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Taça dos Libertadores. Se vê, se siente, Caixinha está presente
Desporto 6 min. 10.08.2022
Futebol internacional

Taça dos Libertadores. Se vê, se siente, Caixinha está presente

Portuugês Pedro Caixinha é o atual técnico do clube argentino Talleres de Cordoba.
Futebol internacional

Taça dos Libertadores. Se vê, se siente, Caixinha está presente

Portuugês Pedro Caixinha é o atual técnico do clube argentino Talleres de Cordoba.
Foto: Juan Mabromata/AFP
Desporto 6 min. 10.08.2022
Futebol internacional

Taça dos Libertadores. Se vê, se siente, Caixinha está presente

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Treinador português do Talleres joga esta quarta-feira vs Vélez Sarsfield o apuramento para a meia-final da Libertadores.

Em Buenos Aires, o dia começa com imensas perguntas. Se é Inverno, porque é que temos calor? Porque é que toda a gente está com gorro e cachecóis e nós com uma camisa? Porque é que se ouve mais português abrasileirado que castelhano argentino nas ruas? Porque é que se ouve uma música irritante chamada lambada em todas as lojas de roupa, calçado e souvenirs? Porque é que não há McFish em nenhum McDonald's? Porque é que trouxemos o passe do metro de Lisboa no bolso direito do casaco? Enfim.

Na verdade, a grande questão do dia até nem é nenhuma dessas. E até consegue ser ainda mais enervante. Câmbio? Câmbio? Câmbio? Não damos mais de dez passos sem nos depararmos com a palavra. Câmbio? Seja do que for, entre real, euro, dólar ou dólar blu (ya, um dólar do mercado negro e largamente aceite pela sociedade, ao ponto de dar os altos e baixos desse câmbio específico na televisão). Há câmbios para todos os gostos. Dito de forma seca (câmbio), cantada (cââââmbio) e quase-ultrasecreta (***bio).

Todos eles nos fazem mal ao ouvido. Vamos mas é dar de fuga daqui do centro, apanhar um avião no Aeroparque (o segundo aeroporto da capital) e aterrar em Córdoba, onde mora a equipa-sensação da Libertadores 2022, treinada pelo português Pedro Caixinha e a 24 horas de entrar na ½ final. Para tal, o Talleres é obrigado a ganhar esta madrugada ao Vélez Sarsfield para reverter o 3:2 da primeira mão. O 1:0 implica desempate por penáltis, à falta da regra dos golos fora, o 2:0 provoca um terramoto na cidade.

Ponto de partida: nunca o Talleres passa a fase de grupos da Libertadores em toda a sua história. Este ano, o Talleres de Caixinha é segundo do grupo H, atrás do Flamengo (ainda com Paulo Sousa) e à frente da U Católica, do Chile, e Sporting Cristal, do Peru, ambos campeões nacionais. No total, 11 pontos e 6:5 em golos. Detalhe, todos os cinco golos sofridos pelo Flamengo (três no Maracanã, dois no Mario Kempes).


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Nos 1/8, o Talleres apanha o Colón, também da Argentina. Ao 1:1 em Córdoba segue-se o sensacional 2:0 em Santa Fé. Nos ¼, calha-lhe outra equipa argentina, o Vélez Sarsfield. A primeira mão é em Buenos Aires, no Estádio José Amalfitani, mais conhecido como El Fortín. De acordo com as regras do futebol argentino, e sob o risco de mortos e feridos, não há adeptos visitantes nos jogos em Buenos Aires.

O estádio está à pinha, 40 mil a cantar a uma só voz. Lá em cima, no canto superior esquerdo do Fortín, o Talleres reúne 350 pessoas entre membros da direcção e familiares dos jogadores. Ao intervalo, já com 1:0 para o Vélez, os 'barra-brava' saem da sua bancada, passam sete controlos de segurança (com a conivência da dita cuja) e invadem esse canto superior para provocar confusão. Quem não se manifesta e fica quieto no seu lugar, livra-se. Quem desata a correr com o medo estampado na cara, apanha a valer. Uma tristeza.

