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Rangers, o power de Glasgow
Opinião Desporto 5 min. 18.03.2022
Liga Europa

Rangers, o power de Glasgow

Sorteio dos quartos-de-final, meias-finais e final da UEFA Europa League 2022, na sede da UEFA, em Nyon, a 18 de Março de 2022.
Liga Europa

Rangers, o power de Glasgow

Sorteio dos quartos-de-final, meias-finais e final da UEFA Europa League 2022, na sede da UEFA, em Nyon, a 18 de Março de 2022.
Foto de Fabrice COFFRINI / AFP
Opinião Desporto 5 min. 18.03.2022
Liga Europa

Rangers, o power de Glasgow

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Braga apanha campeão escocês nos ¼ final da Liga Europa, um osso duro de roer com apenas três derrotas vs clubes portugueses em 20 jogos.

Ponto prévio: o Rangers Football Club não tem Glasgow no nome. Não faz sentido dizer Glasgow Rangers, é Rangers e ponto. À imagem de Sporting de Lisboa. Pura e simplesmente, não existe. O nome do clube é Sporting Clube de Portugal. A luta já é antiga nos sorteios da UEFA, desde os tempos de João Rocha como presidente em mil-nove-e-troca-o-passo. Curiosamente, a única experiência do Rangers com portugueses num ¼ final da UEFA é vs Sporting, em 2008.

Isto dos ¼ tem muito que se lhe diga porque o sorteio da Liga Europa 2021-22 junta Braga e Rangers. As outras seis equipas já haviam sido sorteadas, só falta determinar o factor casa. Calha ao Braga a fava, no dia 7 Abril. Uma semana depois, Glasgow here we go. Espanto, zero vitórias de equipas portuguesas em 10 visitas, entre sete derrotas e três empates (Sporting 2008, Sporting 2011, Benfica 2020). E em Portugal, o balanço dos clubes nacionais é melhor? Bom, pior seria impossível. Agora bom bom não é. Só três vitórias mais quatro empates e outras três derrotas. Convenhamos, é um registo pobre e trata-se do Rangers, longe de ser um bicho papão.

As três vitórias dispersam-se por décadas. A primeira de todas é no Estádio José Alvalade, a 3 Novembro 1971. O Sporting acumula um prestígio invejável nas competições europeias. É dele o primeiro golo de sempre na Taça dos Campeões Europeus (João Martins 1955) e ainda lhe pertence a maior goleada de sempre na UEFA (16:1 vs Apoel Nicósia 1963). A juntar a isso, é o único clube a ganhar uma final com um canto directo (Morais no 1:0 vs MTK 1964). Entre essas alegrías, o Sporting tem um trauma impossível de se esquecer: a da insignificante vitória nos penáltis vs Rangers.

E lá voltamos nós a 3 Novembro 1971. É a segunda mão dos 1/8 final da Taça das Taças. Em Glásgua (não, não é equívoco, os jornais portugueses escrevem assim), 3:2 para o Rangers. Quinze dias mais tarde, em Lisboa, 40 mil pessoas assistem a um número de circo jamais visto e nunca mais repetido. O Sporting repete o 3:2 e força o prolongamento. Nesse período extra de 30 minutos, as duas equipas marcam um golo e, nessa altura, de acordo com o regulamento da UEFA, é o Rangers o apurado pelo maior número de golos fora. Aliás, muitos jogadores escoceses caminham alegres para o balneário, quando Van Ravens chama os capitães e lhes fala do desempate por pontapés da marca de grande penalidade. No entender do árbitro holandés – substituto do compatriota Bogaerts à última hora –, os golos no prolongamento só contam se se traduzirem numa vantagem. Como acaba 6:6, Van Ravens aponta para a marca dos 11 metros.

Assim é. Damas defende o penálti de Jardine, o de McLean (tanto o primeiro como o da repetição) e ainda o de Stein. Enquanto isso, golos de Caló e Yazalde. Depois, Peres permite a defesa de McCloy e Smith atira por alto. Resultado final, 2:0. Damas levado em ombros, algazarra na cabine do Sporting, silêncio na do Rangers. ‘Até que um jornalista escocês bateu à porta para falar com o nosso treinador [Willy Wadell]’, confirma Henderson, autor do 3:3. ‘Aquela conversa demorou uma eternidade e muitos de nós ansiosos por saber o que era. Outros estavam tão desiludidos, com as mãos na cabeça, que nem sabiam o que se estava a passar. Foi então que o treinador entrou e disse-nos que estávamos apurados. Incrível.’

No outro lado, o esquerdino Hilário é o rosto da desilusão. “Já estávamos a beber champanhe e tudo, quando o [Afonso] Lacerda, vice-presidente da federação portuguesa de futebol, nos trouxe a má notícia. ‘Isto foi tudo muito giro, vocês foram fantásticos, mas não valeu de nada, porque em caso de empate no prolongamento os golos marcados fora valem a dobrar.’ Naquele tempo as notícias não circulavam tão rapidamente e os adeptos sportinguistas apenas souberam que o Sporting tinha sido eliminado no dia seguinte, graças aos jornais.”

Aliás, o ‘Diário de Notícias’ dá conta disso mesmo na sua reportagem. ‘Às duas da manhã, ligámos ao sr. dr. Pereira da Silva, dirigente do Sporting, que nos informou da eliminação do Sporting, por decisão do sr. Ramirez, o espanhol delegado da UEFA nessa noite.’ No dia seguinte, dia 4, a UEFA ratifica a decisão do tal Ramirez e não clarifica a punição a Van Ravens, já actor principal de uma caldeirada xxl no Mundial-70 com o soar do apito para o inicio da segunda parte sem toda a selecção de Marrocos em campo vs RFA – o guarda-redes só entra aos 25 segundos.

A vitória seguinte é a do FC Porto, nas Antas. Golo de Gomes, aos 53 minutos, à segunda tentativa. Na primeira, o guarda-redes McCloy defende para a frente. Oportuno como sempre, o número 9 faz golo e corre para o abraço colectivo, na sequência de um vistosa jogada de Frasco por entre dois defesas escoceses. A vitória magra por 1:0 é repetida em 2004 pelo Marítimo, nos Barreiros.

Aqui vale o golo de Manduca, na primeira mão dos 64 avos da Taça UEFA. O brasileiro marca ao alemão Klos aos 30 minutos e garante a vantagem para Glasgow, onde o Rangers empata a eliminatoria por Prso e festeja o apuramento num outro desempate de penaltis, este sim, válido pelo árbitro.

Daí para cá, o Rangers nunca mais perde com nenhuma equipa portuguesa e já lá vão 12 jogos (cinco vitórias, sete empates). Cabe agora ao Braga um golpe de autoridade, se bem que o Rangers já conheça a Pedreira de ginjeira, através de uma eliminatoria bem sucedida (claro) nos 16 avos da Liga Europa 2019-20. Do lado do Braga, um jovem treinador Rúben Amorim. Do do Rangers, um senhor chamado Steven Gerrard. Agora é Carlos Carvalhal vs Van Bronckhorst.

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