO de Paris, em 1900, foram um fiasco monumental, que deixou periclitante a continuidade do evento. Ainda hoje são conhecidos como os piores JO de sempre. E, há que reconhecer, tiveram ao longo da História dos Olímpicos forte concorrência. E logo na III Olímpiada, em que os jogos fizeram a sua primeira viagem intercontinental. Talvez por isso, o número de atletas presentes em Saint Louis, em 1904 foi reduzidíssima. Registou-se o menor número de delegações na história dos JO: 12 países. Ainda por cima, o evento coincidia com outro: a Exposição Universal, igualmente em Saint Louis, Louisiana. 

Theodore Roosevelt inaugurou os eventos em simultâneo e à distância. E foi o melhor que o presidente norte-americano fez. Os dois eventos geraram bizarras fusões antropológicas, manifestações do mais puro racismo, impróprias para os Direitos Humanos. Se os Olímpicos já estavam em perigo antes de viajar para os EUA, de lá voltaram em agonia. A Grécia, que tinha deixado o tempo correr a seu favor, lançou a sua cartada, quase bem sucedida, de ficar com a organização vitalícia dos JO, sempre a realizar em Atenas.

O COI (na prática, o barão de Coubertin) entendeu que devia prevalecer o sonho de tornar os JO num evento de itinerância global, deixou a responsabilidade nas mãos da cidade de Londres, que em 1908 teria em mãos a tarefa de evitar um golpe de misericórdia olímpica. Londres, porém, não desiludiu. Imbuída do melhor estilo faraónico, construiu um estádio de raiz para as olimpíadas. Os JO, como já era seu apanágio, teve os seus percalços e até os seus conflitos diplomáticos. Mas, enquanto evento, sairam fortalecidos. Em Estocolmo, em 1912, a fasquia estava bem mais alta.

Em Portugal, depois das colectividades nacionais chagarem a vias de consenso com a Sociedade Promotora de Educação Física Nacional, caminhou-se para a constituição do Comité Olímpico Português. Portugal republicano seria o 13º país a integrar o COI. Faria a sua estreia olímpica na capital sueca. Estas Olimpíadas foram verdadeiramente globais. Pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes. Razão pela qual, em 1913, após o sucesso unânime destes JO, se criou o símbolo olímpico. O grande herói das Olimpíadas de Estocolmo foi Jim Thorpe, índio Sioux norte-americano, que venceu o Pentatlo e o Decatlo. A participação portuguesa ficou marcada pela tragédia. Francisco Lázaro untou-se com sebo para resistir ao sol na prova da maratona. Seria encontrado desmaiado no percurso. Seria a primeira fatalidade da História dos JO.

Pelo mais negro dos motivos, as Olimpíadas de 1916, previstas para Berlim, não aconteceriam. Em 1914 eclodira a Primeira Guerra Mundial. O COI cumpriu a mera formalidade de declarar estas Olimpíadas anuladas. Pela primeira vez o barão de Coubertin admitiu publicamente a hipótese de não haver futuro para os JO. Talvez nem ele próprio acreditasse no milagre. Em 1920, com a Europa reduzida a cinzas, Antuérpia foi premiada a contragosto com a organização dos JO do pós-guerra. Alemanha, Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia seria banidos desta Olimpíada. Portugal marcou a sua presença, com 14 atletas, sendo que o seu único feito foi esse. Ao contrário dos 9 milhões de pessoas que perderam a vida na “guerra das trincheiras”, os JO tinham sobrevivido.

Quando os JO regressaram a casa do seu mentor, que já não ia para novo, as nuvens negras do nazismo pairavam na Alemanha. Em 1924, cabia a Paris a tarefa de limpar a péssima imagem que Paris tinha deixado nos JO da viragem do século. O barão de Coubertin não queria abdicar da presidência do COI sem ver as luzes da sua cidade a cintilar no espectro olímpico. Estes JO, que inspiraram o filme Momentos de Glória (ques prestam homenagem a Eric Lidell e Harold Abraham, dois velocistas britânicos extraordinários), tiveram o romantismo proporcional à cidade. E Portugal conquistou a sua primeira medalha, no hipismo. Na prova de obstáculos, os cavaleiros portugueses conquistaram o bronze, feito que repetiu nas Olimpíadas seguintes, em Amesterdão, em 1928, na esgrima. 

