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Ronaldo em Manchester. Entre o mito e a verdade
Desporto 6 min. 21.07.2022
Futebol

Ronaldo em Manchester. Entre o mito e a verdade

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Ronaldo em Manchester. Entre o mito e a verdade

Foto: Ian Hodgson/Reuters
Desporto 6 min. 21.07.2022
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Ronaldo em Manchester. Entre o mito e a verdade

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Tudo o que sempre sonhou saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Capítulo 9. Entre o mito e a verdade em Manchester  

Lembro-me bem, como se fosse hoje, agora. Trabalho no jornal Record e mandam-se como enviado-especial ao novo Estádio José Alvalade para fazer o Manchester United. O fazer, na gíria jornalística, é escrever individualmente sobre os jogadores do ilustre visitante da noite de gala. O dia é 6 Agosto, ano 2003. Lembro-me perfeitamente (obrigado, Google), é uma quarta-feira.

Logo à entrada do estádio, cada jornalista é agraciado com uma revista da inauguração e o jogador da capa é Ronaldo, Cristiano Ronaldo. Só tem 17 anos e já faz manchete numa equipa com Pedro Barbosa, João Pinto, Jardel, Sá Pinto, Quaresma. O objectivo da revista é mostrar os números do novo estádio e promover a campanha de venda dos últimos lugares anuais. Pela primeira vez na história, o Sporting abandona a política modelo dos bilhetes jogo-a-jogo e adere ao sistema inovador (agora banal) dos lugares anuais. A campanha dá certo e rende 31 mil-e-tal aderentes – substancialmente superior aos oito-e-poucos da época anterior, em que o Sporting até é campeão português.

Adiante, é noite de Sporting vs United, é noite de festa. Na fotografia da praxe, com todo os 27 jogadores alinhado, Ronaldo está de pé, entre Miguel Garcia e Hugo. O primeiro onze do estádio é Ricardo à baliza, Miguel Garcia, Beto, Hugo e Rui Jorge na defesa, Luís Filipe, Custódio, Rochemback e JVP no meio, Silva e Ronaldo ao ataque. Isso mesmo, Fernando Santos lança Ronaldo de início. É ele a cara do Sporting 2002-03, sobretudo após a saída de Quaresma para o Barcelona a meio desse Verão.

Insisto na ideia, estou a fazer o Manchester United. Que joga com Barthez, O’Shea, Ferdinand, Silvestre e Butt; Bellion, Djemba-Djemba, Fortune e Richardson; Scholes e Solskjaer. O árbitro é Duarte Gomes, o apito inicial soa às 21h36, já depois do minuto de silêncio em memória das vítimas dos incêndios em Portugal e do pontapé de saída de Jesus Correia, o único dos Cinco Violinos a vislumbrar a nova obra do Sporting.


Ronaldo disputa a bola com um adversário do FC Bruges, num particular em 2003.
As três estreias de Ronaldo no José Alvalade
Tudo o que sempre sonhou saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

O que se sucede a partir daí é um vendaval de dribles, truques e fintas inimagináveis de Ronaldo, primeiro encostado à esquerda, depois à direita. O’Shea, pobre coitado, nunca vê a bola. Nem Ronaldo, by the way. O primeiro remate perigoso é de Rochemback, aos 15’, com a bola a rasar a trave. Aos 20’, Ronaldo obriga Barthez a uma defesa com os punhos. Aos 25’, o primeiro golo do jogo por Luís Filipe, assistido por Rui Jorge. Até ao intervalo, Barthez espanta o 2:0 de Beto com um mergulho sensacional. Chega o intervalo, Ronaldo é o melhor em campo a léguas dos outros todos juntos. Joga, brinca, encanta.

No reinício (50’), Ronaldo foge mais uma vez à marcação e isola-se perante Barthez. O guarda-redes francês evita o golo. No banco, Alex Ferguson evita o embaraço de O’Shea e substitui-o por Lynch. Depois mete Phil Neville em cima do número 28. Qual quê, Ronaldo continua em noite sim e faz gato-sapato do suplente com o maior descaramento, próprio da irreverência da juventude que só se perdoa aos génios.

