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Ronaldo, o capitalista desenfreado

Ronaldo, o capitalista desenfreado

Foto: AFP
Editorial Desporto 3 min. 19.07.2018

Ronaldo, o capitalista desenfreado

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Ronaldo não tem culpa desta sociedade louca que valoriza futebolistas mil vezes mais que médicos, cientistas, escritores, arquitetos.

Seria preciso andar muito distraído para não saber que Cristiano Ronaldo acaba de transferir-se do Real Madrid para a Juventus; esta crónica não é sobre desporto nem sobre Ronaldo em particular. Algo interessante foi a reação, também ela viral nos media, de um sindicato de uma fábrica da Fiat em Melfi, no sul de Itália: correram mundo as imagens dos indignados operários que, depois de colar posters ilegais nas paredes da fábrica com as palavras “Para Ronaldo 400 milhões, para os operários só pontapés nos… “ (em italiano também rima), gritaram para as câmaras que tudo aquilo era uma vergonha e apelaram a uma greve de dois dias (que termina agora no momento em que escrevo).

É óbvio que estes homens, na sua indignação, no seu ultraje, estão cobertos de razão. A Juventus e a Fiat pertencem em grande parte e desde sempre às mesmas pessoas, a família Agnelli; a Fiat pede há anos aos seus trabalhadores enormes sacrifícios em nome de uma inultrapassável crise. Horários parciais, despedimentos temporários (ou permanentes), congelamento de salários por uma década… e a espera por miríficos novos modelos e novos posicionamentos no mercado que acabam por nunca chegar. Muitos dos operários da fábrica de Melfi recebem 900 euros por mês, e assim é há muito tempo. “As famílias apertam cada vez mais o cinto enquanto fazem a fortuna da empresa e dos seus administradores, os mesmos que decidem investir 340 milhões num único recurso humano. É justo que milhares de pessoas não consigam chegar ao fim do mês?”. As contas podem ser feitas de várias maneiras e são sempre chocantes. O salário de Ronaldo, 55 milhões de euros brutos anuais, permitiria criar 2.500 novos empregos com um salário líquido de 1.500 euros por mês. Ou aumentar os atuais empregados em 2,5% ao ano por… sete décadas consecutivas. Ou investir numa nova linha de montagem ou num novo modelo.

Para quem passa uma vida a construir carros e ganhar tostões, é duro de engolir ver que o dinheiro do mesmo grupo empresarial é canalizado para futebolistas mediáticos. Ainda mais duro deve ser verificar que, na verdade, a Juventus fez um ótimo negócio – a marca Ronaldo paga-se facilmente a si própria em bilhetes de época, merchandising, novos contratos de patrocínio e de tv, e visibilidade global: falamos de um só atleta que tem, em diferentes redes sociais, 318 milhões de seguidores. É a estes gigantescos novos mercados que a Juventus vai passar a chegar. E a Fiat também…

Ronaldo (e Jorge Mendes, claro) também sai satisfeito da história. Ele é muitíssimo bom na sua competência específica – chutar uma bola – e procura, como cada um de nós, maximizar o seu proveito relativo a esta sua ferramenta no mercado de trabalho. Não tem obviamente culpa desta sociedade louca, obcecada pela fama, que valoriza futebolistas de cabeça vazia e mal penteada mil vezes mais que médicos, cientistas, escritores, arquitetos; Ronaldo joga de acordo com as regras, não as criou.

Há mais um dado interessante nesta narrativa de desigualdade: a esta revolta de indignados em Melfi, a esta greve de trabalhadores conscientes e reivindicativos aderiram… cinco pessoas. Cinco. Ou seja, 0,3% das 1.700 pessoas daquela fábrica. O falhanço é estrondoso e levanta questões mais amplas. Se nem os próprios interessados, aqueles que estão do lado errado da mais gritante disparidade, têm a motivação suficiente para protestar contra a mesma, qual a real esperança de a reduzir?

A desigualdade crescente é um dos maiores desafios do nosso tempo – em 2013, o então presidente Obama chamou-lhe mesmo “o” desafio. Hoje, 85 pessoas detêm tanta riqueza como a metade mais pobre da Humanidade; três americanos – Jeff Bezos, Bill Gates e Warren Buffett – são tão ricos como a metade mais pobre da população do seu país, ou seja, 170 milhões de pessoas. Várias forças inexoráveis contribuem para que este efeito se agudize, como a revolução tecnológica, a globalização do comércio ou a própria natureza do sistema capitalista. Perante o abandono de políticas redistributivas de riqueza, cada vez mais criamos um mundo de 1% de elite versus 99% de pessoas que só almejam chegar ao fim de mês. Isso e, de vez em quando, comprar uma nova camisola do Ronaldo.

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