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Portugal vs. Uruguai. História à vista
Desporto 6 min. 28.11.2022
Mundial 2022

Portugal vs. Uruguai. História à vista

Golo de Cavani no jogo entre Uruguai e Portugal no Mundial 2018, em Sochi, na Rússia.
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Portugal vs. Uruguai. História à vista

Golo de Cavani no jogo entre Uruguai e Portugal no Mundial 2018, em Sochi, na Rússia.
Foto: Ronald Wittek/EPA
Desporto 6 min. 28.11.2022
Mundial 2022

Portugal vs. Uruguai. História à vista

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Nunca um treinador português ganha dois jogos seguidos no Mundial, é hoje?

Nunca um treinador português da selecção portuguesa ganha dois jogos seguidos num Mundial? Hein, como assim? É isso mesmo, vamos lá às contas.

Em 1966, é o brasileiro Otto Glória o seleccionador. Risca. Em 1986, é José Torres e a sequência é vitória (Inglaterra), derrota (Polónia), derrota (Marrocos). Em 2002, é Oliveira e aquilo é derrota (EUA), vitória (Polónia) e derrota (Coreia do Sul). Em 2006, é Scolari. Risca. 

Em 2010, é Queiroz com empate (Costa de Marfim), vitória (Coreia do Norte), empate (Brasil) e derrota (Espanha). Em 2014, é Paulo Bento com derrota (Alemanha), empate (EUA) e vitória (Gana). E em 2018 é Fernando Santos com empate (Espanha), vitória (Marrocos), empate (Irão) e derrota (Uruguai).

Agora estamos em 2022 e Fernando Santos começa com vitória (Gana). Segue-se o Uruguai. Tu queres ver? A selecção uruguaia acumula 20 títulos da FIFA, entre dois Mundiais, 15 Copas América, dois Jogos Olímpicos e o Mundialitos 1981. Para cúmulo, não sofre golos em fases de grupos de Mundiais desde um de Rooney em 2014. Daí para cá, cinco jogos seguidos a zero, um vs. Itália ainda em 2014, todos os três em 2018 e o da primeira jornada em 2022, vs. Coreia do Sul. É dose.


Contacto , Latina Radio , Foto: Anouk Antony/Luxemburger Wort
E se não ganharmos que se f***
Bem vistas as coisas, são os gestos de coragem que tornam os homens em deuses. Nunca a prudência criou um herói. Nem o recato.

No confronto directo entre Portugal e Uruguai, empate técnico com uma vitória para cada mais um empate. A estreia dá-se em 1966, como ensaio para o Mundial em Inglaterra, e Portugal dá três-secos sem apelo nem agravo, no Jamor. Tarde de glória para José Torres, autor de um hat-trick. O número 9 faz jus à fama de goleador e dá trabalho até aos 64 minutos, altura em que se lesiona no pescoço (ouchhhhhh), atingido pelo pé direito de Emilio Alvaraez, no lance do 3:0 numa recarga a uma tremenda bola de Eusébio à trave. 

Entra Figueiredo e o ataque perde algum gás. Que não o sentido de baliza, daí que Taibo continue a fazer defesas do arco da velha e o Uruguai, também presente no Mundial-66, escape a uma goleada. O seleccionador uruguaio Ondino Viera justifica a exibição mais cinzenta com a viagem de autocarro de Vigo até Lisboa.

Seis anos depois, em 1972, Portugal e Uruguai voltam a encontrar-se, agora em campo neutro. O majestoso Maracanã é o palco de um irrequieto 1:1 para a Minicopa, uma competição criada pela federação brasileira para celebrar os 150 anos da independência. A selecção portuguesa, com Eusébio em grande forma, vem de uma série de cinco vitórias seguidas. O Uruguai chega e mete um travão à euforia. Culpa do seu estilo truculento.

Aquilo é mais wrestling e os jogadores portugueses queixam-se das constantes entradas desleais, a única forma dos uruguaios de travar o nosso futebol bonito. Diz o guarda-redes José Henrique, autor de um senhor frango no 1:0 de Lattuada: "São umas bestas". O central Humberto Coelho fala de um futebol "impróprio para consumo", o outro central (Messias) descreve-os como "os mais ordinários" e o lateral-esquerdo Adolfo como "pugilistas". Está traçado o retrato. Salva-nos Jaime Graça – na folga goleadora de Eusébio e Dinis, é um remate seu do meio da rua a fixar o 1:1. Um empate que equivale a vitória, no entender dos dirigentes da federação que mantêm o prémio de sete contos pelo esforço e espírito de luta.

