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Rui Barros e Futre, ao vivo e a cores em Marselha
Desporto 5 min. 29.07.2022
Histórias da Bola

Rui Barros e Futre, ao vivo e a cores em Marselha

Paulo Futre saiu do Benfica para o Marselha por 900 mil contos.
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Rui Barros e Futre, ao vivo e a cores em Marselha

Paulo Futre saiu do Benfica para o Marselha por 900 mil contos.
Foto: Lusa/Arquivo
Desporto 5 min. 29.07.2022
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Rui Barros e Futre, ao vivo e a cores em Marselha

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Em Julho 1993, o presidente Tapie contrata a dupla portuguesa para representar o campeão europeu em título.

É sempre assim, o mês de Julho é quente. Em transferências, queremos dizer. Há 29 anos, o Marselha saca Rui Barros ao Monaco e Futre ao Benfica. E esta, hein?! Ao todo, o polémico presidente Bernard Tapie gasta qualquer coisa como 1,3 milhões de contos na dupla portuguesa (400 mil por Rui Barros, 900 mil por Futre).

Atenção, uma dupla portuguesa no estrangeiro até já nem é um acontecimento. Em 1976-77, o Racing junta Damas e Quinito em Santander. A união dura só mais uma época, até 1978. No início dos 90’s, ainda e sempre em Espanha, agora por obra e graça de John Toshack, a Real Sociedad reúne Oceano e Carlos Xavier. A terceira dupla é a do Marselha, então campeão europeu em título (1:0 vs Milan) e de olho na Taça Intercontinental vs Vélez Sarsfield.

Quando se lembra desses tempos, Futre limita-se a repetir a frase 'g'anda caldeirada'. "Era essa a frase mais comum entre mim e o Rui Barros. Quando nos encontrávamos de manhã, eu dizia-lhe 'ò Rui, g'anda caldeirada, g'anda bronca, já viste no que nos fomos meter.'" O primeiro a assinar é Rui Barros, na última semana de Julho. Só depois aparece Futre, que acabara de levantar a Taça de Portugal com uma exibição portentosa ao serviço do Benfica num 5:2 vs Boavista, no Jamor.


Cristiano Ronaldo, celebra um golo contra a seleção da Holanda. EPA/OLIVER BERG
Tudo o que sempre quis saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar
Histórias sobre o lado menos conhecido do jogador português. Por Rui Miguel Tovar.

Há cromos irrepetíveis e figuras do alto nesse Marselha. Diz Futre sem pensar por aí além. "Aquilo era uma constelação de estrelas. O capitão era o Deschamps. Lá atrás, Barthez. Na direita, não me lembro, escapou-me agora o nome. O Amoros tinha saído. Ah, já sei: Angloma. À esquerda, o Di Meco. Espectacular. No meio, dois monstros como Boli e Desailly. No ataque, só o Boksic." Calma, há mais. "Falta o Völler. Craque. E ainda outro, entre o Deschamps e os avançados, um jugoslavo chamado Stojkovic. Que pedaço de jogador, porra. Havias de o ver. Depois, os dois tugas: o Ruizinho e eu. Tinha tudo para dar certo."

Pois, é verdade. Acontece que o Marselha se vê envolvido no escândalo de resultados combinados. Jacques Glassman, jogador do aflito Valenciennes, comunica às autoridades francesas os telefonemas para manipular o resultado de Jean-Jacques Eydelie, titular do Marselha na época 1992-93. A federação francesa toma conta da ocorrência, ouve as escutas e decide retirar o título de campeão francês. Tudo porque Eydelie pedira a três jogadores do Valenciennes para jogar mais calmo do que o costume vs Marselha, na jornada decisiva do campeonato francês e anterior à final da Liga dos Campeões vs Milan, em Munique, decidida com um golo de Boli (1-0).

Se a missão fosse cumprida, tanto no resultado final com a vitória do Marselha como na ausência de lesionados para a final europeia, os tais três jogadores do Valenciennes seriam recompensados financeiramente. Meu dito, meu feito. Quando Glassman mete a boca no trombone, lá se vai o Marselha. Em França, retiram-lhe o título de campeão. Na UEFA, impede-lhe de jogar a Supertaça europeia e até a Taça Intercontinental, substituído pelo vice Milan.

Pois é, Futre e Rui Barros são precisamente apanhados nesse turbilhão. "Nem imaginas a loucura. Havia manifestações diárias." Dos adeptos? "Também, mas não eram promovidas por eles. Chegávamos ao centro de treinos de manhã para uma sessão normal e éramos avisados de uma manifestação da cidade, marcada pelo próprio presidente Tapie. E aquilo era levado a sério. Milhares de pessoas juntavam-se, protestavam e ouviam o presidente Tapie durante uma hora. Pobre Rui, a traduzir-me tudo aquilo. G'anda caldeirada."

Bernard Tapie, o antigo presidente do Marselha.
Bernard Tapie, o antigo presidente do Marselha.
Foto: EPA

E o Tapie, que tal? "Era um mister. Digo-te, a sério, entendia mesmo de bola. Durante a semana, nem o víamos por lá. De repente, antes dos jogos, aparecia no balenário, tirava o casaco, arregaçava as mangas e dava a táctica. Como tinha linha directa com o treinador [Marc Bourrier], sabia de tudo o que se passava no treino. Por isso, dava bronca no sábado a um jogador que tinha feito uma asneira na terça-feira. Ninguém abria a boca, só falava Tapie. E com propriedade. Ele acabava a prelecção e nós ficávamos a olhar uns para os outros, como quem diz 'está certo, vamos a isso'". E o Tapie com o Futre? "Comigo, só mexia no sentido de me incentivar. Dizia sempre 'hoje vais marcar'. Era um motivador nato. Quando marcava, ele vinha ter comigo, às vezes ao intervalo, e atirava-se a mim: 'não te disse que ias marcar?'". 

Por falar em golos, que tal essa estatística? Futre mete o turbo e lembra um 2:1 para o Marselha em Lille. Diz ele, sempre a abrir. "Eu marco o 1-0, a passe do Ruizinho, eles empatam ainda na primeira parte e o Ruizinho faz o 2-1 quase quase no fim." 


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Pormenor: é a estreia de Rui Barros no Marselha, afastado até então por lesão. História de Portugal, é a primeira vez que dois jogadores portugueses marcam no mesmo jogo por uma equipa internacional. Estamos em Outubro 1993 – curiosamente, em Abril desse ano, os dois marcam pela selecção portuguesa vs Escócia (5:0), na Luz, para qualificação do Mundial-94. 

Rui Barros, esse, mantém-se em Marselha até ao fim da época e volta depois ao FC Porto. Já Futre só faz mais dois jogos antes de sair para a Reggiana, em Itália. Na mesma altura, o Marselha perde outro ilustre: Desailly assina pelo Milan e ainda vai a tempo de se sagrar campeão europeu dessa época, num divinal 4:0 vs Barcelona.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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