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Sabry e Mourinho, que pingue-pongue
Desporto 5 min. 22.10.2021
Histórias da bola

Sabry e Mourinho, que pingue-pongue

Sabry não se deu bem com Mourinho durante a sua passagem pelo Benfica.
Histórias da bola

Sabry e Mourinho, que pingue-pongue

Sabry não se deu bem com Mourinho durante a sua passagem pelo Benfica.
Foto: Lusa
Desporto 5 min. 22.10.2021
Histórias da bola

Sabry e Mourinho, que pingue-pongue

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Fez 21 anos no dia 21 Outubro o hilariante episódio das botas do egípcio em Paços de Ferreira.

Abdel Sattar Sabry é um homem único. Honra lhe seja feita, marca aos três grandes portugueses na mesma época. A epopeia é do século passado, mais precisamente em 1999-2000, e começa precisamente na Luz, para a Taça UEFA. É a segunda mão dos 32 avos vs PAOK, o Benfica defende a vantagem de 2:1. Kandaurov indica o caminho da alegria, Marangos empata e, aos 44 minutos, Sabry sofre falta de Andrade à entrada da área. O egípcio mede a baliza, a barreira e atira com o pé esquerdo sem hipótese para Enke. Ao ângulo superior.

Passa-se um mês e Sabry assina pelo Benfica, como reforço de Inverno. No primeiro clássico da 1.ª divisão, no dia 1 Abril, é seu o golo da vitória vs Porto de Fernando Santos num remate espontâneo fora da área com o pé esquerdo. A bola entra no mesmo ângulo superior do golo do PAOK, agora com Hilário à baliza. No mês seguinte, dérbi no José Alvalade. Se o Sporting ganha, é campeão. Se o Benfica empata, o Porto ainda sonha com o bitri na última jornada. Aos 88 minutos, livre descaído para a direita do ataque do Benfica. Toma balanço, Sabry. Abre os olhos, Schmeichel. Atira e é golo. Schmeichel ainda esboça a reacção. Tarde demais, o Benfica ganha 1:0 e atira um balde de água fria para todos os sportinguistas, com o grito de campeão preso há 17 anos.

Na época seguinte, Heynckes sai do comando técnico do Benfica à quarta jornada e o presidente Vale e Azevedo elege José Mourinho como sucessor. É titular na estreia do novo treinador, vs Boavista. Repete a titularidade na Taça UEFA, vs Halmstad. É suplente utilizado vs Braga no jogo em que Mourinho explora Dani como 10 e volta a ser titular vs Belenenses. Segue-se o episódio em Paços de Ferreira, a 21 Outubro 2000. Com o Benfica empatado 0:0, Mourinho olha para o banco e chama Sabry. Passa um minuto. Dois. Três. Quatro. E nada de Sabry com as chuteiras postas. Cinco. Seis. Sete. Oito. Mourinho passa-se e adia a substituição.

O desconforto é imenso, e notório. Para piorar a coisa, Sabry dá uma entrevista e, claro, bate na tecla Mourinho em demasia. O treinador passa-se e responde à letra em animada conferência de imprensa de antevisão ao 2:1 vs Farense. ‘Não é fácil para um treinador gostar de um jogador que tem uma média absurda de foras-de-jogo, que não sabe que quando a bola está em posse do adversário no lado contrário, ele tem de fechar o espaço interior e não ficar aberto, que não sabe o que é relação posicional e ocupação equilibrada do espaço e que foge quando lhe mostram os dentes fora de casa.’

Sem se deter, Mourinho atira-se a Sabry. ‘Com Halmstads, Belenenses e Boavista esteve três vezes na cara do guarda-redes e não fez um golo. Ao intervalo, quando sou mais agressivo, vai fazer queixas ao secretário técnico a dizer que tem medo de mim. Já lhe disse que, para mim, para um jogador jogar nessa posição de 10, tem de ter uma cultura táctica elevada, ser um elo defesa-ataque e não dar bolas ao adversário. Com o Belenenses, por exemplo, o Sabry começou a jogar como 10 e, em 16 minutos, perdeu cinco bolas que deram origem a contra-ataques. Tive de colocar o Miguel ao meio e o Sabry à esquerda, senão o Belenenses teria marcado.’


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Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Os jornalistas perguntam então sobre a alegada falta de comunicação entre Sabry e Mourinho. ‘Já tive sete reuniões individualizadas com ele, das quais três decorreram nos últimos quatro dias. Ele não gosta é das coisas que lhe digo. Na quinta-feira, disse-me que queria jogar na posição do Dani. No dia a seguir, disse que queria jogar na posição do Poborsky. Finalmente, e ainda mais grave, na última reunião veio dizer-me que, como o Dani não tem características para jogar na esquerda, ele que não jogue, ’ponha lá outro e eu jogo no meio’. Eu disse que não porque quem manda sou eu! Isto é o Benfica, não é o PAOK e o único a quem dou legitimidade para me influenciar é o Mozer. Isto não significa que, no futuro, o Sabry não possa voltar a jogar comigo pois não sou vingativo.’

Para acabar a conversa, Mourinho fala de Paços de Ferreira. ‘Jogou pouco tempo porque levou oito minutos a preparar as botas e as caneleiras à minha frente.’ Só anos depois é que Sabry volta a falar sobre o assunto. ‘Tive três treinadores: Heynckes, Toni e Mourinho em época e meia. Com Mourinho, tenho dois episódios engraçados. Um deles, o de Paços de Ferreira. A meio do jogo, Mourinho disse-me para calçar as botas porque ia entrar. Como estava muito frio, demorei algum tempo. Atei uma bota, esfreguei as mãos de frio e, quando ia calçar a outra bota, ele disse-me para ficar quieto. Já não valia a pena. Não percebi nada.’

O castigo nem dura um mês. Na jornada de Taça em Campo Maior, o 0:0 eterniza-se até que Mourinho chama Sabry. O egípcio ajusta as caneleiras rapidamente, aperta as botas sem esfregar as mãos (e o ar fresco do Alentejo?) e ainda marca o golo decisivo. Agora sim, está tudo bem. Puro engano. Uma semana depois, outra tempestade. Conta Sabry: ‘Foi num treino. Ele dizia-me para passar a bola e eu fazia aquilo. Aí, ele passava-se e começava aos berros comigo. O Mozer [adjunto], mais simpático, pedia-me para ter calma. Eu não entendia Mourinho. Os outros passavam a bola, eu fazia o mesmo e ouvia berros. Uma vez, mandou-me embora a meio do treino. Mourinho não tratava todos os jogadores da mesma maneira.’

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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