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Sporting, o campeão por excelência
Desporto 7 min. 12.05.2021

Sporting, o campeão por excelência

Sporting, o campeão por excelência

LUSA
Desporto 7 min. 12.05.2021

Sporting, o campeão por excelência

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Solta-se o grito da ordem 19 anos depois, agora com um treinador jovem (Rúben Amorim, 37 anos) e três sub20 no onze ideal. A crónica do comenatador desportivo do Contacto, Rui Miguel Tovar.

Nuno Mendes, 18. Tiago Tomás, 18. Gonçalo Inácio, 19. O Sporting é o primeiro campeão português com três sub20 no onze ideal. O feito, por si só, é inesquecível. E tem o mérito maiúsculo do olho clínico de Rúben Amorim, o terceiro treinador mais jovem a sagrar-se campeão nacional, aos 37, só atrás de André Villas-Boas (33, pelo Porto em 2011) e Juca (também 33, pelo Sporting em 1962). Mais uma vez, o feito, por si só, merece os mais rasgados elogios. De uma assentada, o Sporting promove a tão badalada formação e celebra o fim de uma seca de 19 anos. E se a isso acrescentarmos o termo invicto, está o caldo entornado. No bom sentido, claro.

 Invicto, isso mesmo. Único grande do futebol português sem qualquer título de campeão sem derrotas (Benfica é o primeiro em 1973, Porto imita-o em 2011 e repete a proeza em 2013), o Sporting acumula 25 vitórias e sete empates. Faltam 180 minutos para atingir uma meta completamente inesperada no início da época.  Há a visita à Luz, no sábado, e a recepção ao Marítimo, na quarta-feira. Se pontuar nos dois jogos, o Sporting é o primeiro campeão português invicto numa 1.ª divisão com 18 equipas (os outros três casos remontam a campeonatos com 16 equipas, menos duas que a actualidade). É espantoso, e inédito.

 Antes de chegar a esse ponto, o Sporting festeja o título à grande e à portuguesa. Como convém. Porque sim, porque o grito de campeão está preso desde 28 Abril 2002 e porque é um conto de fadas, se avaliarmos o seu plantel em comparação com o do Porto e, sobretudo, o do Benfica. Sem esquecer a disparidade dos números nas contratações. O Sporting é claramente o parente pobre, o terceiro grande, quase quase quase a ser ultrapassado pelo Braga – se analisarmos tão-só o comportamento desportivo, o Braga até acaba in extremis à frente do Sporting em 2019-20.

 Com tanta festa do variado mundo sportinguista, há muito material para escalpelizar. Por isso mesmo, dividimos o texto em três. Primeiro, o último título de campeão em ano ímpar (1953). Depois, o último título em ano de Europeu (2000). Finalmente, o último título tout court (2002).

 Recuemos até 1953, ano em que o tri chega com alguma naturalidade face à superioridade incontestável de uma equipa com grandes intervenientes como Carlos Gomes, Passos, Juca, Vasques e Travassos. O Sporting respira saúde e conquista o título nacional no meio de duas mágoas: a saída de Jesus Correia e a morte do presidente Ribeiro Ferreira. Em Setembro, a direcção lança um ultimato a Jesus Correia: ou futebol ou hóquei em patins. A 10 Outubro, o jogador opta por desistir do futebol. ‘Tenho 28 anos. Mercê de uma vida muito recatada, foi-me possível até esta idade jogar futebol e hóquei sem quebra de forças. Os anos, porém, contam: 14 ao serviço do hóquei, oito no futebol. Quase todos os dias, às primeiras horas da manhã, treino de futebol. Depois o emprego, que nunca quis nem quero deixar. À noite, hóquei, jogo ou treino. Tive de olhar pelo meu futuro e descanso mais no hóquei." A 13 Fevereiro, a morte do presidente choca o clube. O Sporting joga de luto, goleia o Porto por 5-1 e acumula uma série de 11 jogos sem perder, uma série travada por um bis de Faia, do Barreirense (2-1). A coroação chegou a 20 Abril, na penúltima jornada, com um golo de Martins ao Vitória FC.