O presidente Andrés Fassi, do Talleres, chama "inepto e mentiroso" ao homólogo do Vélez, um tal Sergio Rapisarda, e bloqueia o acesso dos adeptos visitantes para o jogo desta noite. Cá se fazem, cá se pagam. E o Talleres convida crianças das escolas de toda a província cordobesa para preencher todo o topo sul. O espectáculo promete.

Já confirmada a lotação esgotada de 57 mil lugares (algo nunca visto desde 2015), Pedro Caixinha está mais-que-animado. "É o jogo mais importante da história do Talleres e é uma honra estar aqui. Queremos continuar o caminho e estamos muito concentrados no objectivo, até porque conseguimos sempre responder bem a um jogo menos conseguido. Foi assim com o Flamengo, na fase de grupos: perdemos 3:1, depois empatámos 2:2. Foi assim com o Colón, nos 1/8 final: empatámos 1:1 em casa e fomos ganhar 2:0 a Santa Fé. Agora já analisámos algumas imprecisões no 3:2 com o Vélez e sabemos que temos de ser mais rigorosos e intensos para chegar ao ponto que desejamos."

O Vélez acumula mais experiência internacional, como vencedor da Libertadortes 1994 e até da Taça Intercontinental desse ano (2:0 vs Milan), numa altura em que o guarda-redes é o famoso Chilavert. Coincidência ou não, Chila é convidado pelo Vélez para o jogo de há uma semana e concentra todas as atenções. Menos a de Caixinha. "Ai foi? Nem sabia disso [pausa] ele era um marcador de livres directos, vai lá vai, ele e o Rogério Ceni."

Com uma conquista internacional no seu currículo (Taça Conmebol, espécie Taça UEFA, em 1999), o Talleres é uma equipa do interior e esse detalhe geográfico confere ainda mais notoriedade ao feito. Por falta de recursos em relação aos clubes da capital (15 em 28 na 1.ª divisão em 2022) e por falta de mediatismo da imprensa, o Talleres passa por entre os pingos da chuva e avança milagre atrás de milagre.

O grande obreiro é o tal presidente André Fassi. Em 2014, tira o clube da bancarrota e devolve-o aos sócios, na sequência de uma vitória nas eleições com 78% dos votos. Em 2015, sobe à 2.ª divisão. Em 2016, sobe à 1.ª (e invicto em 21 jornadas, algo nunca visto na história centenária da Argentina). Daí para cá, o Talleres afirma-se no escalão maior e aventura-se na Taça da Argentina, como finalista vencido vs Boca Juniors, no desempate por penáltis (Salvio, esse mesmo, marca o decisivo 5:4). Só falta o regresso às noites europeias. Errrrr, sul-americanas.

O primeiro passo é a Copa Sul-americana, espécie de Liga Europa, em 2021. O segundo é a Libertadores, estilo Liga dos Campeões, em 2022 (pormenor engraçado, não há flash-interviews depois dos jogos da Libertadores, só antes). Com Caixinha a mexer (e bem), o Talleres é a equipa menos conceituada das oito ainda em prova. Se passar à ½, é uma proeza inesquecível. Para o clube e para o próprio Caixinha, especialista em encontrar petróleo no deserto – vencedor de Liga e Copa do México em 2014 pelo Santos Laguna, uma equipa de classe média. Em 2015, ainda pelo Santos Laguna, ganha a Taça dos Campeões do México, entre o vencedor dos torneios Clausura e Abertura. Tudo isto em 360 dias. Amaziiiing.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Já em Portugal, a carreira de Caixinha é salpicada por momentos curiosos como o 4.º lugar da U. Leiria no final da primeira volta da 1.ª divisão 2010-11 (antes das saídas do goleador Carlão e do maestro Silas no mercado de inverno) e a ida à ½ final da Taça de Portugal pelo Nacional em 2011-12, eliminado pelo Sporting – sem esquecer a conquista do lendário Troféu Ramón Carranza, em Cádis, com um claro Nacional 3:1 Rayo Vallecano na final.

Contratado em Março deste ano pelo Talleres, o alentejano Caixinha (natural de Beja) acrescenta mais um país à sua já extensa lista de vistos em três continentes: México, Arábia Saudita, Qatar, Roménia, Grécia, Escócia e Argentina. Câmbios, muitos câmbios.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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