Escolha as suas informações

Quem ganha mais campeonatos em anos de Europeu?
Desporto 11 min. 10.08.2019

Quem ganha mais campeonatos em anos de Europeu?

Quem ganha mais campeonatos em anos de Europeu?

Foto: LUSA
Desporto 11 min. 10.08.2019

Quem ganha mais campeonatos em anos de Europeu?

O campeonato começou esta sexta-feira com o Portimonense-Belenenses e só acaba em 2020, ano de Europeu. É assim de quatro em quatro anos desde 1959-60, com vantagem do Benfica sobre o Porto (sete-seis). E o Sporting? Está bem lá atrás, só com dois. Eis a história até 2015-16. Um texto de Rui Miguel Tovar.

1960 Com um reforço de peso (o técnico húngaro Bela Guttmann, ex-FC Porto), o Benfica recupera o título após dois anos de jejum. É o passaporte para a conquista da Taça dos Campeões do ano seguinte e o ponto de partida para a hegemonia que viria a marcar gloriosamente o clube durante os anos seguintes. Apesar de substituir o brasileiro Otto Glória, bem visto por jogadores, dirigentes e adeptos, Guttmann deixa uma boa impressão imediata e conquista o campeonato com apenas uma derrota. Precisamente na última jornada, em casa, com o Belenenses. As faixas encomendadas dizem “campeão invicto”. O que seria inédito em Portugal. Matateu e Tonho tratam de adiar esse sonho até 1973.

 1964 Diz o extremo-direito José Augusto, com propriedade. “O treinador era o húngaro Lajos Czeizler, um homem com alguma idade e muita experiência. Começámos bem a época, com a vitória no Ramón Carranza, em Cadiz: 3-2 ao Barcelona e 7-.3 à Fiorentina, após prolongamento.” O Benfica é líder da primeira à última jornada, com um 10-0 ao Seixal pelo meio, no dia em que o presidente Fezas Vital promete pagar bem por cada golo. “Dividmos 20 mil escudos, uma fortuna”, conta José Augusto, autor de três golos na festa do título (8-0 ao Varzim, na Luz).

 1968 A ressaca é dura. No regresso da pré-época na América (Colômbia, Paraguai, Equador e EUA), o Benfica entra no campeonato com declarações polémicas do treinador chileno Riera a dar conta do atraso de pagamento de salários e prémios de jogo. Simões imita-o e ambos são processados pela direcção. Em Dezembro, sai Riera e entra Cabrita. No aeroporto, de abalada para o Chile, há jogadores  a chorar, como Eusébio, e outros só com o semblante carregado, exemplos de Torres, Simões, Cruz, Augusto Silva, Jacinto, Cavém, Santana e Costa Pereira. Voltadas as atenções para o campeonato, o Benfica dobra a primeira volta acompanhado pelo Sporting, o qual chega a liderar na 17ª e 20ª jornadas. Na 24ª, e já com Otto Glória no comando técnico, o jogo do título na Luz com os leões é decidido por Eusébio. Que marcaria mais oito vezes nos últimos três jogos. Acaba o campeonato com 42 golos, o que lhe dá direito à Bota de Ouro na sua primeira edição. O Benfica é campeão nacional e Otto Glória divide pelos jogadores metade do prémio de 100 contos.

 1972 Passa-se a bola a Artur Jorge. “Tínhamos um público entusiasta que enchia com frequência a Luz e que proporcionava um ambiente fantástico e nos dava uma pressão positiva.” No banco, um inglês danado para o trabalho. Jimmy Hagan, de seu nome. “Impôs outras ideias, outra cultura e outra maneira de lidar com os jogadores. A disciplina férrea e dura, uma novidade em Portugal, fazia com os jogadores trabalhassem mais com o único objectivo de atingir o máximo.” Artur Jorge continua com a bola e vai marcar um belo golo. “Quando estávamos inspirados, éramos dos melhores do Mundo. Quer um exemplo? Nesse verão de 1972, Portugal ficou em segundo lugar na Minicopa do Brasil. Sabe quantos jogadores do Benfica estavam lá? 12. Aí dá para perceber a grandeza do Benfica a nível nacional e não só.”

 1976 Chega Mário Wilson e faz-se história: o Benfica é campeão pela mão de um treinador português pela primeira vez na história. Desta vez, a concorrência é diferente. Ao invés de Porto e Sporting, quarto e quinto classificados, é o Boavista de Pedroto e o Belenenses de Artur Jorge. Aliás, o Boavistão é o campeão de inverno. Na primeira jornafda da segunda volta, o Benfica goleia 4-1 no Bessa e passa para a frente. Após outras oscilações, a 23ª jornada é a decisiva: o Benfica vence 3-0 o Farense e o Boavista perde o dérbi nas Antas por 2-0. O Benfica isola-se definitivamente e só perde pontos na última jornada, com o Porto, em plena Luz, no seu 1000º encontro para o campeonato. Na equipa de Wilson, os dois melhores marcadores da 1.ª divisão: Jordão (30) e Nené (29). Juntos, têm mais que 13 das restantes 15 equipas, Sporting incluido.

