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Sporting vs Porto, um clássico do cinema
Desporto 6 min. 02.01.2020 Do nosso arquivo online

Sporting vs Porto, um clássico do cinema

Filme o Leão da Estrela

Sporting vs Porto, um clássico do cinema

Filme o Leão da Estrela
Foto: DR
Desporto 6 min. 02.01.2020 Do nosso arquivo online

Sporting vs Porto, um clássico do cinema

O ano bissexto abre com um jogo grande em Alvalade e lembrámo-nos de outros tempos de pura comédia e ficção xpto

Costuma dizer-se que uma imagem vale mais que mil palavras. Até é verdade, mas não no caso do “Leão da Estrela”, um filme português de 1947, que conjuga humor com futebol de forma simples e engraçada. Naqueles 121 minutos de acção, não há cá transpiração. É cem por cento de inspiração. Comédia pura, portanto. Sem esforço, como deve ser. Os diálogos são geniais. O filme, também. António da Silva, idem. Sportinguista na vida real e também nesse filme, é o Senhor Anastácio que vai ao Porto para a casa dos pais do namorado da sua filha e faz-se passar por rico. O intuito é ver o clássico no Lima, o estádio portuense para os grandes jogos, alugado pelo FC Porto ao rival de então, o Académico do Porto.

 Outra cena inolvidável. Ainda em Lisboa, e já com um bilhete na mão, António Silva levanta-se do sofá e começa a imaginar o golo do Sporting no Porto. O seu jogo de cintura é impressionante. Podia muito bem ser o sexto violino. “A bola é posta em jogo. Os nossos avançam como leões. Canário recebe a bola e passa a Travaços, Travaços dribla Guilhar e passa a Vasques, Vasques recebe e passa a Albano. Albano passa a Jesus Correia. Jesus Correia centra e Peyroteo, completamente isolado, corre para a área e mete golo.” Nesse momento, dá um pontapé no ar e acerta na mesa, derrubando tudo o que está em cima dela. É o clássico a movimentar as massas. No Estádio do Lima, as imagens de jogo são de arquivo (moeda ao ar com os capitães Guilhar e Manuel Marques, o do “Lenço”, o “Manecas”; os 22 jogadores com os braços esticados a fazer a saudação fascista) e constrói-se uma narrativa ficcional, emque o Sporting ganha ao FC Porto por 2-1 – este resultado não faz então parte da comédia. Ou faz? O que interessa são os “góis”, como diz um adepto dos portistas.

 Os góis. Pois é, os góis. Caso verídico que mais se parece com ficção: a 18 de Outubro de 1975, é a 7.ª jornada da liga, nas Antas, entre 5.º e 6.º classificados, empatados em pontos (oito), com três vitórias, dois empates e uma derrota. O Sporting de Juca começa bem melhor, com golos de Chico (9’) e Manuel Fernandes (15’). O FCP do jugoslavo Branko Stankovic reduz por Murça (18’). Na segunda parte, o caso do jogo aos 57 minutos. Gomes remata, Damas não se mexe e a bola vai ao lado. Assim de repente, os portistas começam a festejar. Mas como? O árbitro Alder Dante (Santarém) sanciona o golo. “Fui levado, mas dei-me conta após o jogo de que tinha sido enganado. Na altura, lembro-me perfeitamente de ter perguntado e o Gomes disse-me que tinha sido ele a marcar o golo. O Oliveira disse-me o mesmo. É pena que os dois só tivessem reconhecido a ilegalidade quando ambos jogaram no Sporting.”

 Repete-se a pergunta, mas como? É um golo fantasma, porque a bola rematada por Gomes entra realmente na baliza de Damas, por obra e graça do apanha-bolas José Maria Ferreira de Matos. A acção é rápida e o nevoeiro atrapalha Alder Dante, que consulta o fiscal-de-linha Baptista Fernandes e este lhe diz que é golo. Ou seja, o FCP empata 2-2 sem saber ler nem escrever. “Escrevi uma carta ao Conselho de Arbitragem”, justifica Alder Dante, “pois percebi que tinha colocado a pata na poça. Levei uma repreensão, a única que tive na carreira.” Quando o árbitro aponta para o meio-campo, escusado será dizer que a equipa toda do Sporting cai-lhe em cima e é necessária a intervenção do treinador Juca para pôr cobro a uma paragem de cinco minutos. Moral da história, 2-2.

