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Para sempre, Rui Manuel Trindade Jordão
Desporto 15 min. 18.10.2019

Para sempre, Rui Manuel Trindade Jordão

Para sempre, Rui Manuel Trindade Jordão

Foto: LUSA
Desporto 15 min. 18.10.2019

Para sempre, Rui Manuel Trindade Jordão

Quando a morte sai à rua e leva um dos maiores goleadores da história portuguesa, só nos resta chorar a relembrar os seus infinitos momentos memoráveis. Um texto de Rui Miguel Tovar.

 Jordão, Rui Manuel Trindade Jordão. Por muitas voltas que dêem, é o único a sagrar-se melhor marcador da 1.ª divisão por Benfica e Sporting. Por muitas voltas que dêem, é o primeiro a marcar dois golos num jogo do Europeu (depois, só Nuno Gomes e Ronaldo). Por muitas voltas que dêem, é o primeiro a marcar pela selecção no prolongamento. Por muitas voltas que dêem, é o nosso jogador mais felino de sempre. As palavras único, primeiro e sempre associam-se invariavelmente à classe distinta de Jordão.

 É um fenómeno incomparável, tanto pela superior categoria técnica como pela maneira solitária de estar em campo: um gesto muito comum (e apreciado) é o de rematar à baliza e resignar-se com a falta de pontaria a andar de cabeça baixa como que à procura do brinco do Vítor Baptista. Génio e figura, o Rui. Eximio marcador de penáltis, comete a proeza de só acertar um em quatro ao serviço de Portugal. Qual é o “um”? Aquele à URSS de Lobanovsky, no jogo do tudo ou nada para o Euro-84. O dia sabe-se de cor e salteado, qual tabuada: 13 Novembro 1983.

 Na Luz, os cartazes de anti-sovietismo primário deambulam nas bancadas ao sabor do vento. Que é forte, aliás. Portugal tem de ganhar, a URSS pode dar-se ao luxo de empatar (em Moscovo, na primeira volta, acaba 5-0 para os “maus”). Perto do intervalo, Chalana sai da esquerda e flecte para o meio antes de iniciar mais uma corrida até à baliza. Antes de entrar na grande área, Borowski trava-o. È falta mais que evidente, o árbitro frances Georges Konrath assinala penálti. Os soviéticos protestam como nunca, os portugueses afastam-se todos da confusão. Todos, não. Jordão continua impávido e sereno na marca do penálti, à espera do momento. Serenados os ânimos, marca-se o penálti. Jordão parte com calma para a bola e engana Dasaev: bola para um lado, guarda-redes para o outro.

 O céu ilumina-se. Na segunda parte, Portugal está mais perto do 2-0 do que a URSS do 1-1 e Jordão subscreve essa sensação com uma bola ao poste esquerdo de Dasaev. No final, Portugal está no primeiro Europeu da sua história, à sétima tentativa, e a URSS falha o objectivo. Lobanovsky nem se digna a falar com a RTP e fecha abruptamente a porta do balneário na cara de Carlos Fino com um zangado “niet”. À noite, na televisão, a reportagem do jogo acaba com essa cena e o comentário mordaz “e foi a verdade a quem tivemos direito”. Já Jordão fala pelos cotovelos. “É um momento glorioso, temos de aproveitar o dia e pensar já no futuro, porque ir ao Europeu é muita responsabilidade. Não só futebolística como também social. Afinal, vamos encontrar muitos emigrantes em França e queremos sair-nos bem para eles serem devidamente recompensados.” Mais adiante, Jordão fala do seu segundo Europeu. “No meu primeiro, chegámos à final. Quem sabe agora?”

 Jordão refere-se ao Europeu sub-18, na então Checoslováquia, em 1971. A equipa de Peres Bandeira tem Fidalgo na baliza, Shéu no meio e Alves no ataque. Na qualificação, 3-2 à França de Giresse e Lacombe na Tapadinha e 0-0 em Paris. A caminho de Praga, já para a fase final, Portugal perde 1-0 na Roménia. Diz Fidalgo. “Além da derrota, a nossa estrela lesiona-se [Alves] e é aí que entra um miúdo que jogava comigo no Benfica, o Jordão.” Com Jordão a 9, ao lado de Gregório Freixo (Académica) e Nando (Sporting), a selecção ganha todos os jogos da fase de grupos por 1-0, vs Suíça, Àustria e Espanha. Na meia-final, 2-1 à RDA.