É também de Ronaldo mais um remate para defesa apertada de Barthez, aos 69’, entre o bis de JVP aos 61’ (de cabeça na sequência de um livre na esquerda) e 80’ (lance pela direita e amortie de calcanhar de Lourenço). Na parte final, um autogolo de Hugo fixa o resultado. Ninguém liga ao 3:1, todos querem saber do estado de saúde de O’Shea. Coitado do rapaz, ainda anda na pré-época e já está todo torto, sem emenda.

Nas entrevistas a seguir ao jogo, desconheço se já se chamariam flash interview, Ronaldo é uma das figuras chamadas à pedra. Naturalmente. "Estou bastante satisfeito com a minha exibição, mas o importante foi termos ganhado a uma das melhores equipas do mundo. Este estádio é belíssimo, espero jogar por cá muitos anos." Aí é que a porca torce o rabo, Ronaldo já entra em campo nessa noite com um pé fora e, depois da magnífica exibição, sai em definitivo.

O mito diz-nos que Ronaldo é negociado nessa noite e o autocarro do Manchester United só sai do estádio para o aeroporto com o acordo entre o treinador Alex Ferguson, o empresário Jorge Mendes e o presidente sportinguista Dias da Cunha. Aguentem os cavalos, não é bem assim. Diz Ronaldo de sua justiça. "O Manchester United não se interessou por mim depois do jogo nem por causa da minha exibição, o Sporting e o Manchester United chegaram a acordo na véspera do jogo, numa reunião em Cascais." O tal acordo contempla a contratação de Ronaldo a partir da época seguinte, em 2004, por 11 milhões de euros. A ideia é amadurecer mais um ano na 1.ª divisão aaaarghhhhhhh portuguesa.

Com a exibição cinco estrelas, Alex Ferguson nem pestaneja. "Tínhamos feito uma parceria com o Sporting na época anterior para haver um intercâmbio de treinadores durante os treinos no sentido de trocar ideias e novos métodos. Um dos meus assistentes foi duas/três vezes a Lisboa e veio de lá encantado com um miúdo que jogava a ponta de lança. O nome era Cristiano Ronaldo. Mencionei-o ao Carlos Queiroz, meu adjunto. Ele disse-me que já tinha ouvido falar e alertou-me para fazermos um acordo porque os jogadores assim tão espantosos deixam Portugal bastante cedo."


CRISTIANO RONALDO EM JOGO DE JUVENIS  NUM CAMPO PELADO EM 9/05/98
FOTO DO JORNAL DO SPORTING
Tudo o que sempre quis saber sobre Cristiano Ronaldo
Histórias sobre o lado menos conhecido do jogador português. Por Rui Miguel Tovar.

E agora? Continua Ferguson. "No início da época seguinte, o Carlos assinou pelo Real Madrid e nós mantivemos o prometido de jogar na inauguração do Estádio José Alvalade. Foi a noite em que o Cristiano fez uma exibição danada contra um dos meus jogadores mais experientes [O’Shea]. Ao intervalo, pedi a um dos meus adjuntos para ir chamar o Peter Kenyon [director] à tribunal presidencial porque tinha estado com o Jorge Mendes em Cascais, na véspera, e ele falou-me do interesse de Arsenal e Real Madrid. Pensei logo no Carlos em Madrid e decidi actuar de imediato, até porque o que tinha visto não estava ao alcance do comum mortal: o equilíbrio, a coragem, o poder físico, os dois pés. Estava à frente de um atleta, um futuro super atleta."

A principal preocupação de Jorge Mendes, empresário de Ronaldo desde 2002 em substituição de José Veiga, é encontrar um treinador fiável para a categoria atlético-desportiva do jogador. "Alex Ferguson garantiu-me que o Cristiano ia jogar pelo menos 50% dos jogos da época 2003-04. Fiquei descansado, era só isso que queria ouvir." O Sporting recebe 15 milhões e bate o recorde interno (Duscher 13 milhões), Ronaldo é o sub19 mais caro de sempre e veste a camisola 7. Todo o mundo satisfeito. George Best bate palmas. "Ora aí está finalmente um jogador à minha imagem, irreverente, sem medo do drible nem dos adversários: Ronaldo tem tudo". Tem mesmo. Que o diga O'Shea.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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