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Roger Schmidt, o sucessor de Jupp Heynckes
Desporto 7 min. 05.08.2022
Primeira Liga

Roger Schmidt, o sucessor de Jupp Heynckes

Roger Schmidt
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Roger Schmidt, o sucessor de Jupp Heynckes

Roger Schmidt
Foto: AFP
Desporto 7 min. 05.08.2022
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Roger Schmidt, o sucessor de Jupp Heynckes

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Arranca hoje a 1.ª divisão com sotaque alemão no Benfica vs Arouca.

É raro, muito raro. Na história da 1.ª divisão desde 1935 até aos nossos dias, só um treinador alemão trabalha em Portugal. Chama-se Heynckes, Jupp Heynckes e é uma aposta de Vale e Azevedo para o Benfica no Verão de 1999. Campeão europeu pelo Real Madrid em 1998, o homem recebe os jornalistas portugueses em sua casa na Alemanha antes de assentar arraiais na Luz e, numa entrevista ao jornal Record, fala de Luís Carlos como referência.

Luís Carlos, o extremo do Salgueiros contratado na época anterior, ainda na era Souness. Como assim, Luís Carlos? (perdoem-nos a insistência) O Benfica reúne João Vieira Pinto, Nuno Gomes mais Poborsky e Heynckes nomeia Luís Carlos? Na mesma entrevista, dá um ar de sua graça com a expressão ‘não se mistura água com vinho’ numa alusão à fusão provocada por Souness de ingleses com portugueses.

A limpeza de balneário é uma realidade, zero ingleses no plantel. Dos sete reforços, três aterram na Luz com áurea de salvadores da pátria: o alemão Enke como substituto do reformado Preud’homme, o espanhol Chano como cérebro do meio-campo e o (outro) espanhol Tote como avançado com ‘golos nas botas’, nas palavras do próprio Jupp.

A este respeito, o da contratação de Tote, o Record (sempre ele) avança com uma manchete surreal: Benfica quer Totti. A conversa top secret é ouvida num restaurante e o desconhecido Tote, do Real Madrid B, é transformado em Totti, já então capitão da Roma e figura incontornável da seleçcão italiana sem queda por aventuras no estrangeiro como atesta a sua carreira 100% italiana, sempre na Roma.

Pois bem, Enke, Chano e Tote. E então? Dos três, só Enke está à altura do desafio. Chano desaparece ao longo do tempo, Tote nem sequer aparece por aí além – excepção feita a uma eliminatória da Taça de Portugal em que elimina o Torres Novas com um golo a nove minutos do fim (1:0 na Luz). E o Luís Carlos? É titular nas três primeiras jornadas e depois é relegado para o banco até sair de vez em Dezembro 1999.


Novo treinador do Benfica promete "bom futebol" com resultados
"É um grande clube, um dos melhores clubes do Mundo. Adoro futebol e, quando se adora futebol, adora-se o Benfica", disse o técnico de 55 anos.

E o Benfica de Heynckes, que tal? O arranque até é prometedor, com seis vitórias e dois empates nas oito primeiras jornadas. Pelo meio, duas eliminatórias europeias carregadas de suspense: uma resolvida na Roménia, vs Dìnamo Bucareste, outra em casa, vs PAOK, nos penáltis (duas defesas de Enke). Tudo tudo tudo corre bem. E nem a derrota por 3:1 em Alverca no final de Outubro rouba discernimento. O problema é o mês de Novembro, profundamente caótico. Ao 2:0 nas Antas segue-se o 7:0 em Vigo. De repente, adeus título de campeão e adeus Taça UEFA.

O mundo benfiquista desaba. Pior só mesmo o 3:1 do Sporting na Luz para a Taça de Portugal, em Janeiro. O Benfica é arrumado das três competições e ainda faltam quatro meses para acabar a época. Se a isto juntarmos um presidente pirómano, o resultado é catastrófico. As contas fazem-se no fim e toma lá disto: quarto lugar na 1.ª divisão, com sete derrotas, duas das quais seguidas (vs Belenenses na Luz e vs União em Leiria). Só se salvam dois resultados na segunda volta, as vitórias vs FC Porto e Sporting, ambas garantidas por Sabry, o reforço de Inverno.

E se o 1:0 na Luz anima a 1.ª divisão, no primeiro dia de Abril, o 1:0 no José Alvalade adia a festa do Sporting – no domingo seguinte, o 0:4 no Vidal Pinheiro faz soltar o grito de campeão ao fim de 17 anos. Segue-se o Verão quente. O capitão João Vieira Pinto sai do Benfica, a custo zero, escorraçado pelo presidente, com o okay do treinador. No quadradinho seguinte, é Nuno Gomes quem também sai, para a Fiorentina.


O campeão português de 2002. Entre a Ásia e a azia
Mais uma história do futebol português desencantada por Rui Miguel Tovar.

Quando se inicia a época 2000-01, Heynckes trabalha com a dupla Van Hooijdonk-João Tomás. Ao quinto jogo, na ressaca de dois empates na 1.ª divisão e uma derrota europeia inesperada na Suécia vs Halmstads, o treinador alemão é despedido da Luz com lenços brancos na sequência de um apertado 2:1 vs Estrela e demite-se em plena conferência de imprensa. Ao todo, Jupp ganha só 27 jogos em 48.