 Calma, há mais: o Sporting está reduzido a dez (Valter é expulso por palavras). E agora? Aos 74 minutos, há um canto para o Sporting e Baltasar aproveita para fixar o 3-2. É a vitória (improvável e grandiosa) do leão. Nem assim o Sporting deixa o caso do golo fantasma cair no esquecimento. Damas é o mais inconformado. “O árbitro cometeu dois erros clamorosos: validar um golo que um apanha-bolas me marcou e expulsar injustamente um digno profissional de futebol. É um facto que houve alguém do Sporting a gritar ‘palhaço’ para o árbitro, mas não foi o Valter.” O próprio Valter está incrédulo. “Juro pela saúde do meu filho que não chamei qualquer nome ao árbitro. Só lhe disse para consultar o fiscal de linha. Ele que seja sincero e escreva no relatório aquilo que se passou.”

 Coincidências das coincidências, o Sporting viaja dois dias depois para Budapeste, onde joga com o Vasas para a Taça UEFA. Quem encontra no aeroporto? Esse mesmo, Alder Dante, a caminho da RFA, como fiscal-de-linha do Duisburgo-Levski Spartak, também da Taça UEFA. O sportinguista Tomé tem a palavra. “Aquilo foi pacífico, tranquilo, mas as bocas foram mais que muitas. Como íamos no mesmo voo, o Alder Dante ouviu das boas. Quem se sentou ao lado dele foi o José Mendes [defesa-central] e sempre que alguém passava por ali dizia-lhe [ao jogador] ‘epá, sai daí, não fales com o homem’”.

 Por falar nisso, quem é afinal o homem do golo? Chama-se José Maria Ferreira de Matos. Muitos anos depois desse golo, atribuído a Gomes, é empregado de mesa no restaurante Império, em Lisboa, e conta tudo em entrevista. “Lembro-me do intenso nevoeiro que estava. Antes do jogo, o «chefe» dos apanha-bolas, o Valter Leitão, distribuiu-nos pelo campo e mandou-me para trás da baliza. Recordo-me que o Sporting começou a ganhar. Na segunda parte, a vantagem continuava do Sporting, mas nunca pensei em fazer o que acabaria por fazer. Não sei bem como a bola chegou a mim, mas sei que ela veio ter comigo e vi o Gomes a pôr as mãos na cabeça. Sem pensar, dei uns passos e fui até ao canto da baliza, meti a bola lá dentro e fugi para o mais longe possível. Então, vejo o Damas a ralhar comigo, mas eu pirei-me para trás do ‘bandeirinha’; ele já tinha a bandeirola no ar a assinalar o golo. Foi quando os jogadores do Sporting correram para o árbitro, a reclamar. Aí o juiz, que julgo não ter visto bem o lance, começou a mostrar cartões.”

 Xiiiiii, que cambalacho. “Eu só queria que não me topassem. Feliz, ou infelizmente, o árbitro marcou e eu saí impune. Tenho pena do Damas, que não teve culpa nenhuma e sofreu um golo ilegal. Por isso, gostava de estar com o árbitro desse clássico para lhe confessar que fui mesmo eu a marcar o golo e não o Gomes.” E o Gomes, alguma vez o viu? “Uns anos depois encontrei-o num Centro Comercial do Porto. Perguntei-lhe, sem ele saber quem eu era, se tinha sido ele a marcar o golo; ele disse que sim e cada um seguiu o seu caminho. Mas acontece a mesma coisa quando o jogador mete a bola com a mão; se lhe perguntarem, ele dirá, quase sempre, que foi com a cabeça. Neste caso, eu sei que não foi o Gomes que a meteu. Digo-lhe isso nos olhos dele, ou nos olhos de quem quer que seja.”

Rui Miguel Tovar

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