Nesta altura, o barão de Coubertin já se tinha aposentado. Consequência: 32 anos depois da I Olimpíada da era “moderna”, as mulheres podiam finalmente participar nos jogos. Também podiam viajar para Los Angeles, em 1932, embora as viagens intercontinentais ainda fossem um obstáculo e os EUA se encontrassem na Grande Depressão. A Los Angeles cabia limpar a imagem primitiva que Saint Louis havia deixado no cenário olímpico, tal como Paris tinha feito com Paris. A Europa não estava recomendável. Em Itália, Mussolini estava no seu apogeu fascista. Na Alemanha, o terror legitimava-se. Em Portugal, Salazar chegava ao poder. Los Angeles transformou a crise num filme de Hollywood e fez destes JO uma manifestação de autêntico espírito olímpico, onde um atleta chegou ao cúmulo de recusar uma medalha por entender que não era merecida. Portugal limitou-se a bater o recorde da comitiva mais pequena de sempre: seis atletas.

Em 1937 morreu o barão de Coubertin. Hitler, eleito chanceler e autoproclamado fuhrer, investiu tudo nos JO de Berlim, os primeiros difundidos pela televisão. Leni Riefenstahl, a cineasta predilecta do regime nazi, encarregar-se-ia de filmar os momentos apoteóticos da supremacia da raça ariana. Um atleta afro-americano, mais rápido que a sombra nazi, inverteu os planos de Hitler no seu covil. Jesse Owens havia de brilhar no lugar mais alto do pódium, sob um silêncio de morte e um mar de suásticas. Portugal, que não contava para este filme, conseguiu no hipismo outra medalha de bronze, pela montada de Domingos Sousa Coutinho, marquês do Funchal. Pelo mais negro do óbvio, as próximas Olimpíadas só se realizariam em 1948.¨


Bob Bertemes é um dos atletas que vai representar as cores luxemburguesas.
Estes são os atletas que vão representar o Luxemburgo nos Jogos Olímpicos
Os Jogos Olímpicos de Tóquio começam em julho Luxemburgo estará presente com 12 atletas em cinco modalidades.

Doze anos do conflito mais mortífero da história da Humanidade (pelo menos 60 milhões de mortos em consequência directa da guerra, perto de 80 milhões de pessoas que sucumbiram à fome e à doença, seis milhões de judeus mortos no Holocausto), sabe-se lá porquê os JO tinham de novo sobrevivido. E, de novo, foi concedida à cidade de Londres, em ruínas, a honra de reestabelecer as Olimpíadas na nova ordem do mundo. Foi um evento consagrado à paz, sob a necessária austeridade do pós-guerra. 

Portugal esteve perto do ouro, mas só chegou à prata, graças a Duarte e Fernando Bello, dupla de velejadores numa embarcação emprestada. O hipismo conquistou outra medalha de bronze. Nestas Olimpíadas, a URSS teve mero estatuto de observador. Nos JO seguintes, em Helsínquia, na Finlândia – onde Portugal conquistou mais uma medalha de bronze na vela, classe Star -, dar-se-ia o choque de titãs olímpicos: EUA versus URSS. uma espécie de teatro experimental no palco olímpico de uma Guerra Fria. 

E à beira da guerra do Vietname, não foi aqui que os EUA perderam a sua hegemonia. Isso só aconteceria quatro anos depois, noutro hemisfério. Em 1956 as Olimpíadas viajaram para Melbourne, Austrália, onde a URSS, de luto pela morte de Estaline, serviu fria a vingança, batendo o pé à hegemonia olímpica norte-americana. A organização dos JO de Melbourne deixou muito a desejar, quase quebrando a regra sagrada do quadriénio. Durante os jogos, a URSS invadia a Hungria. Houve lutas entre atletas dos dois países.

A escolha da cidade de Roma, em 1960, não foi inocente. Há muito que o COI havia perdido a sua inocência. Enquanto a URSS tomava a liderança da corrida espacial, Roma tratava de fazer as suas pazes com a História. Para além das derivas fascistas e de se ter posicionado do lado errado da II Guerra Mundial, nem valia a pena recordar que fora o Império Romano a dar por findas as olimpíadas da Antiguidade. Transmitidos por mais de 100 canais de televisão, Roma teve 84 países presentes, um recorde, que consolidava os JO como evento planetário, onde emergiu um peso-pesado: Cassius Clay. 