O mais recente embate é o dos oitavos-de-final do Mundial-2018, em Sochi. A selecção uruguaia acabara de fazer história com três vitórias e zero golos sofridos na fase de grupos. Nunca visto. E continua a sua epopeia, à conta de um bis de Cavani. Pelo meio, Pepe ainda empata e equilibra as contas. Nada feito, Cavani está imparável e afasta Portugal. Baaaaah.

Se mudarmos a agulha para o dia da semana, aí Portugal já tem mais razões para sonhar. Porque segunda-feira é um bom dia para ganhar. Em Mundiais, queremos dizer. A aventura começa em 2002, naquele 4:0 vs. Polónia. Na ressaca da surpreendente derrota com EUA, pede-se uma chicotada metedológica e António Oliveira faz duas alterações: saem Beto e Rui Costa, entram Frechaut e Paulo Bento.

É o regresso do duplo pivot. A Polónia, invicta na fase de qualificação, dá uma ajuda e arrisca pouco, muito pouco. Como tal, é eliminada sem apelo nem agravo do Mundial asiático. Vale-nos Pauleta. O primeiro golo é um mimo: passe longo e bem medido de João Vieira Pinto, amortie do 9 em plena grande área, drible em cima de Hajto e remate indefensável com o pé direito. O 2-0 chega na segunda parte, já com Rui Costa e Beto em campo. Desmarcação de Figo pela direita e cruzamento para a entrada da área, onde Pauleta bate Kozminski ao sprint. 

O hat-trick do açoriano é selado com uma finta sobre o capitão Waldoch antes do remate vitorioso, com o pé esquerdo. Para acabar, Capucho cruza, Rui Costa finaliza em carrinho. É o 4:0, game over. O pior já lá vai. Será? Segue-se a Coreia do Sul. Ai ai ai.

Portugal só volta a jogar à segunda-feira em 2010. Chove copiosamente na Cidade do Cabo e Portugal esgrima argumentos com a Coreia do Norte numa reedição daquele inesquecível 5:3 em 1966.

Desta vez, só há sete golos em vez de oito e todos pertencem à mesma equipa. Curiosamente, é a Coreia que obriga Eduardo a esticar-se para impedir o 1:0 de Yong Jo. Só depois é que se dá início ao festival, por Meireles, numa brilhante abertura de Tiago, substituto do indignado Deco. Indicado o caminho do golo, a Coreia do Norte soçobra sem honra nem glória e assistimos a uma segunda parte completamente desequilibrada, com golos para todos os gostos, dois deles de cabeça (Hugo Almeida e Tiago), um do banco de suplentes (Liedson) e outro sui generis (Ronaldo). 

Pormenor assustador: a Coreia só acumula três faltas em 94 minutos. Ei-las: Chol Jin aos 32', Yun Man 83' e Jong Hak 90'+2. A goleada permite-nos ter uma diferença generosa de +9 em relação à Costa do Marfim e o sonho do apuramento para os oitavos-de-final está à mão de semear – basta-nos um empate no jogo em falta, vs. Brasil de Dunga.

O terceiro e último jogo de Portugal em Mundiais é em 2018, vs. Irão. Há muita tensão no ar, desde o sorteio. Queiroz e Ronaldo pertencem a dois mundos bem separados, precisamente desde o Mundial-2010 em que Queiroz é o seleccionador e Ronaldo o capitão. Quando Portugal é despachado pela futura campeã Espanha, nos oitavos-de-final, Ronaldo apresenta-se na zona mista só para dizer isto aqui ó: "Perguntem ao Carlos."


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

O caldo está servido. Antes do jogo, há uma guerra fria no ar. As duas partem nem se falam por aí além. Nota-se nervosismo. E o jogo é quente. À beira do intervalo, uma trivela de Quaresma dá uma alegria a Portugal. Na segunda parte, o Irão avança um pouco mais. Nada de especial, nem de meter medo a Patrício. E, aliás, é Portugal quem tem o 2:0 nos pés, por Ronaldo. Só que o guarda-redes Beiranvand defende o penálti. O Irão acredita e cresce como nunca. Já nos descontos, Ansarifard empata de penálti. E, no quadradinho seguinte, Mehdi (esse, o Taremi) atira à malha lateral com tudo à sua mercê para apurar o Irão e atirar Portugal para casa.

O Uruguai tem a palavra. O Uruguai de Coates e Ugarte, dois sportinguistas sem companheiros de equipa no outro lado do relvado, em Lusail, a 23 quilómetros de Doha.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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