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Os 100 anos da selecção portuguesa
Desporto 8 min. 18.12.2021
Histórias da bola

Os 100 anos da selecção portuguesa

A 30 de junho, Rui Patrício foi um dos 'heróis' da seleção portuguesa de futebol, que assegurou a presença nas meias-finais do Euro2016, ao bater a Polónia por 5-3 no desempate por grandes penalidades.
Histórias da bola

Os 100 anos da selecção portuguesa

A 30 de junho, Rui Patrício foi um dos 'heróis' da seleção portuguesa de futebol, que assegurou a presença nas meias-finais do Euro2016, ao bater a Polónia por 5-3 no desempate por grandes penalidades.
Foto: Miguel A. Lopes/Lusa
Desporto 8 min. 18.12.2021
Histórias da bola

Os 100 anos da selecção portuguesa

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
No dia 18 Dezembro 1921, Portugal perde 3:1 em Madrid e o primeiro golo é de penálti, obra de Alberto Augusto. Por isso mesmo, vamos só falar dos jogos resolvidos nos penáltis.

Cem anos, a selecção portuguesa faz cem anos este sábado. Na tarde de 18 Dezembro 1921, Portugal apresenta-se em Madrid com um onze de grande categoria. Na baliza, Carlos Guimarães (Internacional, o famoso CIF ali em Belém). Na defesa, Pinho (Casa Pia) e Jorge Vieira (Sporting, primeiro árbitro português a apitar um jogo internacional, entre Espanha e Bélgica, também em 1921, até antes deste, em Outubro).

No meio, João Francisco (Sporting), Vítor Gonçalves (Benfica, pai de Vasco Gonçalves, um dos militares de Abril) e ainda Cândido de Oliveira (esse mesmo, o da Supertaça portuguesa, e capitão desta equipa). No ataque, o extremo direito é Gralha (Casa Pia). Ainda hoje, o mais jovem de sempre a representar a selecção, com 16 anos. Depois, Augusto Lopes (Casa Pia), Ribeiro dos Reis (Benfica, fundador do jornal A Bola, juntamente com Cândido de Oliveira), Artur Augusto (FC Porto) e Alberto Augusto (Benfica, irmão de Artur).

A partir daqui, a crónica do jogo é da autoria do jornal O Século. 

MADRID, 18 - O encontro de foot-ball realizado hoje em Madrid foi de 3 goals a 1 a favor dos hespanhoes. Acrescentamos, porém, ao telegrama que o resultado para a équipe portugueza, apesar de ser uma derrota, não desvalorisa o foot-ball nacional. Assim é, de facto, pois ainda há bem pouco tempo os jogadores belgas, vencedores dos últimos jogos olímpicos, considerados, portanto, campeões do mundo, sofreram a derrota dos hespanhoes de 2 goals a 0. Não será o resultado do encontro Portugal-Hespanha honroso para nós? Certamente que sim e teremos de atender à má confecção do team, às dificuldades que a AFL teve para o organisar e a falta de interesse manifestado por várias entidades, a começar pelo Estado, que dificilmente concedeu licença a alguns jogadores, funcionarios publicos.

MADRID, 19 - A partida de foot-ball entre portuguezes e hespanhoes efectuou-se no meio de grande anciedade. Mais de 12 000 pessoas assistiram ao desafio e no campo as tribunas ostentavam colgaduras vendo-se bandeiras dos dois paizes entrelaçadas. Os vivas a Hespanha cruzaram-se de mistura com os vivas a Portugal. Os hespanhoes começaram jogando com grande impeto e, poucos momentos depois, Meana, com um remate de cabeça, consegue o primeiro ponto para a Hespanha; 5 minutos mais tarde, Alcantara consegue o segundo. Continua o desafio, ganhando bem as duas équipes. Termina então o primeiro tempo, com dois pontos a favor de Hespanha e nenhum a favor de Portugal. 

No segundo tempo, Alcantara consegue o terceiro ponto para a Hespanha, o que estimula os portuguezes, que procuram dominar os hespanhoes, mas não fazem ponto algum, porquanto estes são superiormente aparados pelo keeper hespanhol. Os portuguezes conseguem fazer um ponto, em virtude de uma mão metida na arena do goal, o que dá ocasião a uma enorme ovação a Portugal. A partida termina, contando os hespanhoes 3 pontos e os portuguezes 1. Ovações e hurrahs tanto à Hespanha como a Portugal. O arbitro do desafio foi Cazelle, do colégio belga, que tambem foi muito ovacionado pela imparcialidade e oportunismo que deu provas.

LISBOA, 21 - O Rocio assistiu hontem a uma grande movimentação de pessoas para aplaudir a équipe portugueza, que honraram o foot-ball nacional apesar do triunfo dos hespanhoes, no primeiro encontro oficial dos portuguezes. Alberto Augusto, autor do golo, foi levado em ombros.

Isso mesmo, o golo português é de penálti. Como tal, falamos só de penáltis. Os desempates, queremos dizer. Portugal acumula cinco desempates e o saldo é-lhe favorável pela margem mínima. O começo é simplesmente arrepiante. Estádio da Luz, 24 Julho 2004. Ai se o futebol fosse sempre assim (suspiro). Um dos jogos mais empolgantes de sempre e assistência recorde do Euro-2004 com 62,564 espectadores na Luz. Um erro de Costinha custa o madrugador 1-0 de Owen, sem hipótese para o atanrantado Ricardo, só que um toque acidental de Jorge Andrade no calcanhar de Rooney aos 23 minutos retira poder (e de que maneira) à Inglaterra – que joga à antiga, de 1 a 11 nas camisolas. 