E os Olímpicos rumaram, finalmente, para a Ásia, para a cidade de Tóquio, em 1964, um ano após o assassinato de JFK. Estes seriam os jogos mais caros de sempre, onde os EUA venceram e a URSS conquistou mais medalhas, com o Japão num honroso terceiro lugar, que não limpou a honra dos atletas da casa. Muitos deles, cometeram “harakiri”. Com o mundo em convulsão (em Paris, o Maio de 68, em Praga, a “Primavera”, no Médio Oriente o caos, em Portugal, a guerra colonial e o teatro para esconder a consequência da queda da cadeira de Salazar), em 1968 o COI refugiou as olimpíadas no Novo México, mais de dois mil metros acima da linha de água. Um fiasco, cheio de recordes do outro mundo.

Terror em direto

Em 1969, a pegada do Homem e uma bandeira americana em solo lunar tinham proclamado o grande vencedor da corrida espacial. Os EUA, contudo, estavam à beira de sofrer a mais pesada das derrotas no Vietname, onde chovia Napalm. Nixon afundava rumo ao escândalo final da sua presidência: o Watergate. Um pouco por toda a Europa vigorava a lei da bomba. No Reino Unido, o IRA. Em Espanha, a ETA. Em Itália, as Brigadas Vermelhas. Na República Federal da Alemanha, a Baader-Meinhof. Impunha-se a violência como uma espécie de moda. Nada como a interminável história do tão sangrento como o conflito israelo-palestiniano, que havia de escrever um capítulo sangrento nos JO de Munique, os primeiros na Alemanha depois da grande encenação nazi de 1936. 

Na noite de 4 de Setembro de 1972, operacionais do Setembro Negro (facção armada da OLP) entraram na aldeia olímpica, espalhando o terror, que acabou num banho de sangue, em directo na tv. Numa operação de resgate atabalhoada, no aeroporto de Furstenfeldbruck, em Munique, os terroristas acabariam por matar os reféns (11, no total), a polícia acabaria por abater os terroristas, um polícia alemão foi morto. Mas, estes J, onde Carlos Lopes teve estreia azarada, não foram interrompidos. O terrorismo escrevera com sangue a página mais negra dos olímpicos. Nada seria igual.

Algo semelhante se temia em Montreal em 1978, de onde Portugal, uma das mais jovens democracias do mundo, trouxe duas medalhas de prata: Carlos Lopes, nos 10 mil metros e Armando Marques (atirador) no fosso olímpico. O Canadá teve uma organização desastrosa, que culminaria com o boicote de 39 países, na maioria africanos, em protesto com o regime de “apartheid” na África do Sul. Entre muitos erros, o COI convidou a Nova Zelândia, que um ano antes havia furado um boicite internacional á África do Sul, para os JO, provocando o primeiro boicote em massa dos jogos. 

Nestes JO, as mulheres tiveram de ser submetidas a uma bizarria: um teste de verificação de género. Não se pensava ser possível acontecer novo boicote, mas os JO de Moscovo, em 1980, provariam o contrário. A URSS tinha invadido o Afeganistão. E uma enorme vaga diplomática, liderada pelos EUA, fizeram o maior boicote de sempre. 65 países não estiveram presentes em Moscovo. Nunca a URSS teve uma vitória tão fácil nos olímpicos. Ainda assim, cairam 34 recordes mundiais.

Em 1984, as Olimpíadas saltaram da Cortina de Ferro para o outro lado da Guerra Fria, com uma presença improvável: a China. De novo, os EUA estavam na condição de anfitrião, Los Angeles na condição de repetente. Os EUA decidiram quebrar recordes e convenções. Pela primeira vez, um evento olímpico colheu patrocínios oficiais e deu lucro, quebrando-se igualmente o velho mito do amadorismo. Foram, decididamente, os JO das estrelas, onde um português brilhou alto. Portugal, com 38 atletas para 11 modalidades, teve a melhor prestação de sempre. Carlos Lopes concretizou o sonho de ganhar o ouro na maratona. Rosa Mota, igualmente na maratona, trouxe a medalha de bronze, o mesmo conseguindo António Leitão nos 5 mil metros. 

