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O gosto do ouro
Desporto 3 min. 17.07.2021
Seul 1988

O gosto do ouro

Seul 1988

O gosto do ouro

Desporto 3 min. 17.07.2021
Seul 1988

O gosto do ouro

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Rosa Mota deixou Portugal em delírio, conquistado a medalha de ouro na maratona. Sobre Seul pairava o medo de um atentado. Mas a única bomba foi a de Ben Johnson, velocista canadiado que bateu o recorde do mundo dos 100m movido a esteróides anabolizantes. Um escândalo, que marcou estas olimpíadas.

O mundo não andava bem. O Prémio Nobel da Paz fora para os capacetes azuis da ONU. Na África do Sul, Nelson Mandela estava em cativeiro, cumprindo 25 anos de cadeia pela sua luta contra o "apartheid". Um globo cada vez mais mediatizado trouxe à civilização um novo fantasma: a SIDA. Em Portugal, era presidente da República Mário Soares, mas começava a era do cavaquismo. O incêndio do Chiado, no coração de Lisboa, concentrava as atenções. Tão próximo dos JO de Seul, estes pareciam não ser assunto do dia, apesar das fundadas esperanças em Rosa Mota, que tinha conquistado os título de campeã europeia e mundial.

As sombras negras de Munique em 1972 pairavam sobre a capital da Coreia do Sul, que apostou tudo nas olimpíadas de Seul, não poupando esforços e despesas. Quanto mais se aproximava o grande evento, mais o medo se instalava. E havia razões para isso: choviam ameaças de um atentado aos olímpicos de Seul, o que levou a Coreia do Sul a esquacionar o cancelamento dos JO, coisa que o COI recusou. Estas olimpíadas tinham um significado político especial, sob a égide da conciliação mundial. Os EUA e a URSS não se encontravam na mesma competição olímpica desde 1976. Esta era uma oportunidade de ouro, até porque a Guerra Fria começava a amainar, caminhando pela diplomacia do entendimento. Novas brisas sopravam da pátria dos czares, que tinham Mikhail Gorbatchov à frente dos seus destinos e novas palavras que emanavam do seu léxico político, como "glasnost" (transparência) e "perestroika" (reestruturação). A URSS pagava a longa crise de sucessão, que a enfraquecera, os EUA pagavam as facturas e o endividamento das políticas de Ronald Reagan, assim como de alguns disparates com preço político elevado, como aquela vez em que ele julgava ter os microfones desligados e, para aquecer a voz, disse isto: "Meus caros americanos, tenho o prazer de anunciar que hoje assinei legislação que ilegaliza a Rússia para sempre. O bombardeamento começará em cinco minutos".

Houve uma fase (bem longa) em que parecia impossível qualquer tipo de entendimento entre os colossos. Em 1988 estavam reunidas condições excepcionais de aproximação, ainda que na competição ninguém esperasse tréguas. A URSS tinha anunciado que ia retirar as suas tropas do Afeganistão. Por outro lado, decorriam pacificamente as negociações do desarmamento nuclear. Estavam, pois, criadas as condições políticas para que em Seul se desse uma ocasião histórica. Só que, já se sabe, as ocasiões históricas com data marcada são muito apetecíveis às organizações terroristas. Nem sequer se colocava a questão dos boicotes. Oficialmente, só havia um: o da Coreia do Norte. Por tudo isto, Seul e o COI decidiram não cancelar o evento a escassos meses da cerimónia de abertura, aliás, o alvo mais apetecido.

A autoridades sul-coreanas passaram a pente fino os acontecimentos de Munique, para que não se repetissem na sua capital. A decisão que se seguiu foi a de requisitar um verdadeiro exército, sempre em estado de alerta durante todo o evento, com especial atenção para as instalações onde seriam alojadas as delegações participantes. Uma força de 100 mil homens em exclusivo e em permanência para os olímpicos. Esperava-se que este aparato securitário tivesse um efeito dissuasor em vez de interventivo.

Vistas bem as coisas, a única "bomba" que explodiu nos Olímpicos de Seul foi um canadiano supersónico, com a massa muscular de Hulk na fase verde, que bateu o recorde mundial dos 100m, que cumpriu em 9,79 segundos, batendo o consagrado Carl Lewis. O mundo ficou de boca aberta com Ben Johnson. E de boca aberta ficou quando o COI anunciou que este tinha acusado positivo no controlo anti-doping. Foi um escândalo de proporções planetárias. O recorde foi anulado e a medalha de ouro entregue a Carl Lewis. Portugal, que tinha levado a Seul um conjunto de 66 atletas para 11 modalidades, só ganhou uma medalha. E que medalha. Rosa Mota venceu a maratona, acabando em suor e lágrimas, no lugar mais alto do pódium, coberta com a bandeira nacional. No cômputo geral, a URSS foi a grande vencedora, seguida da RDA. Os EUA resignaram-se ao terceiro lugar. Excluindo Ben Johnson, o que aconteceu, tudo acabou bem.

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