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Treino para a França e Alemanha, 10 minutos para ganhar 3 pontos e o apoio de Budapeste contra a França
Opinião Desporto 8 min. 16.06.2021
Reportagem em Budapeste

Treino para a França e Alemanha, 10 minutos para ganhar 3 pontos e o apoio de Budapeste contra a França

Reportagem em Budapeste

Treino para a França e Alemanha, 10 minutos para ganhar 3 pontos e o apoio de Budapeste contra a França

Foto: AFP
Opinião Desporto 8 min. 16.06.2021
Reportagem em Budapeste

Treino para a França e Alemanha, 10 minutos para ganhar 3 pontos e o apoio de Budapeste contra a França

José REIS DOS SANTOS
José REIS DOS SANTOS
Um relato de quem viu o jogo no estádio e seguiu os festejos portugueses pelas ruas de Budapeste. Uma crónica de José Reis Santos na capital húngara.

José Reis Santos, em Budapeste

Com pevides com paprika, fardado a rigor, e com a pica todo, fui para o estádio cedo, ligeiramente depois do almoço. Parecia um daqueles miúdos que, com o stresse antecipatório antes de um jogo importante, já não sabe o que fazer e arranca horas e horas antes da partida só para ir sentindo o ambiente, ir encontrando o seu pessoal, comprar o cachecol especial do jogo, ou neste caso levantar a pulseira, ver do protocolo, etc. Ontem acrescia estarmos perante um cenário pós-covid, o que significava que pessoalmente admito não ter muita vontade de partilhar a linha de metro que me colocaria na Puskás Árena em plena hora de ponta. Em todo caso, devo-vos referir que não bati o meu recorde pessoal, pois há um par de décadas atrás, num jogo de apoio ao meu clube, numa segunda mão em casa de uma meia final europeia, e com jogo às 21.30, fui para o estádio à uma da tarde. Ontem acabou por ser ainda assim um exemplo longe deste tipo de loucura. Em todo o caso, ter estado mais cedo pela Puskás Árena permitiu-me ir assistindo ao crescendo do entusiasmo em torno do estádio, ver as cores ganharem forma, os cânticos a afinar, o pessoal a se juntar, ver o meu pessoal (daqui), sentir todo este frenesim a se avolumar, a lembrar qualquer jogo grande na Luz, Dragão ou Alvalade, daqueles onde o murmurinho vai subindo devagarinho, onde temos de começar a falar mais alto, e mais perto uns dos outros. Onde o tempo acelera, sem darmos por ela.

Como o que geralmente tínhamos como pequeno momento de pânico em torno de “onde meti o bilhete?” encontra-se hoje substituído por tecnologias e Apps, conseguimos gerir melhor a entrada no estádio em si, e como o Puskás é novo, a sua navegação é extremamente facilitada. Num par de minutos passamos os torniquetes e estamos no sector certo, bancada certa, lugar certo. Dentro da Arena estava num bom sector e lugar, apesar de admitir que mudei ligeiramente pois queria ficar num sector practicamente só de portugueses, e assim ficar não só à vontade, mas à vontadinha.

Ter tido a oportunidade de cantar, a alto e bom som o hino nacional, de cachecol bem ao alto, e de ter visto – à minha esquerda, e em baixo – uma enorme bandeira nacional cobrir uma grande parte da bancada encheu-me de orgulho e de me sentir estar rodeado pelos “meus”, e eu que não sou nada de sentimentos nacionalistas, antes mais de identidades construídas e cruzadas. Mas aqui sabia que estava com a minha gente. No mesmo sentido, e por aqui estar vai para uma década, ouvir Himnusz em uníssono e afinado por 60.000 vozes arrepiou-me todo, deixando inclusive um lacrimejar sentido ou não tivesse também já uma ou duas costelas Pesti. Não houve, no entanto, ninguém com quem tenha falado, e que tivesse estado no jogo, que não concordasse comigo em qualificar como impressionante o momento em que se entonou o hino húngaro.  

Apesar de terem existido alguns confrontos, de resto antecipados, o registo dentro do estádio pautou-se pela confraternização, respeito mútuo e admiração (dos húngaros) pelos portugueses em geral. Não existia qualquer gaiola, nem julgo que houvesse necessidade, pois era genuína a admiração e vontade de interagir com os adeptos portugueses. Prova disto mesmo foi facto de em todos os sectores haverem misturas e muitos momentos de selfies entre adeptos das duas equipas. Fossem assim todos os dérbis em Portugal... E mesmo no final do jogo, pelo menos na minha bancada, assisti a dezenas de sentido e apertados abraços entre portugueses e húngaros que tinham partilhados estes 90 intensos minutos lado a lado, como sentidas foram também as ovações que as equipas, primeiro a portuguesa, depois a húngara, tiveram direito a receber pelo estádio ainda repleto no final. Conheci portugueses de todo o lado pelas bancadas, filas do bar, e nos clássicos urinóis. De Braga ao Algarve, Lisboa, Porto, Costa da Caparica, Coimbra, Anadia, Leiria, Pombal, Porto, Marrazes, Madeira, Alemanha, França, ou de Wasserbillig no Luxemburgo, malta que está neste momento a aproveitar umas horas de repouso numas termas da cidade e a preparar a saída para Munique, via Ljubljana, para depois regressarem ao Grã-Ducado. Desejo-lhes um optimo regresso. Conheci também muitas e muitos veteranos disto que é ser profissional de apoiar a selecção das quinas, verdadeiros senadores de campeonatos de Europa e Mundiais, e parece que agora também da Liga da Nações. E quem se tivesse conhecido em Durban, na África do Sul, no Mundial de 2010, e se encontre cada 2 anos, em cada grande competição que Portugal atinja. Muitos estão também em Budapest já de tanque cheio para seguir para Munque, para aqui regressar antes de 23 e depois seguir para onde esperemos calhar.    

