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Quando Roosevelt lançou as Olimpíadas nos EUA
Desporto 3 min. 24.06.2021
1904

Quando Roosevelt lançou as Olimpíadas nos EUA

1904

Quando Roosevelt lançou as Olimpíadas nos EUA

Desporto 3 min. 24.06.2021
1904

Quando Roosevelt lançou as Olimpíadas nos EUA

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Os Jogos Olímpicos "made in USA" não deixaram saudades. Pela primeira vez na história das Olimpíadas participaram dois atletas de África, mas foi sem querer. Sob um ambiente de racismo e de segregação, foram consideradas as Olimpíadas... antropológicas.

Pentágono, 1904. Na solidão da Sala Oval, um dos homens mais poderosos do mundo, Theodore Roosevelt, 26º presidente norte-americano, preparava-se para accionar o botão que, segundo os seus conselheiros na Casa Branca, iria mudar para sempre a história de Saint Louis, Louisiana. Esteve para ser Chicago, mas Roosevelt, "Teddy" para os amigos, achou que fazia sentido coincidir na mesma cidade a Exposição Universal, comemorativa do centenário da integração do Estado do Louisiana nos EUA, e os III Jogos Olímpicos da modernidade. 

A grande feira universal de Saint Louis foi assim inaugurada por controlo remoto. Para espanto dos presentes, foi o presidente que acendeu as luzes da exposição directamente de Washington DC. As Olimpíadas, para variar, como já tinha acontecido há quatro anos, foram remetidas para uma certa marginalidade. Os americanos não deram cavaco ao evento olímpico. A organização seguiu os trilhos acidentados de Paris, embora pior fosse impossível. A exposição universal e as Olimpíadas de Saint Louis acabaram por gerar estranhíssimas fusões antropológicas. As chamadas bizarrias, em claro ambiente de segregação.

À época, uma viagem intercontinental não era propriamente fácil. A organização disponibilizou um transatlântico para transportar os atletas da Europa para o continente americano, mas este nunca foi visto em qualquer cais europeu. Os atletas tiveram de se fazer transportar por conta própria. Sabe-se lá porquê, só estiveram representadas 12 nações, a mais baixa participação de sempre em Jogos Olímpicos. Dos 500 atletas presentes, 450 eram americanos. Não seria desta que os EUA perderiam a fama de grande potência olímpica: 238 medalhas, 80 de ouro. Nada a registar, não fosse as medalhas de George Poage e Joseph Stradler, norte-americanos, nos 200 e 400 m barreiras e no salto em altura. Pela primeira vez na história das Olimpíadas dois atletas negros conquistavam medalhas.

A grande inovação que a organização tinha reservado para os interstícios destes Jogos Olímpicos, os denominados "Dias Antropológicos", consistiam em manifestações do mais puro racismo, exibindo mexicanos, turcos, filipinos, negros, índios e até pigmeus, que trabalhavam como escravos e eram "artigos" de exposição na Feira Mundial, para entretenimento das brancas plateias. Quanto às provas olímpicas, também não faltaram novidades inimagináveis, entre as quais, a prova de cuspidela em comprimento para mascadores de tabaco. Por alguma razão, o Comité Olímpico Internacional acabou por anular 80 medalhas atribuídas nos JO de Saint Louis, onde o boxe se estreou como modalidade.

Ainda assim, neste evento ficaram para história alguns genuínos feitos olímpicos. Harry Hillman, bancário, venceu as provas de 400 e 400 m barreiras, proeza ainda por ultrapassar. Archibald Hahn - "meteoro de Milwaukee" - venceu os 60, 100 e 200 metros. A final dos 400m barreiras, disputada entre 13 atletas sem linhas individuais demarcadas transformou-se num bolo olímpico em que valia tudo menos correr. Mas o melhor, no pior sentido do termo, estava guardado para o fim: a maratona. Inadvertidamente, pela primeira vez na história das Olimpíadas participaram dois atletas oriundos de África, que estavam em "exposição" no pavilhão da África do Sul na Feira Mundial. Ninguém sabe como escaparam e como se incluiram na prova. Mas talvez se tenham arrependido. 

A maratona decorreu em território inóspito, por montanhas e vales, sem abastecimento de água, engolindo o pó que faziam os carros dos jornalistas que os acompanhavam, registando um recorde absoluto de desistências. Ainda assim, os atletas, alguns a correr com sapatos convencionais, deram o máximo a fugir dos cães selvagens. O norte-americano Fred Lorz, cortando a meta sem um pingo de suor, foi o grande vencedor. Ou melhor, não foi. Quando recebia a medalha das mãos da filha de Roosevelt, alguém provou que ele tinha feito mais de metade da prova a bordo de um carro. O segundo classificado devia estar a alucinar. Testemunhas oculares confirmaram que havia parado várias vezes para tomar um cocktail de brandy com estricnina. Até hoje não se sabe onde ficaram os 10 quilos que ele perdeu no percurso.

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