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Stélvio Cruz: “Já olham para nós com mais respeito”
O jogador do F91 Dudelange confia na passagem à fase de grupos da sua equipa.

Stélvio Cruz: “Já olham para nós com mais respeito”

Foto: FErnand Konnen
O jogador do F91 Dudelange confia na passagem à fase de grupos da sua equipa.
Desporto 11 min. 30.08.2018

Stélvio Cruz: “Já olham para nós com mais respeito”

Antes do jogo desta tarde, relativo à segunda mão da Liga Europa frente ao Cluj, na Roménia, decisivo para a entrada na fase de grupos da competição, o médio do F91 Dudelange falou ao Contacto da importância do encontro e da vontade que todos no clube têm de fazer história no futebol luxemburguês. Aborda ainda as fases da sua carreira carreira e defende que o Luxemburgo é um país que dispõe de condições para ter um campeonato profissional.

Como está o seu ânimo antes do jogo de amanhã (quinta-feira) frente ao Cluj, na Romémia, episódio que poderá ficar na história do clube e do futebol luxemburguês?

Confiante. Depois do excelente resultado que conseguimos no jogo da primeira mão, em casa, acredito plenamente que temos fortes possibilidades de eliminar o Cluj e alcançarmos um feito inédito.

Após a importante vitória por 2-0 na semana passada, acredita que a equipa vai conseguir chegar à fase de grupos da Liga Europa?

Naturalmente que sim. Esse é o desejo de todos os jogadores, dirigentes e simpatizantes do clube. Diria mesmo que até de todo o país. Após o extraordinário trajeto que realizámos até aqui, é fundamental conseguirmos o apuramento. É um momento histórico para o clube e para o futebol luxemburguês. No entanto, temos a consciência de que ainda nada está ganho. Hoje em dia, no futebol, tudo pode acontecer e por isso é importante estarmos preparados para um jogo extremamente difícil e que vai exigir o máximo de cada um de nós, individual e coletivamente. Se falharmos esta oportunidade, muito dificilmente surgirá outra semelhante nos próximos anos. Temos de ’morrer’ em campo, como se costuma dizer. Dar tudo e jogar para ganhar porque quem joga para empatar, normalmente acaba por perder. Portanto, como fizemos até aqui, vamos entrar como o fazemos em todos os jogos: para ganhar! Não podemos mudar a nossa filosofia, sob o risco de deitar tudo a perder.

A que se deve esta excelente campanha europeia do F91 Dudelange com vitórias convincentes frente aos campeões kosovares do Drita, com os polacos do Légia Varsóvia e agora ante o Cluj?

Essencialmente à qualidade do grupo, que é muito boa, e que tem vindo a ser reforçada nos últimos anos de forma significativa. O núcleo do grupo, que já se conhece muito bem, tem exercido grande importância e impacto nos resultados. Os jogadores mais velhos na equipa têm desempenhado um papel fulcral na integração dos mais novos e no equilíbrio na equipa, sem esquecer, obviamente, o importante trabalho do treinador. Ele tem o mérito de ter construído uma equipa compacta, disciplinada, com dinâmina positiva e um modelo de jogo que se adapta perfeitamente às nossas características. Outra das razões deste sucesso tem sido, também, o grande investimento por parte dos dirigentes para tornar o clube cada vez mais competitivo em todos os aspetos. Não somos o melhor clube e a principal referência do futebol luxemburguês por acaso.

Qual o estado de espírito que se vive na equipa e no clube em geral?

Muito bom e de grande confiança. Existe, naturalmente, uma grande euforia que é vivida por todos devido aos excelentes resultados e não podemos esconder isso. Estamos a recolher os frutos de um trabalho que tem sido desenvolvido com grande seriedade e competência. Agora, queremos passar a outro patamar qualitativo. Temos consolidado a nossa posição de campeões a nível interno, mas falta-nos entrar na ’roda’ europeia com maior assiduidade e legitimidade. Depois da eliminação do Legia, a vitória contra o Cluj catapultou-nos para as primeiras páginas de muitos jornais desportivos por essa Europa fora. Já olham para nós de forma defirente, com mais respeito. Essa visibilidade é fundamental para alicerçar a nossa posição dentro e fora de portas. Estamos numa fase fundamental de crescimento da vida do clube e não podemos desperdiçá-la. Não podemos dar passos atrás, temos de assumir definitivamente as nossas ambições.

Tem sido um jogador muito influente na manobra da equipa neste início de época, inclusivamente ao apontar alguns golos decisivos. A que se deve esse seu bom momento de forma?