 1980 O começo não é o ideal. De todo. O Sporting soma um ponto em quatro possíveis nos dois primeiros jogos fora de casa (2-1 no Restelo, 2-2 no Bessa). Para cúmulo, é eliminado da Taça de Portugal e da Taça UEFA. A partir de Dezembro, o único foco é o campeonato. Que não o ganha desde 1974. Há seis anos, portanto. Com o Benfica encostado às cordas, a luta pelo primeiro lugar é com o Porto. Na antepenúltima jornada, a equipa de Pedroto tropeça surpreendentemente com o Varzim, nas Antas (0-0), e o Sporting aproveita para chegar-se à liderança isolada. Uma semana depois, o Sporting visita Guimarães e a vitória chega com um golo do ex-sportinguista Manaca na própria baliza. Pinto da Costa, então ainda o director do departamento de futebol do Porto, lança a polémica e o defesa responde, indignado: “Não fui subornado pelo Sporting, mas estava aliciado pelo FC Porto.” No último dia, bis de Jordão no 3-0 à União de Leiria e solta-se o grito de campeão.

 1984 No 80º aniversário do Benfica, é só facilidades: 12 vitórias seguidas entre a 6ª e a 18ª jornadas, com cinco jogos a ganhar por cinco ou mais golos de diferença. Por falar neles, Nené é um animal de área, com 14 golos em cinco jogos. A primeira derrota só aparece à 21ª jornada, nas Antas, quando já leva três pontos de avanço sobre o Porto, segundo classificado. Aliás, veja-se a reacção do Benfica de Eriksson a esse deslize: 7-2 em Faro, 8-0 ao Penafiel na Luz. Nessa sequência, é obrigatório ilustrar a veia goleadora de Nené, com sete em 15 possíveis. Com jogadores assim, o título é uma questão de tempo. No Verão desse ano, o Euro de França promove a convocatória de oito campeões: Bento, António Bastos Lopes, Álvaro, Veloso, Diamantino, Chalana, Carlos Manuel e Nené.

 1988 Mais pontos (66), mais vitórias (29), mais golos marcados (88), menos golos sofridos (15), menos empates (8) e menos derrotas (1). Na primeira época com 20 equipas na 1.ª Divisão, o fantástico Porto excede-se, ganha sempre em casa (19 vitórias, tantas quanto o Benfica em toda a prova) e é campeão com inacreditáveis 15 pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Benfica. Isto com a vitória a valer ainda dois pontos. No plano individual, será oportuno destacar a pontaria de Gomes (21 golos, incluindo todas as provas), Rui Barros (17), Semedo (17), Sousa (16) e Madjer (14). Todos eles passam a barreira dos 10 golos, numa época em que o então jugoslavo Tomislav Ivic também embolsa Taça de Portugal (1-0 ao Vitória SC), Supertaça europeia (duplo 1-0 ao Ajax de Cruijff) e Taça Intercontinental (2-1 ao Peñarol, após prolongamento, em Tóquio).

 1992 A vitória sobre o Benfica na Luz (3-2), à 27.ª jornada, é o ponto culminante na caminhada do Porto rumo ao título nacional. Com uma vantagem de sete pontos sobre o rival, os dragões chamam a si todo o favoritismo, apesar dos “flops” Jorge Andrade e Mihtarski. A confirmação da festa – há muito anunciada – chega a quatro jornadas do fim, com o 1-0 ao Salgueiros, golo do búlgaro Kostadinov, aos 89’, no Bessa. O título assenta que nem uma luva aos portistas, uma equipa agressiva e disciplinada tacticamente, liderada pelo brasileiro Carlos Alberto Silva, que tem o mérito de prosseguir o trabalho de Artur Jorge e a sensibilidade de utilizar a voz da experiência protagonizada por jogadores como João Pinto, André, Jaime Magalhães, Semedo e Bandeirinha – em Lisboa, a filosofia dos outros grandes é bem diferente, com a aposta na juventude.

 1996 É incrível, e não estamos a falar ainda de Hulk, mas sim de Domingos. O avançado do Porto sagra-se melhor marcador do campeonato nacional e é o último português do século XX a arrebatar o cobiçado troféu da Bota de Prata. Com a bonita marca de 25 golos, quatro deles ao Sporting e mais dois ao Benfica, o finíssimo avançado dos portistas é a referência dos portistas, que também se destacam na retaguarda, com o categórico Vítor Baía (1044 minutos sem sofrer um único golo). Com 14 vitórias e três empates na primeira volta, o trio Bobby Robson, Augusto Inácio e José Mourinho já é o bicampeão nacional por antecipação, com a ajuda dos reforços Bino (Belenenses), Lipcsei (Ferencvaros) e Edmilson (Salgueiros).

