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Olimpíadas de 1900, uma verdadeira tragédia
Desporto 3 min. 23.06.2021
Paris 1900

Olimpíadas de 1900, uma verdadeira tragédia

Charlotte Cooper, tenista britânica, foi a primeira mulher a receber uma medalha de ouro, nas Olimpíadas de 1900 em Paris.
Paris 1900

Olimpíadas de 1900, uma verdadeira tragédia

Charlotte Cooper, tenista britânica, foi a primeira mulher a receber uma medalha de ouro, nas Olimpíadas de 1900 em Paris.
Desporto 3 min. 23.06.2021
Paris 1900

Olimpíadas de 1900, uma verdadeira tragédia

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Os Jogos Olímpicos de Paris foram uma tragédia, unanimemente considerados os piores de sempre. Como diriam os gregos, especialistas em tragédias e Olimpíadas: uma verdadeira "anékdota". São 30 Olimpíadas e 30 histórias até ao início de Tóquio2020.

Se os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna foram na Grécia por questões históricas, os primeiros do século XX teriam de honrar a pátria do excelentíssimo barão de Coubertin. Sem surpresa: França. As Olimpíadas de 1900 ficariam na história como um desastre épico. Ainda hoje são conhecidos como os piores JO de sempre. Civilizacionalmente, nem tudo foi mau, já que a paridade se tornou modalidade olímpica, razão pela qual mademoiselle Charlotte Cooper, tenista britânica, se tornaria na primeira mulher a receber uma medalha de ouro na História dos Jogos Olímpicos. 

Charlotte Cooper.
Charlotte Cooper.
Foto: Wikipedia/Domínio público

O futebol também foi pela primeira vez integrado numa competição olímpica e foi uma equipa inglesa (Uptown Park FC) a levar a melhor sobre a Union des Sociétes Françaises de Sport Athletiques, por 4-0. Como era o único jogo, esta vitória valeu ouro. Quanto à organização, digamos que ninguém acreditava ser possível reunir tantos problemas num evento só. Talvez porque estes Jogos Olímpicos coincidiram no tempo e nos espaço com a Exposição Universal de Paris, que ofuscou por completo o olimpismo. Paris fez a sua escolha. E os Jogos Olímpicos sentiram-na.

Justiça seja feita à organização (termo abusivo), houve coerência do princípio ao fim. Os problemas começaram logo na cerimónia de abertura e mantiveram-se constantes até "au revoir". Para dar início às Olimpíadas de Paris 1900, nada melhor que uma regata num lago, num dia sem uma brisa. Oportunidade única para ver os melhores velejadores do mundo em "super slow-motion", perdendo a corrida para os patos. A inolvidável cidade da luz brindou os Jogos Olímpicos com um longo apagão, não confundir com avaria técnica. Pura e simplesmente, não havia energia elétrica. O que era difícil de entender, já que uma das supostas inovações destas Olimpíadas, guardada para os 400 m barreiras, tinha as barreiras feitas com o sólido material com que se faziam os postes elétricos das ruas de Paris. Se os atletas sobrevivessem às ditas (bastava não lhes tocar, nem ao de leve), teriam de desenvecilhar-se de outra enorme supresa antes de cortar a meta: uma vala. Sem luz elétrica, os balneários, assim como as instalações para os atletas e para as respectivas comitivas (longe pela distância do centro de Paris e longe de algo remotamente parecido com uma aldeia olímpica) em nada perdiam para a pior das "bidonville".

A pista "olímpica" para as provas de atletismo também ficava no campo, a milhas do bulício de Paris, tinha vegetação autóctone no próprio piso da pista, o que dispensou qualquer tipo de marcação oficial. Sabe Deus onde ficavam as linhas, incluindo a linha de meta, que geralmente se considerava cortada quando passava um atleta gaulês. Os saltadores em comprimento e em altura tiveram de escavar as suas próprias caixas de areia. O tempo esteve agradável, nem demasiado quente, nem demasiado frio. Noutro local, noutras circunstâncias, com outra organização, seria propício à conquista de novos recordes. Nos Jogos Olímpicos de 1900, os únicos recordes estabelecidos foram os de queixas oficiais, tantas quantas as delegações presentes, tirando uma.

Também foi em Paris que pela primeira vez - e última -, se matou pela glória olímpica, num torneio de tiro aos pombos. Nesta competição participaram quatro "atletas", sendo que a vitória foi atribuída a um belga, que abateu 21 exemplares. Só os pombos e o quarto classificado não levaram medalhas. Mais tarde, veio a saber-se que muitos dos vencedores das inúmeras provas também regressaram a casa sem as respetivas medalhas. Muitos, só as receberam dois anos depois. Talvez porque o país anfitrião, não excluindo o recurso a manigâncias, tivesse nos planos ficar com a maioria. 

Os EUA, que em Atenas já se tinham afirmado como potência olímpica, em França ficaram relegados para segundo plano. França conquistou 102 medalhas, 29 de ouro. Os norte-americanos conquistaram as medalhas possíveis: 53. Por acaso estratégico, todas as finais de atletismo em que os americanos eram favoritos foram realizados ao domingo. Por todos os meios, a delegação americana tentou mudar o dia das provas para outro que não fosse santo. Mas os irredutíveis franceses acharam melhor não atender estas exigências. Em nome, imagine-se, do rigor organizativo. Et voilà!

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