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Exigir medalhas refastelados no sofá
Opinião Desporto 3 min. 28.07.2021
Portugal em Tóquio 2020

Exigir medalhas refastelados no sofá

À esquerda, (n°24) o atleta português João Pereira em prova nos Jogos Olímpicos deste ano, no Japão.
Portugal em Tóquio 2020

Exigir medalhas refastelados no sofá

À esquerda, (n°24) o atleta português João Pereira em prova nos Jogos Olímpicos deste ano, no Japão.
Foto: AFP
Opinião Desporto 3 min. 28.07.2021
Portugal em Tóquio 2020

Exigir medalhas refastelados no sofá

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Com as Olimpíadas toda a gente parece exigir medalhas aos atletas portugueses. Mas ninguém se lembra deles durante quatro anos.

Chegam os Jogos Olímpicos e Portugal põe-se a exigir aos atletas resultados que não exigiu aos governos por investimentos em apoios ao desporto e equipamentos desportivos nas últimas décadas. Os atletas olímpicos servem para a foto da praxe com Marcelo antes ou depois da Delegação partir para os Jogos. Mas não servem sequer para que os três desportivo diários A Bola, Record e O Jogo, que juntos vendem mais de 30 mil jornais por dia, tenham na primeira página a abertura dos Jogos e a participação portuguesa em Tóquio, em vez do agenda setting sobre contratações, especulações e transferências de um clube de futebol local.

Os atletas servem para, de quatro em quatro anos, projectarmos neles as nossas frustrações quando se esfalfam do outro lado do mundo. A cada quatro anos sabemos quem são porque ouvimos o que têm a dizer. Por exemplo, João Pereira, 33 anos, 5º lugar no Rio, em Tóquio ficou em 27º (num total de 55) no Triatlo – nadam-se 1500m, fazem-se 40km de bicicleta, depois correm-se 10km – lamentou a “instabilidade” e a falta de investimento” no desporto em Portugal: “É bastante difícil, as condições são bastante duras, vivemos muito com base só no resultado. O amanhã é sempre imprevisível (...). Falta investimento, capital, para melhorar as condições. É insuportável competir com estes atletas que estão o ano todo em estágios, viajam nas melhores condições.”

Quem o ouve assim, parece que estamos a falar com um trabalhador precário. E é-o: só quem olha para atletas de alta competição como nós, é que não vê em João Pereira o exemplo da excepção que os atletas portugueses cumprem. Porque continuamos a acreditar no mito do desportista self-made, uma criança pobre, jogando à bola descalça, brinca na areia e muito dotada que, com esforço individual e sacrifício familiar, é bafejada pela sorte de encontrar um treinador tipo olheiro que o transforma num grande Ronaldo.

O desporto em Portugal é para os que “acreditaram” muito, porque isto só vai lá com “mérito” e talento de génio. Não vai lá com mais equipamentos desportivos, investimento em desporto escolar desde cedo, incentivo à prática regular em todas as idades e modalidades, com ginásios, pavilhões, piscinas municipais acessíveis e de proximidade, apoios às colectividades e associações. E quando já são, ou querem continuar a ser, atletas: apoios específicos à prática, legislação laboral ou escolar à medida (bem como aos treinadores).


TOPSHOT - Volunteers clean the court during the women's preliminary round group B basketball match between France and Japan during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Saitama Super Arena in Saitama on July 27, 2021. (Photo by Brian SNYDER / POOL / AFP)
Olimpíadas de sofá
O diário dos atletas portugueses e luxemburgueses nos Jogos Olímpicos no Japão.

O Eurobarómetro (2018) revelava que a percentagem de cidadãos que pratica desporto ou actividade física regular é mais alta na Finlândia (69%), Suécia (67%) e Dinamarca (63%). Já na Bulgária, Grécia e Portugal, 68% dos cidadãos dizem não praticar nada. A ligação entre nível de educação e frequência desportiva também é importante: na UE, 73% dos que deixaram a educação aos 15 anos não faz qualquer desporto.

A maioria queixa-se de que as autoridades locais não fazem o suficiente. E os países que menos praticam também insistem que é por falta de tempo. Imagine-se que tínhamos nascido com um talento nato para o triatlo que se perdeu naquela maratona ao fim da tarde quando temos de correr para apanhar dois autocarros, buscar os miúdos à escola, dar-lhes banho, cozinhar, tratar da casa e da família. Em Portugal, fazer desporto é caro, os equipamentos são muitas vezes raros e exíguos, os apoios inexistentes e as pessoas trabalham muitas horas para salários precários. Desporto é a última coisa que temos na cabeça. Excepto quando assistimos às Olímpiadas refastelados no sofá.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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