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E o mundo não acabou
Desporto 3 min. 20.07.2021
Sidney 2000

E o mundo não acabou

Sidney 2000

E o mundo não acabou

Foto: DR
Desporto 3 min. 20.07.2021
Sidney 2000

E o mundo não acabou

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Para tristeza da Grécia, coube a Sidney limpar a má-imagem que Atlanta havia deixado no centenário das Olimpíadas. A Austrália organizou um dos melhores JO de sempre, onde Nuno Delgado brilhou. Junto com Fernanda Ribeiro, trouxeram o bronze.

Segundo o anuário dos conflitos armados, decorriam no mundo 36 guerras. Pela enésima vez, fora interrompido o processo de paz entre Israel e a Palestina. Angola permanecia numa longa guerra civil, assim como na República Popular do Congo. Após a retirada das tropas da antiga URSS, o Afeganistão estava sob o domínio crescente de radicais islâmicos. Os talibans começavam a demonstrar ao que vinham, aplicando a sua versão austera e violenta da Sharia, destruindo templos, derrubando estátuas, matando. Na muito longe, Índia e Paquistão lutavam por Caxemira. A Força Aérea americana bombardeava o Kosovo, em nome da população albanesa. Na Colômbia, na Tchetchénia, no Sri Lanka, na Serra Leoa, prevalecia o estado de guerra. Mas, apesar de todas as profecias apocalípticas da viragem do milénio, não, o mundo não tinha acabado. George W. Bush também ainda não tinha sido eleito presidente americano, mas para isso já não faltava assim tanto.

O Comité Olímpico Internacional (COI), depois do péssimo exemplo de Atlanta, nem queria ouvir falar dos EUA, tão pouco queria ceder às expectativas da Grécia, que quatro anos antes do jogos do centenário olímpico começaram a exercer pressão para que os Jogos Olímpicos regressassem a casa, passando os quatro anos seguintes a exigir que o COI deixasse à Grécia a tarefa de apagar a má-imagem que os americanos tinham dado ao mundo em Atlanta. O COI anunciou que ainda não seria desta que os JO iam visitar os seus antepassados. A notícia deixou os helénicos capazes de acender com a mente a pira olímpica. Essa tarefa coube a Cathy Freeman, atleta australiana, de origem aborígena. Pela segunda vez na sua história, os JO viajaram para a Austrália, agora para Sidney, capital do estado de Nova Gales do Sul.

Sidney tinha prometido umas olimpíadas inesquecíveis, nos antípodas de Atlanta. E a Austrália, navegando a euforia do novo milénio, não desiludiu. Foi uma celebração olímpica de arromba, uma autêntica festa do desporto, como o COI a classificaria mais tarde. A organização superou todas as expectativas, que já estavam altíssimas. A começar pelo número de países participantes (199) e pelo número de atletas presentes (10651), ambos novos recordes olímpicos. Dos países presentes, sobressaia um, que muito dizia a Portugal. Timor-Leste, que à custa de muitas vidas conquistara a sua autodeterminação do regime indonésio, não veio à Austrália para participar, apenas para picar o ponto enquanto nação. O número de modalidades era igualmente imponente: três centenas.

Não foi preciso viajar para a Austrália para se tornar num super-herói olímpico, com uma vestimenta high-tech, desenhada para simular a pele de um tubarão. E também não foi preciso viajar para Sidney para ganhar três medalhas de ouro e uma de prata. Ian Thorpe, australiano, adivinhe-se de que cidade, passou pelo mundo a nadar, como um tubarão. Tão rápido, só Steve Redgrave, remador britânico, que em Sidney conseguia a quinta medalha de ouro em sucessivas olimpíadas. Um feito que até agora ninguém conseguiu ultrapassar. Cathy Freeman voltou ao grande palco, para receber a medalha de ouro conquistada nos 400m. No futebol, os Camarões sucederam à Nigéria no ouro olímpico. E, do continente africano, o mundo viu chegar, já sem surpresa, um dos maiores fundistas de sempre, que já havia ganho a prova de 10 mil metros em Atlanta, repetindo o feito em Sidney: Haile Gebreselassie. Ainda a norte-americana Marion Jones, a primeira mulher a subir ao pódium cinco vezes numa competição olímpica, vencendo as provas de 100; 200 e 4x400m, ganhando a medalha de bronze nos 40x100m e no salto em comprimento.

Para além de Domingos Castro, era numa fundista que Portugal depositava as esperanças de mais uma medalha de ouro, até porque ia defender o titulo olímpico. Fernanda Ribeiro, porém, só conseguiu a medalha de bronze nos 10 mil metros. Igual feito conseguiu Nuno Delgado, na modalidade até então improvável para os talentos nacionais: o judo. Moçambique conquistou nestes olímpicos a sua primeira medalha de ouro, na prova dos 800m. A autora da proeza: Maria Mutola. Os grandes vencedores destes JO foram os EUA. Que puderam sentir de novo o travo da hegemonia.

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