Ao trabalho que tenho vindo a desenvolver e a uma grande estabilidade emocional e familiar. Por outro lado, sinto-me completamente adaptado à vida do país e às particularidades do campeonato luxemburguês. A estabilidade familiar é muito importante para mim, pois assim posso focar-me apenas em treinar e jogar o melhor possível. Neste momento, as coisas estão a correr muito bem e espero que possam continuar assim por muito tempo.

Stélvio Cruz, aqui frente aos romenos do Cluj.
Stélvio Cruz, aqui frente aos romenos do Cluj.
Foto: Christian Kemp

Até que ponto a ausência do guarda-redes Jonathan Joubert, que sofreu uma fratura na perna direita no jogo da primeira mão, pode influenciar o resultado na Roménia?

Vamos ver. Essa é uma questão que muitos colocam. Todos sabem que Jonathan Joubert é o nosso capitão e um jogador fundamental para a equipa em todos os aspetos. É calmo, tem muita experiência e transmite grande segurança, mas o Joe Frising é, também, um bom guarda-redes como se viu durante toda a segunda parte com o Cluj, após a lesão do ’Jona’. No futebol, por vezes, isto acontece e temos de estar preparados. O azar de uns é, por vezes, a sorte de outros. Ele tem treinado bem, tem o apoio incondicional de toda a equipa e do treinador. Agora, cabe ao Joe agarrar esta oportunidade e fazer um grande jogo que poderá lançá-lo definitivamente.

Acredita que a goleada sofrida no domingo frente ao Mondorf (1-4) possa afetar a equipa, embora tenham atuado os jogadores menos utilizados?

Espero que não. São duas competições diferentes e convém não misturar as coisas agora, até porque a derrota frente ao Mondorf aconteceu num contexto algo particular, isto sem retirar o mérito ao adversário. A grande maioria dos habituais titulares ficou de fora, é verdade, mas os jogadores que entraram em campo têm tanta qualidade como os que jogam com maior regularidade. Talvez não devesse ser assim, mas o foco prioritário, neste momento, é o jogo em Cluj e o que ele pode significar para nós e isso pode ter influenciado o desempenho de alguns... Sofremos duas derrotas no campeonato e isso, realmente, não é habitual acontecer, mas acredito que vamos conseguir recuperar os pontos e renovar o título.

Começou a jogar em Portugal, passou por Angola, seguiu-se o Chipre e agora o Luxemburgo. Fale um pouco do seu percurso.

Comecei a jogar em Braga. Por causa da guerra, os meus pais deixaram Angola, onde nasci, e foram para Lisboa. O meu pai jogava andebol no Belenenses, sagrou-se campeão e depois mudou-se para Braga com toda a família e foi lá que fiz toda a minha formação futebolística. O meu início foi bastante promissor. O meu pai queria que eu jogasse andebol, mas eu só via o futebol. Joguei em todas as seleções portuguesas até aos sub-21 e depois subi a sénior, onde joguei diversas vezes na equipa principal. Depois, fui para a União de Leiria. As coisas até começaram a correr bem, mas depois acabei por jogar pouco e resolvi sair. Entretanto, Angola pediu-me para representar o país [onde nasci] no Campeonato Africano das Nações (CAN) e eu fui. As coisas correram bem e surgiram vários convites para jogar no campeonato angolano. Representei o 1° de Agosto, Libolo e Recreativo de Cáala, mas agora reconheço que cometi um grande erro. Quando se deixa a Europa é muito mais difícil regressar. Era miúdo e tinha a cabeça dura, não ouvia ninguém... Entretanto, a minha mulher não se adaptou à vida em Angola e, quando surgiu a oportunidade de jogar em Chipre, não hesitei. Lá, encontrei um bom grupo de jogadores, com muita qualidade. Muitos deles eram experientes e já tinham passado pelo campeonato português. Mas, infelizmente, deixaram de pagar os salários e foi então que recebi o convite do Luxemburgo em 2013.

Foi difícil a adaptação ao campeonato luxemburguês?

No primeiro ano foi mais complicado. Tinha o estatuto de ’jogador transferido’ e fiquei algumas vezes de fora. Mas depois, a partir da segunda época, as coisas foram correndo cada vez melhor e agora sinto-me perfeitamente integrado e a jogar bem.

Como é a sua relação com os colegas e o treinador?

Muito boa com todos eles. O balneário é bom, os jogadores dão-se bem, e até sinto que sou uma espécie de referência para grande parte deles. Com o treinador, também. É uma relação com base no respeito mútuo. Falamos abertamente de tudo e sinto uma grande recetividade da parte dele quando por vezes dou a minha opinião sobre assuntos ou sugestões que podem trazer melhorias ao bom funcionamento da equipa. Posso mesmo dizer que nunca tive uma relação tão próxima com um treinador como tenho com este.

