Escolha as suas informações

Opinião. Imbecilidade no banco dos réus
Editorial Desporto 3 min. 21.11.2019

Opinião. Imbecilidade no banco dos réus

Opinião. Imbecilidade no banco dos réus

Foto: Lusa
Editorial Desporto 3 min. 21.11.2019

Opinião. Imbecilidade no banco dos réus

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
Mais de 40 adeptos do Sporting sentam-se agora num tribunal, para serem julgados por actos de terrorismo, cometidos contra a sua equipa de futebol.

Os acontecimentos têm mais de um ano e ainda estão na memória de toda a gente. Um grupo de vândalos assaltou a Academia do Sporting, em Alcochete, para agredir os jogadores de futebol que não conseguiram os resultados desportivos desejados pelos adeptos.

Com cumplicidades que o julgamento há de esclarecer, bateram, partiram, lançaram o terror e depois fugiram, crentes que os seus actos ficariam impunes.

Dias depois, começaram a ser presos e, nos interrogatórios, como não são gente fiável nem de grande coragem, foram delatando os nomes de todos quantos participaram naquela vergonhosa acção de cobardia e imbecilidade. Assim, as suspeitas de autoria moral que recaiam sobre o então presidente do Sporting adensaram-se e também ele acabou detido, ainda que, por breves dias.

Alguns dos intervenientes passaram um ano em prisão preventiva, tempo suficiente para atingirem o arrependimento suficiente que os levou a colaborar com as autoridades, na denúncia dos pormenores mais sórdidos dos acontecimentos.

As claques são o esconderijo de gente tóxica que contamina o futebol e tudo o que rodeia.  

Durante a investigação, a polícia confirmou outras suspeitas graves que, há muito tempo, atingem as claques organizadas de todos os clubes, como seja, o tráfico e comercialização de droga.

Ficou-se também a saber como é que os principais responsáveis destes grupos, sem meios de vida conhecidos, conseguem viajar pelo país e pelo estrangeiro, frequentar restaurantes de luxo e transportar-se em carros de gama alta.

Estes grupos – estou a incluir aqui todas as claques, incluindo as do clube da minha devoção – são autênticos covis de crime organizado. Recordo três homicídios, inúmeros assaltos a estações de serviço, agressões, furtos e actos de vandalismo gratuito.

Todo este tipo de actividade mobiliza meios policiais imensos, pagos com o dinheiro dos contribuintes. Basta reparar nos dispositivos policiais estacionados, nas estações de serviço, sempre que estas claques viajam.

Mas há ainda coisa muito pior. Adquiriram um poder ilícito e ilegal dentro dos clubes, onde se mexem como intocáveis e capturaram o ambiente dos estádios. Em troca disto, assumem-se como tropa de choque de grupos de interesses inconfessáveis, muitas vezes, das próprias direcções dos clubes que os utilizam, em assembleias gerais, para boicotarem os trabalhos e para intimidarem os sócios que se distinguem na crítica.

Tudo isto já devia ter acabado, mas o poder político tem condescendido, porque teme estes bandos. Para amaciar a questão, fez uma lei que obrigava as claques a legalizarem-se. Pretendia-se, com isso, identificar responsabilidades e regular as suas atitudes. Mas foi um esforço que resultou em coisa nenhuma. As claques do Benfica até desafiaram a lei e não se legalizaram. Para iludirem a vigilância policial, deslocam-se agora, pelo país inteiro, em carros alugados.

As claques são o esconderijo de gente tóxica que contamina o futebol e tudo o que rodeia.

O julgamento que agora começou vai prolongar-se, pelo menos, até fevereiro do próximo ano. E, a acreditar no número de “arrependidos” e delatores, é quase certo que haverá muitas condenações. Mas persiste a questão principal: será que isto vai servir de lição a alguém? Deseja-se que sim, sobretudo, que as direcções dos principais clubes portugueses entendam que aquela gente não faz falta a esse belíssimo e emocionante espectáculo que é o futebol.


Notícias relacionadas