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Rabo no caminho
Opinião Desporto 4 min. 04.08.2021 Do nosso arquivo online
Olimpíadas de sofá

Rabo no caminho

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Rabo no caminho

Foto: AFP
Opinião Desporto 4 min. 04.08.2021 Do nosso arquivo online
Olimpíadas de sofá

Rabo no caminho

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Está certo que as olimpíadas são pródigas em acontecimentos insólitos. Mas nunca um rabo deu tanta polémica. Ainda por cima numa prova com participação portuguesa.

Com todo o respeito pela cultura do Japão e pelas suas tradições milenares, porque carga de água, que hoje não se fez sentir em Tóquio, se encontra um rikishi, mesmo que seja yokozuna, dentro de um mawashi, num recinto de uma prova equestre olímpica como se estivesse num dohyo? Traduzido para linguagem ocidental, um lutador de Sumo é por definição uma montanha adiposa, em topless e trajes menores, habituado a terraplanar adversários como se não lá estivessem. 

A organização dos JO de Tóquio achou por bem homenagear a sua própria tradição, colocando uma estátua, à escala real, de um lutador de Sumo em posição de investida em pleno percurso de obstáculos da prova de hipismo. Pois bem, o nosso sumotori, mesmo imóvel, fez das suas na competição olímpica. A chuva que se fez sentir foi de queixas. O lutador de Sumo estava a assustar os cavalos e a perturbar os cavaleiros na qualificação para a final de obstáculos.

Harry Charles, da Grã-Bretanha, montando Romeo 88, foi o mais veemente. Mesmo apurado para a decisão das medalhas, estava visivelmente mal-disposto e com o famigerado humor britânico em serviços mínimos. Vai uma pessoa, já de si nervosa pelas circunstâncias, a montar com todo o zelo olímpico o seu Romeo, quando se aproxima do 10º obstáculo da prova, depara-se com a visão apocalíptica de um "rabo gigante". Os cavalos, seres sensíveis, assustam-se com este obstáculo imprevisto, o mesmo acontecendo com os cavaleiros. Depois de concluir a sua prova e de digerir o insólito, o cavaleiro britânico pôs-se a observar com atenção os binómios adversários, para ver se era só de si e do seu cavalo. Não era. "Reparei que a muitos cavalos se assustaram com a aquela coisa".

Darragh Kenny, cavaleiro irlandês, foi mais descritivo, descentrando-se das traseiras do problema: "A figura é bastante realista. Parece mesmo uma pessoa, o que é assustador. Os cavalos não gostam de ver uma pessoa assim, com ar muito sério, como se quisesse lutar connosco". Nesta prova de qualificação, na qual participou Luciana Diniz, o resultado não havia de ser diferente entre cavaleiros e cavaleiras. Lá de cima, a planar entre o dorso e a cernelha do seu Vertigo du Desert, a cavaleira portuguesa avistou de soslaio o inusitado traseiro, mas fez por manter o ritmo e a concentração, alcançando o primeiro dos seus objectivos olímpicos: a qualificação para a final da prova de obstáculos. Luciana Diniz tinha dois desejos para a final. 

Luciana Diniz em prova.
Luciana Diniz em prova.
Foto: Friso Gentsch/dpa

Que os obstáculos oficiais não fossem obstáculo para si e para o Vertigo du Desert. E que entretanto alguém fizesse o obséquio de remover o rabiosque gigante do trajecto para as medalhas. Apesar das inúmeras queixas, a questão não ficou resolvida. A organização japonesa, que fez um investimento avultadíssimo nestes JO, por um lado não queria ferir a sensibilidade autócne, já de si pouco propensa a olimpíadas em tempos de pandemia, por outro também não estava muito interessada em ser a primeira nação anfitriã a colocar um rabo na História das Olimpíadas da era moderna. Em que ficámos? A estátua ficou "in situ" e Luciana Diniz num honroso 10º lugar.

Numa das mais duras das provas olímpicas, a maratona de natação em águas abertas, depois de mais de duas horas a nadar, Angélica André terminou a 5,09 minutos da vencedora, conseguindo igualar o melhor resultado olímpico de Portugal nesta prova: 17º. Na canoagem, Teresa Portela não cabia em si de contente, depois de um segundo lugar na primeira eliminatória em K1 500 metros, que a conduziram directamente para as meias-finais da competição, tendo ainda no horizonte as medalhas. 


TOPSHOT - Volunteers clean the court during the women's preliminary round group B basketball match between France and Japan during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Saitama Super Arena in Saitama on July 27, 2021. (Photo by Brian SNYDER / POOL / AFP)
Olimpíadas de sofá
O diário dos atletas portugueses e luxemburgueses nos Jogos Olímpicos no Japão.

Na mesma classe (K1 500), Joana Vasconcelos não teve a mesma sorte. Relegada para a luta dos quartos de final, acabaria por ser eliminada. Que balanço fazia da sua participação? Era óbvio que queria mais. Mas, tendo em conta "uma época muito longa e desgastante", não foi de todo mau, relembrando que na qualificação para estes JO teve de disputar duas provas duríssimas, a última das quais na Sibéria, para onde nunca é fácil viajar, ainda para mais com uma canoa às costas.

No atletismo, Marta Pen Freitas - repescada para as meias-finais dos 1500 metros depois de ter sido bloqueada por uma atleta marroquina - incluindo as nádegas e as pernas olímpicas, com as quais rasteirou a portuguesa -, decidiu evitar que o mesmo acontecesse nesta prova, seguindo na frente do pelotão durante algumas voltas, mas não evitando a debacle, caindo para o 10º lugar na ponta final. Cátia Azevedo, decidia o seu destino nas meias-finais dos 400 metros. A velocista portuguesa assume que a corrida não correu como ela esperava, pois tinha expectativas de alcançar um resultado no 'top 16', tendo ficado em 17º, em ambos os casos sem perspectivas de apuramento. 

Cátia Azevedo, que se diz mais madura, não é atleta para ficar a remoer derrotas. Mal terminou a prova, fechou-se Tóquio, abrindo-se logo o capítulo Paris 2024. Ainda assim, sobre a prova ainda acrescentou que algo a desconcentrou. Não?! Não me digam que foi um rabo realista de um lutador de Sumo? "Foi a miúda da pista 8", que tinha um recorde pessoal muito abaixo do seu e surpreendentemente apareceu ao seu lado como um relâmpago. Veloz chegou à zona de entrevistas para agradecer a todos os portugueses o apoio e o carinho, veloz foi à sua vida

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TOPSHOT - This general view shows Mount Fuji, Japan's highest mountain at 3,776 meters (12,388 feet), seen from Lake Yamanaka, next to a Tokyo 2020 Olympics banner on July 19, 2021. (Photo by Charly TRIBALLEAU / AFP)