 É o primeiro grande jogo de Jordão, no que diz respeito à análise detalhada da imprensa portuguesa. O adjectivo arrebatador é o mais comum. Porque Jordão pega na bola e recreia-se. Pobres alemães, sem arte nem engenho para dar conta do recado. O primeira remate do jogo é de Jordão, o segundo também. Ao terceiro, golo. E que golo. Ao passe de Gregório Freixo, avança determinado para a área e dribla quatro adversários. Quatro! De repente, solta uma bola indefensável. È o 2-0, a RDA está arrumada e Portugal apura-se para a primeira final de sempre no estrangeiro.

 Na decisão, Eastoe desfaz Portugal com um bis antes do intervalo. Acaba 3-0 para os ingleses, Fidalgo é eleito o melhor guarda-redes do torneio e Jordão a revelação, naturalmente. “Quando acordámos, já estava 3-0. Nada a fazer, eles eram mais fortes que nós. O Eastoe, depois, muito depois, chegou a jogar em Portugal, sempre no Algarve.” Certo, certíssimo. Primeiro Farense, depois Louletano. E até marca um golo na 1.ª divisão, no dérbi algarvio com o Portimonense em 1987. Por essa altura, já Jordão é um goleador de créditos firmados no futebol português.

 Contratado ao Benfica de Benguela, de onde é natural, entra para os juniores do Benfica e sobe aos seniores, por obra e graça do treinador inglês Jimmy Hagan. Instala-se no Lar do Jogador, juntamente com Shéu, Eurico, Alves, Franque e Fidalgo. Só depois é se muda para uma casa na Estefânia, partilhada com mais um benfiquista (Fidalgo) e dois sportinguista (Nando e Joaquim Rocha). Outros tempos, bem mais formidáveis. Estreia-se nas competições europeias (4-0 ao Wacker) e só depois na 1.ª Divisão (2-1 ao Beira Mar). Com Eusébio na recta final da sua carreira, os adeptos apostam em Jordão como sucessor. Obviamente, nunca chega lá. É impossível aproximar-se do rei, só que Jordão deixa argumentos de peso, nomeadamente o título de melhor marcador da 1.ª divisão 1975-76, com mais golos (30) que jogos (28). A façanha permite-lhe arrecadar a Bola de Prata a nível europeu, só atrás do cipriota Kaiafas (Omonia Nicósia, 39), e transferir-se para Espanha. Jordão e um fenómeno ibérico. Entre Benfica (1971-76) e Sporting (1977-87), há Saragoça.

 A mudança vale nove mil contos ao Benfica e significa mais um emigrante em Espanha. “Vou receber aqui três vezes mais que no Benfica, mas podia ter ido ganhar mais no Anderlecht, só que escolhi Saragoça pela proximidade a Lisboa. Estou só a um par de horas de casa por avião.” A ideia de um campeonato mais forte, com um maior número de campos pesados e adversários duros, é uma realidade normal. “Oxalá não me marquem em cima. Se isso acontecer, vou escapar-me como já acontece no campeonato português. Não será um problema. Pelas informações do Bastos [defesa do Sporting, então no Saragoça], vou dar-me bem na Liga e ser titular.”

 Verdade, Jordão adapta-se sem problema. Aliás, a estreia é a mais sedutora possível com três golos ao OFK Belgrado (4-3 após prolongamento) no Estádio Romareda, para a meia-final do torneio Carlos Lapetra, em Saragoça. “De todas as estreias, a de Jordão foi a menos convicente”, escreve o catalão El Mundo Deportivo. É o hat-trick menos convicente de sempre, está visto. Dois dias depois, a 20 Agosto 1976, a final do quandrangular com o Gornik Zabrze dita a vitória do Saragoça por 2-0. Jordão, sempre ele, em destaque. Como assistente para o 1-0 de Arrúa e autor do 2-0. No campeonato propriamente dito, é o único português a marcar ao Real Madrid nas duas voltas. Primeiro em Saragoça, no mesmo dia em que Gomes marca seis ao Atlético nas Antas (8-1) e James Hunt sela o título de campeão do mundo de Fórmula 1 no GP Japão. Depois no Santiago Bernabéu, no mesmo dia em que Gomes festeja um hat-trick vs Montijo (7-0). No total, Jordão assina a notável marca de 14 golos com uma série de seis jogos seguidos sempre a marcar, em Fevereiro/Março, vs Espanyol (2), Betis (1), Las Palmas (2), Racing (1), Real Madrid (1) e Málaga (2).