 Avancemos até 2000. Ninguém esperava o título de campeão, 17 anos depois. Apesar da sonante contratação do guarda-redes dinamarquês Peter Schmeichel, o arranque é tudo menos prometedor, com três empates nas primeiras seis jornadas (Santa Clara, nos Açores, Estrela, em casa, Gil Vicente, em Barcelos). Sai o treinador italiano Giuseppe Materazzi, cujas indicações nos treinos e nos jogos fazem-se traduzir por Ayew, ex-Lecce. Quando Augusto Inácio é eleito para o seu lugar, o Sporting está a quatro pontos do líder Benfica e a Taça UEFA já é passado, dado o desastroso 3-0 vs Viking, na Noruega. Daí para a frente, o Sporting só perde três vezes (Alverca, Porto e Benfica), reforça-se em Dezembro com André Cruz, César Prates mais Mpenza e aproveita o cansaço do FC Porto, provocado pela boa campanha na Liga dos Campeões. Na última jornada, o Sporting goleia o Salgueiros no Vidal Pinheiro por 4-0 e viaja até Lisboa em completa euforia.

 Passam-se só dois anos. Um treinador (Laszlo Bölöni), uma figura (João Vieira Pinto) e um goleador (Mário Jardel) transformam o Sporting e proporcionam o último título de campeão nacional para o grémio de Alvalade. O arranque é animador, 1-0 ao Porto no José Alvalade, num clássico cheio de incidentes: Sá Pinto lesiona-se aos 22’ e Costinha é expulso aos 37’ com duplo amarelo antes do golo de Niculae (69’). O romeno corre para os braços do compatriota Bölöni e tudo corre às mil maravilhas. Até à jornada seguinte. No Restelo, Marco Aurélio defende um penálti de Niculae aos três minutos, num lance bastante contestado pelo técnico dos azuis Marinho Peres, expulso por Martins dos Santos. Sem treinador, o Belenenses guia-se pelos golos de Neca (2) e Marcão, intercalados pelo vermelho a Niculae. À terceira jornada cai o Carmo e a Trindade com um golo de Zarate no 1-0 do Alverca no José Alvalade, onde João Pinto e Rui Jorge são expulsos por João Vilas Boas no túnel de acesso aos balneários.

 A pausa de 15 dias para a dupla jornada da selecção portuguesa na qualificação para o Mundial-2002 (Andorra 7-1, Chipre 3-1) é benéfica para o Sporting, que contrata Jardel ao Galatasaray. Na estreia do brasileiro, um golo de penálti em Leiria vs União de Mourinho (1-1). Seguem-se quatro jornadas sempre a marcar – Gil Vicente (1), Farense (3), Vitória SC (3) e Braga (1) – até ao nulo em casa com o Santa Clara. A partir daí, o Sporting carbura para o título, já com o mustang Ricardo Quaresma e Hugo Viana requisitados por Bölöni à equipa B.

 No final da primeira volta, 2-2 na Luz, quando Jardel mergulha para o penálti e engana Duarte Gomes, 1-0 ao Vitória FC com o melhor golo de Jardel (pára no peito e atira sem deixar cair a bola, pobre Bossio) e 2-0 em Aveiro com bis do brasileiro... André Cruz. Ao título de campeão de Inverno soma-se o mais importante, em Maio, após intensa competição com o campeão em título Boavista. Os leões têm o primeiro championship-point com o Benfica no José Alvalade e só uma mão na bola desnecessária de Armando evita a derrota dos leões (penálti e empate de Jardel).

 Na semana seguinte, mais um empate e mais um adiantamento com o 2-2 no Bonfim, a 27 de Abril. Só no dia seguinte é que se abrem as garrafas de champanhe, com o 2-1 na Luz. O mérito é de Mantorras, com um golo aos 81’, numa altura em que o Benfica joga com dez por expulsão do lateral esquerdo Pesaresi (76’). Começa a festa leonina, que só acabaria duas semanas mais tarde com a conquista da Taça de Portugal (1-0 ao Leixões, da 2.ª divisão B). À dobradinha junta-se o êxito discográfico nacional da Juve Leo. Eles lá sabem porque não ficam em casa. Desta vez, a culpa é de Rúben Amorim. E de Adán. E de Coates. E de Feddal. E de Gonçalo Inácio. E de Porro. E de Nuno Mendes. E de João Mário. E de João Palhinha. E de Pedro Gonçalves. E de Nuno Santos. E de Tiago Tomás. E de Paulinho. E de todos os outros.

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