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Rúben vs Conceição igual a Inácio vs Santos
Desporto 5 min. 11.09.2021
Sporting-FCP

Rúben vs Conceição igual a Inácio vs Santos

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Rúben vs Conceição igual a Inácio vs Santos

Desporto 5 min. 11.09.2021
Sporting-FCP

Rúben vs Conceição igual a Inácio vs Santos

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
É só a segunda vez na história dos clássicos para a 1.ª divisão que treinadores campeões pelos respectivos clubes encontram-se no José Alvalade.

Há fenómenos portugueses ainda mais estranhos que o do Entroncamento. Veja lá bem isto, a 1.ª divisão começa em 1934 e nunca pára, nem na Guerra. Daí para cá, quase 90 anos de história. Sporting e Porto, a par de Benfica e Tondela, nunca descem à 2.ª divisão.

Sporting e Porto, repetimo-nos. Jogam todas as épocas. Todas. E só uma vez é que há um clássico no José Alvalade com treinadores campeões pelos respetivos clubes. Uma, não. Duas, a partir deste sábado. Rúben Amorim vs Sérgio Conceição é só o segundo caso, o que é um feito extraordinário e até assustador, e juntam-se ao duelo Augusto Inácio vs Fernando Santos em 2000. Estamos em Outubro, dia 21, e é um sábado peculiar. Joga.se o clássico à tarde no José Alvalade e o clássico espanhol à noite em Camp Nou.

O onze de Inácio inclui Nélson; César Prates, Beto, André Cruz e Rui Jorge; Paulo Bento, Bino, Sá Pinto, JVP e Rodrigo; Acosta. No banco, Nuno Santos, Dimas, Barbosa, Toñito, Hugo, Mpenza e Iordanov. A grande ausência é Schmeichel. O onze de Santos é Ovchinnikov; Secretário, Jorge Costa, Aloísio e Esquerdinha; Cândido Costa, Deco, Paredes, Chainho e Drulovic; Pena. No banco, Pedro Espinha, Jorge Andrade, Paulinho Santos, Alenitchev, Capucho, Clayton, Romeu e Pizzi. O árbitro é Lucílio Baptista, de Setúbal.

Soa o apito inicial às 17:30 em ponto e nota-se um nervosismo muito grande. À meia-hora, a quantidade de passes errados transmite essa ideia de inoperância: 36 para o Sporting e 27 para o Porto. De remates à baliza, só um e é de bola parada. Livre de Deco, defesa apertada de Nélson para canto, aos 14 minutos. Tudo o resto é pontapés para a atmosfera, ou muito ao lado ou demasiado por alto. Chega o intervalo e as 28 faltas contribuem para a falta de futebol praticado como deve ser.

O reinício é mais do mesmo, sem chama nem imaginação. Se bem que o Sporting continue por cima (57% por cento de posse de bola), a baliza de Ovchinnikov é um alvo inactivo. Só Acosta, e mal, incomoda o guarda-redes russo. O Porto também joga sem atitude pragmática de olho no golo. É mais faltas. Daí os amarelos para Deco, Chainho e Secretário. Também poderia ter saído um bolso do árbitro para Cândido Costa aos 67’ por falta para penálti sobre Rodrigo, só que Lucílio manda seguir. O lance seguinte, aos 70’, é o golo portista. Marca-o Pena, o reforço de última hora para substituir Jardel, o abono de família nas últimas cinco épocas. Deco remata para defesa incompleta de Nélson e o brasileiro, sem marcação, empurra para as redes. É já um hábito, oitavo golo de Pena em seis jogos de 1.ª divisão.

Inácio mete Iordanov em campo para se juntar a Acosta. A frente de ataque é alargada, em teoria. Na prática, Ovchinnikov continua espetador atento. E assim será até aos 90’+5, o Sporting nunca puxa dos galões de campeão e é o Porto quem canta vitória à conta de uma exibição burocrática. Inácio dá os parabéns. ‘Ao intervalo, já tinha percebido que ganhava quem marcava primeiro. Assim foi, e só espero que os adeptos continuem a puxar por mim e pelo Sporting.’ Paulo Bento é mais expansivo. ‘Perdemos três pontos e ficámos a cinco do Porto, que foi uma equipa organizada e defendeu bem. Fez dois remates à baliza e marcou um golo, há que reconhecer a eficácia.’ Do lado portista, Fernando Santos pensa alto. ‘Este primeiro quarto de campeonato correu-nos bem. Se continuarmos assim, vamos ser campeões.’ Só que não, a época 2000-01 é a do Boavista de Jaime Pacheco.

Ainda o Sporting-FC Porto está a dar e já se ouvem assobios em Barcelona para Figo no regresso do português a Campo Nou, tão-só quatro meses depois de assinar pelo Real Madrid. A tensão é grande, enorme, gigante. A expectativa idem idem, aspas aspas. Há um número recorde de jornalistas no estádio, 600 entre 400 espanhóis e 200 internacionais. Figo entra em campo e ninguém lhe dá descanso. O treinador dos catalães Serra Ferrer puxa Puyol para a marcação individual, à italiana, e Figo passa 90 minutos sem brilho, assobiado 62 vezes pelos furiosos adeptos, alguns deles portadores de cartazes de escárnio e maldizer, em que a palavra pesetero é o mimo mais simpático. Também o Real Madrid anda desaparecido em combate. Raúl é uma sombra de si próprio, Roberto Carlos outro.

O Barcelona ganha 2:0, fácil, sem espinhas. com um golo em cada parte. O primeiro de Luis Enrique (de cabeça após livre de Xavi), o segundo de Simão (recarga a uma bola de Alfonso á trave). Nem mais, Simão Sabrosa passa a jogar muito mais com a saída de Figo (até porque Serra Ferrer substitui Van Gaal) e marca no primeiro clássico da época. Seja como for, o português mais falado continua a ser Figo, Figo, Figo e mais Figo. Vira nome de doença em Barcelona. ‘Até parece que assassinei alguém’, desabafa o número 10 do Real Madrid.

Estamos em 2000, Outubro, dia 21. Inácio, campeão nacional pelo Sporting em 2000, vs Santos, campeão pelo Porto em 1999. Dois treinadores campeões pelos respectivos clubes esgrimem argumentos para a 1.ª divisão. Jamais visto, nunca mais repetido. A sério? A sério, até agora. Sábado, 11 Setembro, no 20.º aniversário do duplo atentado às Torres Gémeas, há Rúben Amorim vs Sérgio Conceição. O campeão 2021 vs o campeão 2018 e 2020. Antes, ligeiramente antes, Ronaldo reestreia-se pelo Manchester United. Doze anos depois de ter saído para o Real Madrid, o 7 volta a Old Trafford e encontra o Newcastle, único clube a quem marca hat-trick na Premier League. Que fenómeno. O do Entroncamento? Também, estou mais a falar de Amorim e Conceição.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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