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Opinião. Superliga superchata
Barcelona's Argentinian forward Lionel Messi ties his shoelaces during the UEFA Champions league first leg quarter-final football match between Manchester United and Barcelona at Old Trafford in Manchester, north west England, on April 10, 2019. (Photo by LLUIS GENE / AFP)

Opinião. Superliga superchata

Foto: AFP
Barcelona's Argentinian forward Lionel Messi ties his shoelaces during the UEFA Champions league first leg quarter-final football match between Manchester United and Barcelona at Old Trafford in Manchester, north west England, on April 10, 2019. (Photo by LLUIS GENE / AFP)
Editorial Desporto 3 min. 12.04.2019

Opinião. Superliga superchata

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Este texto, escrito um dia antes do início dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, era suposto ser sobre futebol. Mas na verdade é sobre dinheiro. A ganância já destruiu a maior parte do interesse no desporto-rei, mas como a ganância é um pecado insaciável, há novos planos para acelerar esse processo.

Antes do sorteio, um amigo dizia-me como quatro equipas – Liverpool, Manchester City, Juventus e Barcelona – nunca iriam encontrar-se nos quartos-de-final. Ele devia conhecer a temperatura das bolas do sorteio, pois acertou em cheio. Continuando o exercício de futurologia, é provável que as mesmas equipas avancem para as meias-finais. Porque a Liga dos Campeões, vendida como o supra-sumo do futebol, a sua mais estelar competição com o mais alto nível de jogo, é no fundo a competição mais previsível que existe. 

Tudo é cuidadosamente desenhado para que os tubarões ganhem facilmente os seus grupos e avancem em seguida até aos jogos que realmente contam sem terem de cansar-se muito. Ano após ano, nas fases mais avançadas da Champions, aparecem os mesmos sete ou oito clubes, por vezes acompanhados de uma surpresa para compor o estafado ramalhete. Esses sete ou oito clubes ganham mais vezes, arrastam mais contratos de TV, vendem mais camisolas na China, compram todos os bons jogadores (e ainda alguns menos bons só por vício), têm mais poder de bastidores… e ganham mais vezes. O círculo vicioso nunca acaba; a cada ano, o fosso vai crescendo. É tudo cada vez mais previsível e há cada vez mais goleadas, outro sinal evidente de que algo está profundamente errado.

Só que, para os clubes ricos, os PSG e Manchester City desta vida, ainda não chega. Eles ainda temem o risco – largamente teórico – de uma época má significar uma eliminação precoce ou mesmo (horror) a não qualificação para a Liga dos Milhões. São precisamente os clubes mais protegidos da história deste desporto os que estão neste momento a planear em (falhado) secretismo a criação de uma "Superliga dos Campeões" – o adjetivo "super" aqui existe para desviar a atenção do facto de que os participantes deste torneio, rigorosamente sempre os mesmos, jogariam ali por convite; talvez nenhum deles fosse "campeão”"naquele momento…

Várias ligas nacionais, preocupadas, reuniram-se na semana passada no estádio da Luz para combater esse projeto, e o presidente da Liga espanhola já veio a público classificar a ideia como "mentira catastrófica", definindo a situação com uma metáfora: "os clubes ricos, embriagados de dinheiro, cozinham um banquete para 12 ou 13 e, acabados de se empanturrar, convidam os restantes para o café. Depois dizem que todos celebraram, o que é mentira".

As ligas nacionais já perceberam que o futebol só existe se legitimado pelos seus alicerces, pelos clubes locais, pela possibilidade de uma equipa bem gerida chegar ao topo; pela emoção de ir ao estádio, de ver um David a derrotar um Golias, pela incerteza do resultado e a competitividade. Nada disto existe no vazio de ver um Bayern-Atlético repetido à exaustão, ano após ano, jogado ao meio-dia de um sábado para que os adeptos que realmente interessam, aqueles nos mercados asiáticos, possam assistir ao jogo à noite, confortavelmente instalados no sofá.

É um paradoxo tão antigo quanto irresolúvel: na "societária" Europa, berço do Estado-providência, da proteção social aos mais desfavorecidos, etc, etc, o desporto é abandonado às leis implacáveis dos mercados – pior, o regulador (neste caso, a UEFA) tudo faz para que a concentração de riqueza não pare de aumentar. E se a cascata de moedas não for suficiente, na dúvida lá aparece um árbitro a marcar um penálti a favor da equipa mais mediática. Os poderosos são intocáveis.

Por outro lado, nos "individualistas" Estados Unidos, berço do big business, do capitalismo sem piedade e do winner takes all… as ligas insistem em fazer o seu trabalho, que é a criação de igualdade de oportunidades para todos os intervenientes. Desinclinar o campo, se preferirem. A NBA instituiu uma limitação salarial (que é igual para todos): para contratar uma estrela bem paga, é preciso libertar jogadores que serão muito úteis a outras equipas.

E ali, em todos os desportos profissionais, os jogadores que entram no sistema – provindos da formação nas universidades, ou no estrangeiro – são escolhidos em primeiro lugar pelas equipas mais fracas, que assim ficam com os jovens mais promissores, reequilibrando uma vez mais o sistema. Os árbitros também são fiáveis. Resultados: jogos imprevisíveis, ligas prósperas. Sem matar a galinha dos ovos de ouro com jogos chatos, que é exatamente o que o futebol está apostado em fazer.

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