Sobre o jogo em si, quase que cinicamente me apraz dizer que treinamos durante 80 minutos para os jogos que se adivinham com a Alemanha e a França, e depois os 10 minutos finais para ganhar 3 pontos, e, avançar no goal-average do grupo. No entanto, referia-me mais tarde alguém com quem bebi um ótimo rum, e que sabe bem mais de futebol do que eu, que entrar com uma equipa mais ‘pesada e lenta’ fora na realidade uma tática inteligente bem desenhada pelo nosso engenheiro, pois se tivesse colocado uma equipa mais rápida de início iria apenas expor e desgastar os nossos jogadores mais rápidos, como são o Rafa ou o Renato, uma vez que os húngaros estariam ainda frescos para os travar. Assim, com Danilo e William no 11 inicial, consumiu e moeu os magiares, cortando-lhes em simultâneo quaisquer vontades aventureiras (aparte de alguns momentos até ao golo bem anulado), para depois montar a estocada final com entrada dos speedy gonzalez Rafa e Renato. Recordo-me aliás de conversar com o meu compincha húngaro de bancada e lhe dizer na altura em as substituições aconteceram e lhe confidenciar: “meu amigo, agora desculpa, mas vamos acelerar”. Um par de minutos mais tarde, dava-me razão. Depois, apertava-me a mão e aplaudia a magia do nosso terceiro golo, verdadeira obra de arte colectiva. Nesta primeira passagem por Budapeste, 10 minutos em alta velocidade acabariam por chegar. Vejamos como será na segunda, nesse tão antecipado encontro entre campeões da Europa e campeões do Mundo.  

 

Já em relação à celebração pela cidade, conseguimos encher bares e restaurantes um pouco por todo o centro, num ambiente de fazer inveja a quem tenha assistido em Portugal, com esplanadas, bares, terraços, discotecas bem compostos e com elevados níveis de relaxamento. Os principais pontos de atraçção concentraram-se na zona da Basílica, e em especial em torno do VII distrito (o bairro judeu), e dentro deste o House Bar, primeiro, e depois o Szimpla e o Fogas-Instant para a festa mais longa e larga, não fossem estes dos maiores espaços da cidade. Como no estádio, a noite em geral correu bem e em harmonia, com alguns pequenos grupos de ultras à procura de confusão, numa estratégia a lembrar-me os antigos Prides na cidade, quando era recomendado à comunidade LGBTI que tomasse algumas precauções quando dispersasse da marcha, nomeadamente se em pequenos grupos ou em casais. Mas como nos exemplos do estádio, estes foram casos periféricos e pontuais, até porque o tom dominante foi sempre de grande convívio, de admiração pela selecção nacional, por Portugal e pelos portugueses. Verdade que já tínhamos uma boa reputação por aqui, e julgo que depois de ontem subimos mais uns pontinhos. E aposto que numa qualquer próxima sondagem, ao se perguntar aos húngaros qual o país pelo qual sentem mais próximos, vos garanto que Portugal estará bem la no cimo.  

Do ponto de vista pessoal, enquanto mapeava em reportagem para este artigo, encontrei por total curiosidade alguém do meu bairro em Lisboa (Portela), que acabou por me acompanhar nesta visita, e no conjunto de paragens planeadas que tinha a vários bares da cidade onde tinha depositado apostas com os respectivos donos. Uma noite de colecta, se assim quiserem entender, pois a aposta era naturalmente simples: perde, paga, se bem que agora em retrospectiva ainda bem que não coloquei o resultado nisto, senão poderia ter tido sérios problemas em chegar a casa, pois ainda foram um par de bares os em que me assumi como homem do fraque. No fim, rendeu esta volta uma optima Szilva Palinka (de ameixa) e cerveja de cereja, um inacreditável Cognac da Armenia e finalmente, já para o final da noite, uma excelente IPA. Admito, para finalizar, que não me preocupei muito em andar à procura dos portugueses. Esses sabia-os bem tratados. Estive entre os meus amigos húngaros, a contar o que vivi e senti no estádio, e já a angariar o apoio deles para o nosso jogo aqui com a França. Confidencio-vos finalmente que acabei a noite numa das poucas kocsmas ainda sobreviventes na cidade, a receber abraços de locais, a falar com a mulher de um chef Roma, a ouvir árias de Wagner à capela cantadas por um judeu de Berlim aqui residente enquanto indicava a um par de franceses com sede onde tomarem a próxima e a lhes dizer como depois de ontem Budapest ia estar em força a apoiar a selecção de Portugal.

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