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Passou do prazo? Venda-se
Comentário Desporto 3 min. 03.09.2020

Passou do prazo? Venda-se

Passou do prazo? Venda-se

Foto: Eric Alonso/ZUMA Wire/dpa
Comentário Desporto 3 min. 03.09.2020

Passou do prazo? Venda-se

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A grande aposta da Apple para conseguir entrar num mercado de streaming completamente dominado pela Netflix chama-se "O programa da manhã": uma série de ficção sobre, er, um programa de tv matinal onde a apresentadora, interpretada por Jennifer Aniston, se tornou na maior estrela do país, ao longo dos mais de 15 anos em que apareceu no pequeno ecrã.

A apresentadora negoceia com a estação um novo contrato multimilionário que reconheça o seu valor supostamente incomparável. Mas engana-se: do outro lado da mesa está uma empresa com audiências em queda e um presidente que decidiu renovar toda a equipa de produção, a começar pela sua maior estrela... Só lhe falta encontrar uma estratégia para o conseguir parecendo não o querer – ou seja, hostilizando Jennifer até que ela se farte e saia pelo seu próprio pé.

Agora um exercício: em vez da estação de tv, digamos FC Barcelona, em vez de audiências em queda falemos em derrotas cada vez mais pesadas, em vez de Jennifer Aniston temos Lionel Messi.

Foi há mais de 15 anos que Messi apareceu, uma fria noite de novembro de 2003 onde um jogo amigável serviu tanto de inauguração do estádio do Dragão como de estreia do jogador. Desde aí, o argentino tornou-se num dos maiores futebolistas de todos os tempos, carregando o Barça às costas por anos a fio, marcando 634 golos, vencendo quatro ligas dos Campeões e dez ligas espanholas no processo. Números estratosféricos. Certamente nenhum presidente seria incompetente ao ponto de alienar a maior estrela de sempre...?

É exatamente isso que pretende o presidente do Barcelona, Josep Bartomeu, que foi irritando o jogador até finalmente pedir ao novo treinador (Koeman) que lhe dissesse algo como "os privilégios acabaram" enquanto, no dia seguinte, Luís Suarez era despedido por telefone. Ou seja, de forma metódica, quase maquiavélica, Bartomeu conduziu Messi exatamente até ao ponto de ebulição desejado: a rescisão unilateral, o ónus da "culpa" pelo fim do longo casamento, a infâmia da ingratidão em rescindir por fax e recusar-se a treinar com o clube que o formou, promoveu e lhe serviu de casa. Durante década e meia, Barcelona = Messi; logo, num meio futebolístico que é fortemente simbólico e histericamente emocional, parece quase um sacrilégio dizê-lo, mas o presidente do clube está a tomar a decisão racionalmente correta – exatamente da mesma forma que o presidente do Real Madrid tomou a decisão de vender o grande rival Cristiano Ronaldo quando ele tinha a mesma idade, 33 anos.

De cada um dos lados, empresa e trabalhador, há sempre um momento ideal para a saída, o difícil é agarrá-lo.

Este espaço não é sobre desporto, pelo que não discuto se a substituição de Messi por outro(s) jogador(es) vai tornar o Barcelona mais forte sobre o terreno de jogo (aliás a curto prazo isso é improvável); aqui importa a medida de gestão de vender um ativo em rápida desvalorização pelo preço mais alto que ainda será possível obter por ele. As contas do Barcelona já estavam perigosamente no vermelho, a epidemia tornou a situação crítica, e os recentes estatutos do clube responsabilizam pessoalmente os diretores pelas dívidas contraídas – ou seja, o passivo pode custar literalmente muito caro a Bartomeu. Reconstruir e rejuvenescer a equipa com os encargos atuais, como o salário de 100 milhões anuais pagos a Messi, também se afigura impossível. Mas poupar esses 100 milhões e ainda obter mais uns 200 pela transferência do jogador equilibraria o balanço com um só tiro...


Jorge Messi, pai do astro argentino à chegada a Barcelona.
Pai de Messi diz que será "difícil" o filho continuar no FC Barcelona
O pai e representante do futebolista Lionel Messi, Jorge Messi, afirmou hoje à chegada a Barcelona que vê difícil que o filho continue no clube catalão, que representa há duas décadas.

O caso é interessante sobretudo porque, no fundo, se aplica a qualquer trabalhador em qualquer empresa. De cada um dos lados há um momento ideal para a saída: para a empresa é aquele em que o rendimento do trabalhador, por muito alto que seja, é ultrapassado pelo seu custo; para o trabalhador o momento chega quando o seu trabalho já não é tão valorizado ali como o seria noutra parte. Para Messi e para o Barcelona, ambos esses momentos já chegaram.

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