As substituições de Scolari provocam a reviravolta no marcador, através dos suplentes Postiga (cabeceamento indefensável entre Terry e Campbell) e Rui Costa (um pontapé do outro mundo, fora da área, já no prolongamento). O guião ainda sofre um revés inesperado, com o 2-2 de Lampard na sequência de um canto. Vamos para penáltis, suspense. Beckham e Rui Costa atiram por cima, na primeira série. Na segunda, Postiga imita Panenka e Ricardo fecha as contas com um dois-em-um memorável: defende o remate de Vassell, sem luvas, e fixa o 6-5. É a loucura, com o trânsito entupido em toda a Lisboa.

Passam-se dois anos e a coincidência bate uma continência. Mundial-2002, quartos-de-final: Scolari (Brasil) elimina Eriksson (Inglaterra). Euro-2004, quartos-de-final: Scolari (Portugal) elimina Eriksson (Inglaterra). Mundial-2006, quartos-de-final. Há outro Scolari vs. Eriksson, há outro Portugal-Inglaterra. À terceira é de vez? No way, Scolari (e Portugal) elimina Eriksson (e Inglaterra). Sem Costinha nem Deco, ambos suspensos pelas expulsões vs Holanda, a selecção reinventa-se com Petit e Tiago. Em Gelsenkirchen, onde o Porto conquistara a Liga dos Campeões há dois anos, os repetentes Ricardo Carvalho, Nuno Valente e Maniche voltam a cantar vitória num jogo de cortar a respiração, com prolongamento e mais penáltis. 

Pelo meio, aos 62', Rooney é expulso por pisar Ricardo Carvalho. Mesmo em vantagem durante uma hora, Portugal não consegue encontrar o caminho da baliza e o jogo vai para penáltis. Aí, e tal como no Euro-2004, vale-nos o instinto de Ricardo, com três penáltis defendidos (Lampard, Gerrard, Carragher, só não defende a bola de Hargreaves). É curioso que o herói do jogo seja um leão no dia do centenário do Sporting.

Avançamos até 2012 e aí solta-se um grande aaaaarghhhhh. Portugal cai nas meias-finais do Europeu pela terceira vez. Se em 1984 é o prolongamento, se em 2000 é o golo de ouro, em 2008 é o desempate por penáltis. Como é habitual na era Paulo Bento, a selecção entrega a iniciativa ao adversário só para ver o que acontece e a Espanha não ata nem desata, está assim para o aburguesado. Se nós, portugueses, somos os inventores do futebol sem balizas, a Espanha de Donetsk joga catenaccio ofensivo. Como tal, Casillas e Patrício tornam-se espectadores atentos, impávidos e serenos. Entre eles, uma só defesa (Xavi, 68'). De resto, é tudo ao lado. Peep, peeeeep, peeeeeeeep, o árbitro turco Çakir apita aos 119’59’’. Vamos para os penáltis. Será que agora Patrício vai ter trabalho? Yeaaaaaah, finalmente. Xabi Alonso obriga-o a ser o primeiro herói do desempate, só que não o último. Esse é Fàbregas, às 00h23, depois de Casillas adivinhar o remate de Moutinho e de Bruno Alves ter acertado estrondosamente na trave. Para mal dos nossos pecados, saímos a chorar. E já nem vemos a Espanha golear a Itália na final de Kiev (4-0).


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Marselha, 2016. Marselha, essa cidade maldita. No Euro-84, o Velódromo assiste à eliminação de Portugal aos pés da França com um golo de Platini em cima dos 120 minutos. Agora, outro galo cantará. Ou não? O começo é o mais desastroso possível: Cédric escorrega e abre uma autoestrada para a conexão entre Grosicki-Lewandowski, 1-0. Como é seu timbre, Portugal de Santos responde à altura. Renato tabela com Nani e enche o pé esquerdo para o golo (pormenor delicioso: na jogada anterior, Nani não devolve a bola e Renato chamara-o a atenção para esse facto). 

Daí para a frente, joga-se futebol sem balizas. A angústia prolonga-se até aos penáltis. Aí, somos reis e senhores com 100% de aproveitamento, algo que nos acontece pela primeira vez num desempate em fases finais: Ronaldo, Renato, Moutinho (este incentivado pelo capitão com o célebre "tu bates bem pá, tu bates bem"), Nani e Quaresma. No lado polaco, Blaszczkowski atira para o lado esquerdo de Patrício e o guarda-redes português adivinha-lhe o intento. Sobra o remate de Quaresma e o número 20 é o herói do jogo pelo segundo jogo seguido.

Menos de um ano depois (30 Junho 2016 – 28 Junho 2017), o quinto e último desempate. Há uma tradição bem portuguesa nas grandes provas. Vejam lá bem: primeiro Mundial e somos eliminados nas meias-finais, no tempo regulamentar (2-1 para a Inglaterra); primeiro Europeu e somos eliminados nas meias-finais, após prolongamento (3-2 para a França); primeira Taça das Confederações e somos eliminados nas meias-finais, no desempate por penáltis. O Chile merece a vitória, mais pela pressão exercida durante o prolongamento em que colecciona um penálti não assinalado de José Fonte sobre Francisco Silva (o vídeo árbitro falha clamorosamente), aos 113 minutos, uma bola no poste (Vidal) e outra na barra (Rodríguez), na mesma jogada, aos 119. 

Na lotaria dos penáltis, Patrício defende zero, Bravo vai a todas, desde Quaresma a Nani, com Moutinho pelo meio. Acaba três-zero e é o Chile quem joga a final com a Alemanha. A nós, resta-nos a consolação do terceiro lugar vs México.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico)

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