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Portugal, três derrotas em Praga
Desporto 4 min. 24.09.2022
Histórias da Bola

Portugal, três derrotas em Praga

 A última visita a Praga é em outubro 1989, em que Rui Águas fez parte da formação das 'quinas'.
Histórias da Bola

Portugal, três derrotas em Praga

A última visita a Praga é em outubro 1989, em que Rui Águas fez parte da formação das 'quinas'.
Foto: Lusa
Desporto 4 min. 24.09.2022
Histórias da Bola

Portugal, três derrotas em Praga

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Liga das Nações, ei-la. Jogam-se as duas últimas jornadas da fase de grupos para decidir os quatro primeiros de cada grupo rumo à final four. Portugal joga em Praga e, depois, em Braga. Se a sequência for empate e vitória, missão cumprida. Caso contrário, 'game over'.

Praga é, por excelência, a cidade de Kafka, o autor da "Metamorfose". Pois bem, Portugal tem mesmo de mudar o registo do seu jogo para chegar longe. E mudar significa defender bem e atacar melhor. Ou seja, evitar o fiasco do último jogo oficial, na Suíça, em que se sofre um golo no primeiro minuto (Seferovic) e falham-se oportunidades atrás de oportunidades, umas por mérito (maiúsculo) do guarda-redes, outras por aselhice (pura) dos artistas lá da frente.

E, atenção, aqui os artistas são mesmo artistas. Zero ironia, é simplesmente um facto: Portugal tem jogadores para fazer a diferença em qualquer dia da semana, em qualquer palco, seja qual for o adversário. Basta uma palavra: atitude. Veja-se o caso do Benfica de Jesus e o Benfica de Schmidt. Um amarra os jogadores à sua verdade táctica, outro liberta-os. A diferença nota-se, e até é abissal.

Metamorfose em Praga, vamos lá. Até porque Portugal nunca ganha em Praga. Aliás, nem empata. Três jogos, três derrotas. Limpinho, limpinho. A última visita é ainda no tempo da Checoslováquia. Lindo, o nome. E que saudades de o dizer voz alta. Todos juntos, vá: Che-cos-lo-vá-qui-a. Feito o tributo, venha de lá a Chéquia. A última visita a Praga é em Outubro 1989, na qualificação para o Itália-90, e é o embaraço total. Juca começa com oito defesas entre um líbero (Frederico), dois centrais de marcação (Sobrinho e Venâncio), dois trincos (André e Nunes) e dois backs laterais (João Pinto e Veloso) mais o inevitável guarda-redes (Silvino).

Todas as cautelas desabam com o golo de penálti de Bilek (falta desnecessária de Frederico sobre Chovanec à entrada da área) e a expulsão do avançado Griga (por agressão a Silvino, com bola) aos 17 minutos. Faltam 73’ para o fim e Juca olha para o banco. Há Neno, Fonseca, Jorge Ferreira, Lima e Paneira. O seleccionador decide-se pelo mais experiente e tira Sobrinho para incluir Paneira. É dos seus pés o 1:1 com um livre directo à trave de Miklosko. O guarda-redes checoslovaco faz-se ao lance e deixa a baliza aberta. 


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Rui Águas vê a oportunidade e cabeceia à vontade. "O meu golo? Em vez de conduzir à vitória foi como que um desgraçado mote para a derrota inesperada." Sim, derrota. Porque uma hesitação entre Frederico e Venâncio proporciona um contra-ataque de Chovanec travado em falta por André na imediação da área. Do respectivo livre, nasce o bis de Bilek num remate forte e colocado, por cima de uma barreira com sete homens. Silvino nem se mexe e está feito o resultado final de 2:1.

Quatro anos antes, em Setembro 1985, joga-se o apuramento para o México-86. A Checoslováquia, que empatara 0:0 em Malta e apanhara 5:1 da RFA em casa nos dois últimos jogos de qualificação, apanha-se a vencer aos 20 minutos, por obra e graça de Hrustka (avançado do Bohemians Praga). O golo é um rude golpe na estrutura portuguesa, sabe-se lá porquê. Ainda faltam 70' para o fim, só que não se consegue criar perigo na baliza à guarda de Miklosko. Tanto assim é que Portugal acaba o jogo com zero remates enquadrados. Já os checoslovacos atiram ao poste por Griga (76') e vêem um golo ser salvo na linha por João Pinto (83') em dia de estreias para Venâncio, Frederico e Pedro Xavier (o avançado da Académica entra aos 65’ e vê um amarelo aos 68’, supersónico). A descrença é tanta que o vice-presidente federativo Amândio de Carvalho já só pensa no Euro-88: "O sorteio realiza-se em Dezembro ou Janeiro e aí teremos uma palavra a dizer."

Dez anos antes, em Abril 1975, Portugal visita Praga pela primeira vez e é um ver-se-te-avias. Bicovsky, Nehoda, Petras. Agora é escolher uma destas palavras em checoslovaco para definir pesadelo. Ou todas. Que tormento, a selecção apanha uma tareia imprevisível, com 3:0 ao intervalo e 5:0 antes dos 60 minutos. Pobre Damas, com dois frangos à sua conta e nem uma defesa para amostra. À sua frente, o quarteto defensivo nunca se entende com a marcação, do meio-campo nem ai nem ui, do ataque nem vê-lo. 

É uma exibição confrangedora, do nível mais baixo dos últimos tempos, com uma incapacidade total de dar a volta ao rumo dos acontecimentos. E a atirar para as couves o 0:0 em Wembley, que até dera uma certa esperança. Enfim, é o pior resultado desde o 9-1 vs Áutria em 1953 e, à falta de melhores argumentos, significa quase o adeus ao Euro-76. Vá lá, em Faro, nesse mesmo dia, à noite, a selecção de Esperanças ganha à Checoslováquia por 2:0 (Elefant, na própria baliza, e Abreu, de penálti).


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A Checoslováquia é dominadora, sem dúvida. Daí para cá, Portugal agiganta-se e ultrapassa o futebol físico dos checos com talento. Há ali o chapéu de Poborsky em véspera de São João, sim senhor, e é tudo. Desse 1:0 em Birmingham nos ¼ do Euro-96 até aos nossos dias, Portugal vira a balança a seu favor e já vai em três vitórias seguidas, entre o 3:1 em 2008 (Deco, Ronaldo e Quaresma), o 1:0 em 2012 (Ronaldo) e o 2:0 em 2022 (João Cancelo e Gonçalo Guedes). E hoje, em Praga? Me-ta-mor-fo-se, Che-cos-lo-vá-qui-a, vi-tó-ri-a.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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