 2000 É desta, ao fim de 17 anos? Vamos lá ver. O presidente José Roquette faz um esforço suplementar e contrata o dinamarquês Peter Schmeichel, recém-campeão europeu pelo United (2-1 ao Bayern, em Camp Nou). O arranque é tudo menos prometedor, com um empate nos Açores (Santa Clara, 2-2) e mais dois até à 5.ª jornada (duplo 1-1 vs. Estrela e Gil Vicente) – este último dita o adeus do treinador italiano Giuseppe Materazzi, cujas indicações nos treinos e nos jogos são traduzidas pelo ganês Ayew, ex-Lecce, para portugueses, brasileiros e argentinos. Quando Augusto Inácio é eleito para o lugar, o Sporting está a quatro pontos do Benfica. Daí para a frente, o leão só se deixa arranhar três vezes (Alverca, Porto e Benfica), apoiado pelos reforços de Inverno André Cruz, César Prates e Mpenza. O ambicionado título é festejado em Vidal Pinheiro, na última jornada (4-0 ao Salgueiros).

 2004 Sem perder um único ponto em casa nas 17 jornadas da 1.ª divisãp, a equipa de Mourinho altera o 4-3-3 da época anterior pelo 4-4-2. Constrói uma dupla de ataque mortífera (Derlei e McCarthy), resguardada por um misto de criatividade (Deco) e força-rigor (Pedro Mendes, Maniche e Costinha). Sem hipotecar a fantasia, a equipa consolida ainda mais a eficácia. Na última jornada de um campeonato feito em ritmo de passeio, o Porto ganha ao Paços e McCarthy faz-se melhor marcador do campeonato, com 20 golos, o último deles de bicicleta. A época ainda seria mais inesquecível com a conquista da Liga dos Campeões (3-0 ao Monaco em Gelsenkirchen). No onze da final, só dois estrangeiros (Carlos Alberto e Derlei). O que explica também o sucesso da selecção portuguesa no Euro desse ano.

 2008 É bem verdade, o Sporting de Paulo Bento arruina o início (Supertaça nacional) e o final da época (Taça de Portugal). Pelo meio, o Porto de Jesualdo impõe-se com normalidade e conquista o tricampeonato. A abrir, oito vitórias seguidas (e apenas um golo sofrido, do bracarense João Vieira Pinto). A fechar, mais oito em nove jornadas – o único senão é o inesquecível 3-0 do Nacional no Dragão, com dois golos de Fábio Coentrão. Para compor o ramalhete, o rei do golo também é azul. É argentino e chama-se Lisandro López, autor de 24 golos, dos quais sete bis, o último deles ao Benfica (2-0 no Dragão).

 2012 A época anterior do Porto é divinal: campeão na Luz, em Abril, vencedor da Liga Europa (1-0 ao Braga) e ainda da Taça de Portugal (6-2 ao Vitótria SC). O obreiro é André Villas-Boas, entretanto seduzido pelo Chelsea. O substituto é o adjunto Vítor Pereira e o homem até se dá bem. Quer dizer, o Benfica esgrime os seus argumentos e, até Janeiro, lidera o campeonato. Só que começa a cometer gafes e o Porto disso se aproveita para assumir o comando, devidamente reforçado com o argentino Lucho “El Comandante” González, reforço do mercado de inverno via-Marselha. Vai daí, é campeão nacional à maior de seis pontos sobre o Benfica e apenas uma derrota em 30 jornadas (Barcelos, 3-1 do Gil Vicente de Paulo Alves).

 2016 Até ferve. Ai ferve, ferve. Tudo começa no Verão, com a saída de Jesus do Benfica para o Sporting. A transferência motiva rios de tinta, polémica etc e tal. O Benfica contrataRuiVitória ao Vitória SC. A estreia dos dois treinadores é no Algarve, por ocasião da Supertaça. Ganha-a Jesus, 1-0 de Carrillo. As picardias eternizam-se, as piadas também. O Sporting começa bem melhor e até dá 3-0 na Luz. Depois, ainda comete a proeza de eliminar o Benfica da Taça de Portugal (2-1 em Alvalade, após prolongamento). Até Janeiro, o mundo é verde. Depois, é a reviravolta. Um golo de Mitroglou em Alvalade (1-0) garante o primeiro lugar ao Benfica. Ainda faltam oito jornadas. Pois acredite, nem Benfica nem Sporting perdem um único ponto. É mesmo ao photo-finish. Ganha o Benfica, com dois pontos de avanço.

Rui Miguel Tovar

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.