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Sporting. Cerco a Bruno de Carvalho aperta-se
Rui Patrício chorou no final da Taça de Portugal, na derrota frente ao Desportivo das Aves, no Jamor.

Sporting. Cerco a Bruno de Carvalho aperta-se

Foto: Lusa
Rui Patrício chorou no final da Taça de Portugal, na derrota frente ao Desportivo das Aves, no Jamor.
Desporto 7 min. 23.05.2018

Sporting. Cerco a Bruno de Carvalho aperta-se

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Órgãos sociais voltam a reunir-se esta quinta-feira, mas o presidente recebeu um ultimato: ou se demite ou poderá ser afastado compulsivamente.

Na reunião dos órgãos sociais esta segunda-feira, Bruno de Carvalho foi confrontado com um ultimato: ou se demite da presidência e pode recandidatar-se ou não se demite e fica sujeito a ser afastado de modo compulsivo. No artigo 43, ponto 3, os estatutos admitem esta hipótese em assembleia geral “por maioria absoluta dos associados presentes”. Na quinta-feira haverá nova reunião dos órgãos sociais, mas o cerco ao presidente Bruno de Carvalho aperta-se.

O fim da linha de Bruno de Carvalho no Sporting pode estar mais próximo, após episódios impensáveis que geraram inclusive unanimidade no plano político. Depois da invasão à Academia de Alcochete, das agressões de que foram alvo equipa técnica e jogadores do Sporting e das investigações anunciadas a alegados casos de corrupção no futebol e no andebol, Mesa da Assembleia Geral (MAG) e Conselho Fiscal ficaram demissionários. No Conselho Diretivo, as demissões surgiram a conta-gotas. Jogadores e treinador ameaçam rescindir com justa causa.

“Vivem-se os dias mais negros da história do Sporting com uma situação absolutamente repugnante, lamentável e virada contra o coração do clube”, sublinha Rogério Alves, ex-candidato à presidência. “Em função da elevada gravidade do sucedido, os órgãos sociais não têm condições para continuar e têm de sair para dar lugar a eleições”, indica.

Foto: AFP

Em conferências de imprensa ou através do Facebook, Bruno de Carvalho rejeitou demitir-se, acusou os jogadores de estarem na origem, de forma indireta, em relação ao que se passou na Academia, criticou Rui Patrício, Álvaro Sobrinho, da Holdimo, detentora de 30% do capital social da SAD, mas também a classe política, Jaime Marta Soares e José Maria Ricciardi, a quem acusou de ser o estratega da situação.

“Não tenho qualquer projeto de poder e não falo com Álvaro Sobrinho há cerca de quatro anos. Não quero é ver o meu clube caminhar alegremente para a insolvência”, responde Ricciardi. “Os jogadores não ficam no Sporting com este presidente. A sua saída é vital para a própria sobrevivência do clube”, argumenta o banqueiro, admitindo que as perdas não sejam inferiores “a 100 milhões de euros” e que “vários elementos do Conselho Diretivo sejam responsabilizados”. “Os jogadores rejeitaram falar com o presidente quando aconteceram as agressões na Academia e nunca mais querem sequer olhar para a sua cara. E mais boquiaberto fiquei ao saber que tinham informações de que o presidente poderia estar ligado, direta ou indiretamente, ao caso das agressões. Além disso, como vimos na final da Taça de Portugal, destruiu a equipa profissional, pois foi isso que vimos no Estádio Nacional – uma equipa destroçada pelo próprio presidente”.

Entretanto, a direção do Sporting cancelou o apoio à claque Juventude Leonina, anunciou medidas para reforço da segurança na Academia e pediu uma audiência urgente com António Costa.

Bruno de Carvalho.
Bruno de Carvalho.
Foto: Lusa

Finanças em causa

No domingo, uma assembleia de acionistas aceitou adiar para novembro o reembolso do empréstimo obrigacionista que estava marcado para este mês. Ricciardi não considera que se trate de voto de confiança, mas sim de “um evento de default, porque não se respeitou o prazo definido”.

Ricciardi lembra a emissão obrigacionista de 15 milhões de euros, agendada para decorrer entre 21 de maio e 4 de junho e constata: “Os aspetos reputacionais em emissões ao público são muito importantes para qualquer emitente. O que se passou nos últimos dias causa danos reputacionais que vão além do Sporting e terão consequências nas emissões de outros clubes portugueses. Não vejo qualquer condição para a emissão, pois os investidores não teriam a certeza quanto à possibilidade de danos patrimoniais importantes. Além do agravamento que representa a constituição do braço direito do presidente como arguido por crimes de corrupção ativa”, aponta.

O banqueiro remata as críticas desta forma: “Caso não se demita, vejo duas possíveis saídas para o presidente – o arrastamento num dos processos criminais, seja o da alegada corrupção, seja o das agressões em Alcochete ou, então, o internamento numa instituição psiquiátrica”.

“Não vejo margem de manobra para que fique. Esperar pela destituição em assembleia geral implica demorar demasiado tempo e, a cada dia que passa, a situação agravava-se, porque a degradação da imagem é diária. O Sporting não pode estar sujeito a isto”, diz Dias Ferreira, antigo dirigente e ex-candidato à presidência sportinguista.

Segundo Daniel Sampaio, “a saída para esta situação de crise é a demissão em bloco dos órgãos sociais para que apareçam novos rostos e haja uma solução, uma vez que estes órgãos sociais não estão em condições de gerir e conduzir o Sporting”.

Foto: Lusa

Apurar toda a verdade

“Em ambos os casos se trata de problemas de justiça”, afirma Rogério Alves sobre as agressões e as suspeitas de corrupção. “No que se refere ao sucedido na Academia, tudo será investigado e punido de acordo com o estabelecido na lei. O outro assunto exigirá, por certo, investigações mais sofisiticadas e detalhadas. Como sportinguista, desejo que nada de reprovável seja demonstrado, mas é evidente que toda a verdade deverá ser apurada”.

Sobre os alegados casos de corrupção, Dias Ferreira refere: “Por enquanto confio nas pessoas, porque, mesmo que não goste de algumas decisões, nomeadamente do presidente, não me parecem pessoas para recorrer a essas coisas. Mas, pelo tenho visto, não sinto a mesma convicção que sentiria noutras alturas”.

Em relação às agressões e às investigações sobre alegados casos de corrupção, Sampaio tem opinião semelhante: “As investigações devem ir até às últimas consequências e a justiça, desportiva e não só, deve atuar. Se houver sócios do Sporting envolvidos no primeiro caso devem ser expulsos e o crime nas instalações do clube deve também ser castigado”.

Quanto às afirmações de punição exemplar por parte de diversos políticos, o advogado sustenta: “Tirando o Presidente da República, é bom que os restantes não tirem o cavalinho da chuva porque têm responsabilidades. O Governo foi avisado várias vezes pelo Sporting sobre o comportamento das claques e nada fez”.

Lúcio Correia.
Lúcio Correia.
Foto: LC

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