 De nada lhe vale porque o Saragoça acaba em antepenúltimo lugar e desce à 2.ª divisão. Como se isso fosse pouco, o ambiente no balneário é do pior. Culpa do avançado paraguaio Arrúa. “Gosto de jogar em Espanha, onde o futebol é menos previsível que em Portugal. Aqui, qualquer jogo é uma incógnita e isso dá-nos força. Só que há um jogador que teima em criar problemas internos todos os dias sem parar. Ele, sozinho, conseguiu dividir a equipa e estou num ponto de saturação. Marquei 14 golos a jogar a extremo, lugar que desempenho com naturalidade a pedido do treinador mas ao qual não estou totalmente rotinado, porque há uma pessoa que insiste em jogar lá na frente.”

 O processo de deteriorização aumenta durante a pré-época, quando há rumores de que Jordão se recusa a entrar em campo para jogar a final do tal torneio Carlos Lapetra. “Falhei a meia-final por estar lesionado, com uma ciática. No dia da final, disse ao médico que continuava mal e ele contestou a minha dor. Lançaram-me em campo, como se eu estivesse a fazer teatro, e joguei a primeira parte para evitar mal entendidos com alguns dirigentes do Saragoça. No intervalo, com o Saragoça em vantagem, as dores eram realmente insuportáveis e foi o mesmo médico quem aconselhou a minha substituição. A partir daqui, nada a fazer. Ainda bem que apareceu o Sporting.”

 Nem mais. João Rocha, o lendário presidente, toma conhecimento da barafunda em Saragoça e resgasta Jordão para juntá-lo à já famosa dupla Manuel Fernandes-Keita. Uyyyy, isto promete. Jordão estreia-se num abir e fechar de olhos, com o Benfica (1-1), a 4 Setembro, em Alvalade. Na jornada seguinte, os dois primeiros golos (5-1 em Coimbra). A meio da semana, mais um golo, de penálti, em Bastia, para a Taça UEFA. No domingo, hat-trick ao Braga. No outro domingo, outro penálti, no Bonfim. É sempre a abrir. Até ao fim da primeira volta, Jordão acumula 15 golos. É, de longe, o melhor marcador da 1.ª divisão. O goleador mais próximo é Gomes, com oito. O problema é o dérbi da Luz, resolvido por um golpe de génio de Vítor Baptista com um golo indefensável, de primeira, sem deixar cair a bola, após dominá-la com o peito nas costas de Laranjeira. O que se segue é um fartote: todos à procura do brinco como se fosse agulha em palheiro e o Sporting à espera do apito do árbitro para o reinício do jogo.

 Por essa altura do 1-0, já Jordão está na Clínica São João de Deus, vítima de uma entrada de Alberto, aos 25 minutos. Com fracturas de tíbia e perónio, o seu regresso está previsto para daí a sete meses. Na melhor das hipótese. Na cama do quarto 306, Jordão recebe a vista do benfiquista Shéu e desvaloriza o lance. “O Alberto não me iria magoar propositadamente, não estou a ver um jogador a ‘arrumar’ outro dessa forma. Foi um lance casual e nós, profissionais, sabemos disso melhor que ninguém.” Esta maneira de ser acompanha Jordão ao longo da carreira, mesmo nos momentos mais críticos em que a arbitragem está no olho do furacão. “Temos de alertar as pessoas no sentido de que todas as equipas são prejudicadas, ali ou ali. O que me revolta é a falta de personalidade dos árbitros, que se deixam levar pelo ambiente das bancadas e também pelos dirigentes.”

 Ausente dos relvados até Setembro, o regresso de Jordão é festejado pelo Sporting na Amoreira. Um golo, pois claro. Na semana seguinte, outro. Agora ao Famalicão. Tu queres ver, o homem vai levantar voo outra vez? Não, nada disso. Antes de acabar a primeira parte, José Eduardo mete-o fora do campo com uma entrada a varrer. Conta o próprio, tranquilo da vida. “Quantas vezes é que já jogou à bola, quis dar uma cacetada num tipo e não conseguiu? E quantas vezes acabou por dar sem querer? Foi uma coisa incrível, tenho tudo gravado na cabeça. Pensei que o Jordão estava a fazer fita e ainda o insultei quando ele estava no chão. "Levanta-te meu maricas, meu pane..."; levanta-te lá, estás a fazer a ronha!" Depois gerou-se aquilo tudo: o treinador do Sporting saiu do banco, deu a volta ao campo e veio insultar-me, tinha o estádio todo contra mim.Foi do lado da bancada sul, antigo peão! O resto do jogo foi a equipa do Sporting a tirar de esforço comigo. Lembro-me do Keita, num canto, a ver se me pisava. No final do jogo os sócios assobiavam, faziam-se aos jornalistas. O falecido Neves de Sousa, que teve o azar de dizer que o lance lhe pareceu sem intenção, acabou por ver a cabine de rádio invadida. Tomei banho, tinha o meu pai à minha espera na porta 10 A, mas lá fora estava um ambiente de cortar à faca. Pego no meu pai, avanço e abrem-se alas... Naquela altura, bastava um tipo dar-me um toque e eu era linchado ali.”