Por que razão lhe chamam ’Maestro’?

Isso foi uma alcunha que o anterior diretor desportivo me colocou. Talvez pela minha envergadura física, mas também pela forma como jogo e na posição que desempenho em campo (médio defensivo) que me permite ter grande parte do controlo do jogo.

O melhor e o pior do Luxemburgo?

O melhor são as excelentes condições de vida que proporciona às pessoas. O pior é, sem dúvida, o clima.

Apesar da evolução que tem sofrido o futebol luxemburguês nos últimos anos, o que falta ainda para chegar ao nível da Liga portuguesa, por exemplo?

Investidores a sério que acreditem num campeonato mais competitivo. Penso que o Luxemburgo, apesar de ser um país pequeno, dispõe de condições para ter um campeonato profissional de futebol e isso ficou provado aquando dos nossos últimos confrontos na Liga Europa frente aos campeões do Kosovo, Polónia e Roménia. Todos puderam constatar que o nosso nível é muito semelhante ao deles. É claro que nunca chegará ao patamar das grandes potências europeias, mas se as pessoas tiverem vontade, poderemos, a breve prazo, contar com um campeonato profissional de bom nível. São necessários melhores estádios e infraestruturas, mas o país pode responder positivamente a todos esses desafios, até porque a qualidade dos jogadores das principais equipas já é bastante razoável. Se os clubes reforçarem o trabalho a nível da formação, elevarem os níveis de exigência, contratarem mais treinadores competentes e formarem os dirigentes de forma adequada, como a aconteceu, por exemplo, na Islândia, tenho a certeza que o Grão-Ducado ainda pode vir a dar que falar. Todos ficariam a ganhar, inclusivamente a própria Federação Luxemburguesa de Futebol.

Em que divisão acha que o F91 Dudelange poderia jogar em Portugal?

Na primeira Liga, sem dúvida. Acredito que excetuando as melhores quatro, cinco equipas portuguesas, poderíamos jogar com as outras de igual para igual e até mesmo em outros campeonatos também, como no belga por exemplo. O futebol luxemburguês tem evoluído bastante nos últimos anos. As três ou quatro melhores equipas já podem olhar muitas outras de campeonatos estrangeiros olhos nos olhos. Tenho plena convicção do que estou a dizer.

Depois de quatro épocas no Luxemburgo não sonha regressar a uma Liga Profissional, sobretudo depois das boas exibições que tem assinado durante as competições europeias?

Tenho 29 anos e continuo ambicioso, como sempre. Como todos os jogadores tenho o desejo de jogar nos melhores campeonatos, mas sei que depois de quatro anos no Grão-Ducado não será fácil. A vida está estabilizada aqui e para sair teria de ser bastante vantajoso para mim e a minha família. Caso contrário, prefiro continuar onde me sinto muito bem.

Já pensou no que vai fazer quando terminar a carreira?

Ainda não. Pretendo continuar jogar enquanto tiver prazer. Talvez mais uns cinco ou seis anos. Depois, terei tempo para decidir o que fazer. Acredito que, muito provalvelmante, continuarei ligado ao futebol, mas em que função ainda não sei. Talvez treinador, não sei, não estou muito preocupado com isso agora. Neste momento, o meu foco está completamente no jogo frente ao Cluj e na consequente passagem à fase de grupos da Liga Europa.

Álvaro Cruz

Perfil

- Stélvio Rosa Cruz nasceu em Luanda, Angola, a 14 de Janeiro de 1989 e chegou a Portugal com três anos. Filho de um jogador de andebol, instalou-se em Lisboa com os pais, mas depois foi viver para Braga, cidade para a qual o pai se transferiu depois de se ter sagrado campeão com o Belenenses. Foi na capital minhota onde fez toda a sua formação futebolística, tendo representado os ’arsenalistas’ em todos os escalões etários e também a equipa principal. Domingos Paciência, treinador do Sp. Braga na altura, não contava com o longilíneo médio defensivo, que depois rumou até Leiria, para defender as cores da União local na primeira Liga portuguesa. Seguiu-se uma passagem por Angola, cuja seleção representou em 2010 no Campeonato Africano das Nações (CAN) e pelas equipas do Primeiro de Agosto, Libolo e Recreativo de Caála, no Girabola. Regressou à Europa onde alinhou uma época no Chipre defendendo as cores do Alki Larnaca e ingressou no F91 Dudelange em 2013, equipa com a qual conquistou três títulos de campeão e duas taças do Luxemburgo. Foi 8 vezes internacional ’A’ por Angola e 11 vezes pelos sub-21 de Portugal.

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Dany Mota