Portugal chegava finalmente ao ouro. O que, aliás, se repetiria nos JO seguintes, em Seul (Coreia do Sul). O ano olímpico de 1988 pertenceu por inteiro a Rosa Mota, com a vitória na maratona. Sobre Seul pairava o medo de um atentado. Mas a única bomba foi a de Ben Johnson, velocista canadiado que bateu o recorde do mundo dos 100m movido a esteróides anabolizantes. No mundo, pairava outro fantasma: a SIDA.

Desde 1984, os Olímpicos tinham-se transformado numa colossal máquina de marketing. Espanha colheu estes ventos nos JO de Barcelona, em 1992. Tinha em Madrid a capital europeia da cultura, em Sevilha a Exposição Universal e, em Barcelona, o maior evento desportivo do planeta, onde Portugal teve presença apagada. Ao contrário das estrelas da NBA, que distribuiram classe e autógrafos. Para espanto de todos, em 1996, os JO regressaram aos EUA. Atlanta, porém, deixou de novo uma péssima imagem. Estes foram considerados os jogos do “chauvinismo all-american”. No mesmo ano em que a polícia deteve o Unabomber, Atlanta sofria um atentado bombista, com duas vítimas mortais. O ouro sorriu pela terceira vez a Portugal. Fernanda Ribeiro venceu os 10 mil metros. À vela, chegou igualmente de Atlanta uma medalha de bronze.

À bolina da viragem do milénio, os JO de Sidney do ano 2000 foram uma verdadeira festa olímpica. O próprio COI utilizou o adjectivo “inesquecíveis”. Nuno Delgado, no judo, e Fernanda Ribeiro, no atletismo, trouxeram o bronze. Com o mundo mergulhado em guerras, da Austrália chegou um exemplo de verdadeira comunhão olímpica, que em 2004 regressaria, para júbilo grego, aos seus antepassados. A organização dos JO de Atenas esteve longe de exemplar, mas foram os JO mais vistos de sempre (até então): 3,9 mil milhões de pessoas. À boleia da internet os Olímpicos tornavam-se verdadeiramente globais. Os heróis portugueses foram Francis Obikwelu, que conquistou uma medalha de prata nos 100m, Rui Silva, que alcançou o bronze nos 1500m, ainda o ciclista Sérgio Paulinho, que fez uma prova épica nos 224 km´s de estrada, conquistando a medalha de prata.

Em 2008, seria a vez de Pequim provar a sua organização, já que a China se demonstrara já uma sólida potência olímpica. Pequim fez o maior investimento de sempre numas olimpíadas: 42 mil milhões de dólares, criando infraestruturas como cogumelos. A China abriu uma janela imensa ao mundo: 4,7 mil milhões assistiram a estas olimpíadas, onde Usain Bolt se tornou o homem mais rápido do planeta. Nélson Évora conquistou o ouro no triplo salto e Vanessa Fernandes a medalha de prata na dura prova de triatlo. 

Em 2012, Londres fez de novo História. Pela primeira vez nas olimpíadas, todas as delegações nacionais eram compostas de homens e de mulheres, incluindo a Arábia Saudita. Isabel II participou na abertura dos jogos. A neta ganhou uma medalha de prata. Portugal, outra, em K2 (canoagem). Michael Phelps, nadador norte-americano, tornou-se no atleta olímpico mais medalhado de sempre (19 medalhas). Oscar Pistorius foi o primeiro atleta biamputado a participar nos JO, correndo com próteses de fibra de carbono.

As últimas Olímpiadas, antes de uma anormal paragem de cinco anos, decorreram no Rio de Janeiro, em 2016, desde logo ensombradas por um enorme escândalo: a Rússia tinha há largos anos um programa nacional de dopagem no atletismo. A Rússia esteve para ser banida destes jogos, 117 atletas seriam excluídos. Paulatinamente, os EUA ultrapassaram a milésima medalha olímpica. Portugal enviou para a cidade maravilhosa a segunda maior delegação de sempre (92 atletas, para competir em 16 modalidades). No entanto, só a judoca Telma Monteiro conseguiu uma medalha de bronze. Tóquio segue dentro de momentos.

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