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Venha de lá esse drama
Opinião Desporto 4 min. 25.07.2021
Olimpíadas de sofá

Venha de lá esse drama

No ténis de mesa, Ni Xialian, igualmente da selecção olímpica luxemburguesa, chegou à segunda ronda, onde perdeu com Y Shin, sul-coreana, 41 anos mais nova.
Olimpíadas de sofá

Venha de lá esse drama

No ténis de mesa, Ni Xialian, igualmente da selecção olímpica luxemburguesa, chegou à segunda ronda, onde perdeu com Y Shin, sul-coreana, 41 anos mais nova.
Foto: AFP
Opinião Desporto 4 min. 25.07.2021
Olimpíadas de sofá

Venha de lá esse drama

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Eis o primeiro caso político nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Fethi Nourine, judoca argelino, recusou competir com o israelita Tohar Butbul, desistindo dos Olímpicos "por razões ideológicas". A causa da Palestina sobrepõe-se a qualquer competição, disse o atleta da Argélia, que no último campeonato do mundo já tinha feito o mesmo. Em relação ao mesmo adversário. Entre os portugueses, começa a surgir o drama. E os bilhetes de regresso para Portugal.

Está certo que Nelson Oliveira, ciclista de Anadia, chegou à meta atrasado, ficando na 41º posição na prova olímpica de estrada de ontem, mas não tanto que só tivesse chegado hoje. Pode ser que tenha passado em claro a história extraordinária do rapaz que venceu esta prova, Richard Carapaz, do Equador. Ora aí está um daqueles heróis olímpicos que o mundo gosta e o Equador idolatra. Filho de agricultores, de uma família pobre, lembra-se que o dia mais feliz da sua vida - tirando evidentemente o de ontem, assim como o dia em acabou o Giro d´Itália vestido com a camisola rosa, em 2019 -, foi quando os pais lhe ofereceram a primeira bicicleta. Só pode ter sido quando estava a dormir que lhe roubaram a "bici", como lhe chamava. Acordado, ele e a "bici" eram inseparáveis. Como não tinham dinheiro para lhe comprar outra bicicleta, o pai foi arranjando partes, como se estivesse a fazer um ciclo-puzzle. Carapaz ainda guarda esta bicicleta, pois era garantido que esta ninguém roubava. "Não tinha selim, não tinha pneus, estava cheia de ferrugem, abanava por todos os lados". Para se chegar onde Richard Carapaz chegou é preciso muito sofrimento, garantiu a sua mãe, que nunca o deixou desistir. Nos últimos tempos, o filho tem-na feito chorar muito. Geralmente, começa a 250 metros da meta. O Equador já tem o seu herói. E a segunda medalha da sua história olímpica. Ainda no ciclismo, a atleta luxemburguesa Christine Majerus, ficou em 20 na prova de estrada.

Nos JO, já sabe, num ápice se passa da glória ao drama. Ainda em choque, Afonso Costa e Pedro Fraga, os remadores portugueses que disputaram a prova de repescagem (outra vez, a maldição) para a final, estavam inconsoláveis. "Parece que não é realidade", disse Pedro Fraga, deixando depois uma enigmática metáfora para um desporto aquático: "O pão com marmelada cai sempre com esta virada para o chão". A marmelada, neste caso, foram oito milésimos de segundos, que foi a diferença entre uma presença na final ou uma presença na final dos remadores tristes, na categoria C: "Resta-nos agora fazer o melhor possível por Portugal". Certo. O melhor dos piores é o 13º lugar.

Perto do drama esteve a atleta portuguesa Shao Jiene, no ténis de mesa, a perder por 0-3 logo na primeira ronda, frente à sueca Christina Kallberg, feliz da vida. Eis que Jeine (entretanto eliminada na 2ª ronda) deu um grito, que dada a não-presença de gente nas bancadas, ecoou por Tóquio e chegou a Portugal. A sueca nem queriam acreditar quando se viu eliminada pelo parcial de 4-3. Sinceramente, parecia portuguesa. Igual sorte teve Tiago Apolónia, que passou tranquilamente à segunda ronda em masculinos. Sorte contrária teve a luxemburguesa Sarah de Nutte, no ténis de mesa, perdendo na primeira ronda com a búlgara Polina Trifonova. Ni Xialian, igualmente da selecção olímpica luxemburguesa, chegou à segunda ronda, onde perdeu com Y Shin, sul-coreana, 41 anos mais nova. Como? Fácil: Xialian, que representa o Luxemburgo desde 1991, nasceu em Xangai a 4 de Julho de 1963. É atleta mais velha dos JO de Tóquio: 58 anos.

Drama olímpico de primeira água só podia ser na natação. José Paulo Lopes venceu a primeira eliminatória de 400 metros estilos, estabeleceu um novo recorde pessoal, mas nada disto foi suficiente para chegar à final, pois o seu melhor tempo de sempre foi apenas o 20º melhor da prova. Pior que isto, só uma pessoa ser eliminada duas vezes num só dia. Ao raiar do dia em Portugal, Pedro Sousa já tinha sido eliminado na prova de singular do ténis. Lá para o meio-dia, a dupla Sousa (Pedro e João) foram eliminados na prova de pares. Como uma desgraça nunca vem só, nos desportos colectivos, a equipa de andebol portuguesa foi derrotada pelo Egipto. "Agora é levantar a cabeça e corrigir o que fizémos mal neste jogo". Alguém anda a ouvir as flash-interviews dos jogadores de futebol.

Boas notícias, mas não vai soar bem: Fénix de Tireo, montado por Maria Caetana, de Portalegre, na modalidade de Ensino, fizeram justiça aos pergaminhos olímpicos de Portugal no hipismo, o mesmo acontecendo com Rodrigo Torres, montando o Fogoso. Os cavaleiros portugueses nem foram eliminados nem apurados para a final, mas os seus resultados foram animadores. Foram? A delegação olímpica portuguesa, já assoberbada com os voos de regresso, diz que sim.

As más notícias, tirando as outras todas: já são 132 os contaminados por covid-19 nas aldeias olímpicas. E as previsões meteorológicas apontam para a chegada de um tufão a Tóquio. Não me digam que é por isso que os atletas portugueses estão a fazer as malas à pressa.

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