 O azarado Jordão sofre mais cinco meses no estaleiro. Ainda volta nessa época 1978-79 e garante a vitória na reestreia, com um hat-trick ao Beira-Mar, em Alvalade (3-0). Até ao final da 1.ª divisão, mais três golos e acaba com oito, a dois da dupla Manuel Fernandes-Keita. Totalmente recomposto, Jordão só faz a primeira época de fio a pavio em 1979-80 e é o melhor marcador do campeonato, com mais golos (30) que jogos (28). Nesse caminho glorioso, há dois golos ao Benfica, um em Alvalade, outro na Luz, mais um penta (Rio Ave 5-0), um hat-trick (Espinho 4-0) e seis bis. Craque é craque e vice-versa. Jordão é do best. Marca com o pé direito, com o esquerdo e de cabeça. Na pequena área, dentro ou fora. É rei em qualquer parte do campo e é ele quem fecha as contas do título de campeão nacional, com o 3-0 ao União Leiria.

 O cenário do título de campeão nacional repete-se em 1981-82. A festa chega a três jornadas do fim, na Amoreira (3-0 ao Estoril). Com um golo de Jordão, óbvio. Uma semana depois, na festa em Alvalade, 7-1 ao Rio Ave com cinco golos. Acaba com 26 em 27 jogos. Uma média impressionante seja quem for, sobretudo alguém com 30 anos de idade. Aos 31, Jordão faz só isto: hat-trick ao Porto, em Alvalade (3-3). E marca um dos melhores golos de que há memória, de calcanhar. Nessa tarde, quem o está a marcar é Eurico. “Antes de mais, adoro o Jordão. É um ser humano muito, muito, muito sui generis. É coerente e inteligente. E era um predestinado. Às vezes, ainda discuto com ele sobre se ele fez de propósito ou não. É uma bola cruzada, tipo centro-remate e ele antecipa-se ao defesa, que sou eu. Na antecipação, eu espero que ele controle a bola. Em vez disso, ele mete a parte lateral da bota, calcanhar, e atira à baliza do Amaral, que não tinha a mínima hipótese. Foi no topo sul do antigo Alvalade. Um golo de antologia. De museu. Esse jogo acabou 3-3 e ele marcou os três golos. Mas isso não é tudo. Havia gestos técnicos, dribles e golos nos treinos que nos faziam ficar a olhar para ele. Eu fui um privilegiado por trabalhar com ele. De verde e branco [Sporting e Vitória FC].”

 Vitória FC? Sim senhor, Jordão acaba a carreira em Setúbal. Sai do Sporting em 1986, incompatibilizado com o treinador Manuel José, que o substitui pelo inglês Ralph Meade nas duas últimas jornadas. Sem jogar um minuto que fosse, Jordão perde o comboio dos convocados de José Torres para o Mundial do México. Nem Jordão nem Manuel Fernandes, melhor marcador da 1.ª divisão dessa época 1985-86. Se Manuel Fernandes continua no Sporting, como capitão, já Jordão pendura as chuteiras, aos 34 anos. Parece uma decisão definitiva. Parece. Um ano depois, no Verão 1987, é a vez de Manuel Fernandes sair de Alvalade, rumo ao Vitória FC, treinado pelo inglês Malcolm Allison, o tal que levara o Sporting à dobradinha em 1982.

 Os dois chamam por Jordão, já completamente livre dos compromissos desportivos. “Durante cinco meses, treinou connosco para recuperar a forma física. Acabou por assinar”, conta um orgulhoso Roger Spry, numa alusão ao dia 12 Novembro 1987, quando Jordão fecha contrato com o Vitória. “Ele estava tão bem preparado que ainda fez duas épocas. Aliás, duas grandes épocas”, garante o preparador físico inglês, a começar a dar nas vistas no Bonfim pelos treinos excêntricos, com música. Desta vez, ele não nos está a dar música. Com 35 anos, Jordão estreia-se no Bonfim com um golo ao Chaves. Com 36 anos, em 1988-89, despede-se à grande, como melhor marcador da equipa (11 golos, à frente de Aparício 10 e Cadete 8), e o Vitória em quinto lugar, a três pontos da Taça UEFA.

 Ponto final, agora sim. A obra está concluída. E que obra. Melhor que os golos, só mesmo os festejos. Aqueles em bicos de pés com o braço direito levantado, bem levantado. Jordão allez allez.  

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