Vem agora o segundo alemão na história benfiquista. Roger Schmidt, contratado ao PSV Eindhoven, pertence à escola alemã criada por Christian Gross, juntamente com Nagelsmann, Ranginck e Tuchel. Quem é Gross? Ora bem, temos de recuar até ao século passado para relembrar às pessoas a importância da excelência do futebol alemão com a figura do líbero, mundialmente famosa com Beckenbauer no Mundial-74 ou Sammer no Euro-96 (ambos Bolas de Ouro).

O modelo é copiado em todo o mundo e, depois, como qualquer movimento táctico, é devolvido à natureza-mãe como produto obsoleto. Só os alemães recusam a linha defensiva de quatro e continuam apoiados no líbero. E então? É uma catástrofe. No Mundial-98, com Matthäus, a Alemanha é varrida do mapa pela Croácia nos ¼ com 3:0. Dois anos depois, no Euro-2000, ainda com Matthäus, a Alemanha é varrida do mapa por Portugal, ainda na fase de grupos, novamente por 3:0 (hat-trick de Sérgio Conceição).

Pelo meio, há um jogo importante na desconstrução do mito do líbero. Em Fevereiro 2000, a Alemanha combina um particular vs Holanda e o seleccionador teimoso Erich Ribbeck recua Sebescen, do Wolfsburgo, para líbero. Como se isso já não fosse mau o suficiente, a palestra é desastrosa. ‘Estejam atentos ao gajo do Real Madrid, gosta de se mexer no meio’.

O gajo é Zenden, extremo-esquerdo do Barcelona. Got it? Extremo e Barcelona. Resultado final? 2:1 para a Holanda, com golo e assistência de Zenden. Ao intervalo, Sebescen é substituído. E nunca mais joga na selecção. Ribbeck ainda se aguenta até ao tal hat-trick de Conceição. É o fim do líbero e o início da marcação à zona mais pressão alta, atitudes de jogo já evidenciadas por Ralf Rangnick no modesto Ulm, então na 2.ª divisão. Em Dezembro 1998, Rangnick vai ao canal televisivo ZDF e fala sobre a necessidade de mudança no futebol alemão. ‘O nosso futebol parou nos anos 70 e tem de evoluir sob o risco de sermos batidos pela concorrência, seja Espanha e Itália, seja Suíça.’ Ribbeck reage mal e deita abaixo Ralf. ‘Foi um sermão sem sentido, deram espaço mediático a uma pessoa que tratou os treinadores da Bundesliga como autênticos idiotas’. Até Beckenbauer dá uma bicada. ‘Essa conversa sobre esquemas tácticos é non-sense, só temos de continuar a jogar como até aqui para sermos bem-sucedidos.’ Errrrrr.

Então e quem é Gross? Muito bem, é um engenheiro de pontes com 35 anos de idade. O seu melhor amigo é do Estugarda, adepto fanático. As conversas sobre futebol animam Gross, ao ponto de ver um jogo ao vivo do Estugarda, ainda com líbero. Em 1981, Gross aventura-se no futebol e toma conta do Geislingen, um clube amador da sua cidade-natal na 6.ª divisão da Alemanha. O seu estilo é o da Holanda de Ernst Happel do final dos anos 70 (sem Cruijff, portanto) e o da Bélgica de Guy This no início dos 80. Ambas as equipas jogam para a frente, com pressão alta e offside trap (armadilha do fora-de-jogo).


Paulo Futre saiu do Benfica para o Marselha por 900 mil contos.
Rui Barros e Futre, ao vivo e a cores em Marselha
Em Julho 1993, o presidente Tapie contrata a dupla portuguesa para representar o campeão europeu em título.

Na opinião de Gross, os seus jogadores não se podem cansar atrás dos adversários e têm de focar na bola, sempre. E começa a trabalhar a equipa em 4-4-2. Três anos depois, já sem Gross, o Geislingen elimina o Hamburgo de Happel na Taça da Alemanha por 2:0. A estrela maior desse Hamburgo, o 10 Felix Magath, ‘Foi verdadeiramente incrível, eles vinham até nós como abelhas e estavam sempre em vantagem numérica.’ Na altura, já Gross está no Kirchheim, outra equipa amadora e a última da sua curta carreira. Em 1987, o Dínamo Kiev do lendário Lobanovski joga vs Kirchheim, durante um estágio de Inverno, e só empata 1:1. Lobanovski está de boca aberta. ‘Eles jogam como o Dìnamo Kiev, como é possível?’

Em 1989, Gross é nomeado coordenador da formação do Estugarda e chama Rangnick para treinar os sub19. Rangnick é campeão nacional dos juniores e, acto contínuo, vai buscar Tuchel para espalhar o conceito de Gross. O resultado é glorioso, porque nasce uma nova geração de treinadores com o modelo Gross na cabeça. Klopp, por exemplo, Klinsmann, outro. Tedesco, mais um. Nagelsmann, idem idem. Schmidt, aspas aspas.

 

Calendário (entre parêntesis, a posição final na época passada)

Hoje
Benfica (3)-Arouca (15)

Amanhã
Rio Ave (1 da 2.ª) -Vizela (14)
Estoril (9)-Famalicão (8)
FC Porto (1)-Marítimo (10)

Domingo
Sta Clara (7)-Casa Pia (2 da 2.ª)
Braga (4)-Sporting (2)
Chaves (3 da 2.ª)-Vitória SC (6)
Portimonense (13)-Boavista (12) 

2.ª feira
Gil Vicente (5)-Paços (11)

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